17 de agosto de 2009
What’s so funny about peace, love and understanding?
Por Arnaldo Branco
Woodstock está fazendo 40 anos e seu caráter simbólico é ressaltado toda vez que lemos sobre a escalação do festival. Onde foram parar a Keef Hartley Band ou Melanie? Parece o famoso show da Bossa Nova no Carnegie Hall (1962), em que vários bicões conseguiram entrar para a História porque arranhavam um violão e conheciam o promoter certo.
Nos tais três dias de música & paz nasceram vários bebês que hoje lamentam a data redonda e seus nomes que aludem a fases da lua ou livros do Herman Hesse. Mas nada envelheceu pior que o idéario hippie, que ficou ridículo assim como todos os que apostaram na fraternidade humana.
Chamaram os anos 70 de “Década do eu”, como se fosse só uma ressaca materialista depois do grande sonho conjunto, e como se a consciência cósmica fosse voltar à moda na geração seguinte. Mas outras décadas do eu se sucederam e o os sessenta agora são vistos como um período bizarro em que malucos vestidos de duende acreditavam ser possível construir uma sociedade baseada na confiança mútua.
Toda aquela crença nos benefícios da coletividade parece mesmo ter sido induzida pelo uso de drogas, ainda mais com as desvantagens evidentes - comida e água (para banho inclusive) insuficiente, rodas de violão etc. Mas existe uma contradição que sempre achei digna de nota.
Que é a seguinte: hoje somos dedicados a nos adorar, mas nunca nos sentimos tão inadequados. Todo mundo agora é blasé, mas todas as músicas são sobre namoradas que não retornam a ligação. Todo mundo é cínico nesse smart ass contest que é a internet, mas na hora de lidar com problemas reais, dá-lhe prozac.
Os hippies foram acusados de fugir da realidade, mas interferiram nela e caíram no ridículo porque não se davam conta dele. Hoje o twitter nos pergunta diariamente o que estamos fazendo, e a resposta invariavelmente é nada.
22 comentários para “What’s so funny about peace, love and understanding?”
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17 de agosto de 2009 às 14:43
Triste…
17 de agosto de 2009 às 15:22
Rapaz, gosto muito do que você escreve e desenha. Em verdade, acho os cartunistas como você, Dahmer e afins muito mais inteligentes que a média da internet.
Não sou fã de vocês, pois essa boiolagem não rola, mas vocês são muito bons.
17 de agosto de 2009 às 15:47
http://en.wikipedia.org/wiki/We%27re_Only_in_It_for_the_Money
17 de agosto de 2009 às 16:31
Acho que nenhum daqueles hippies queriam mudar algo…they’re were only having a good time…o papo de mudar o mundo foi o gancho da mídia…as organizações radicais mobilizadas no processo de disputa e tomada de poder estavam fora dessa festa…
17 de agosto de 2009 às 18:32
Muito bom, Arnaldo. Gostei, principalmente, do comentário sobre os tempos presentes, quando, parece, depois de tanto se achar, a galera se perdeu.
Não sei se o que envelheceu mal foi o ideário ou foram suas releituras, muitas delas estapafúrdias. Principalmente nos EUA, onde havia uma rigidez de costumes muito forte, acho que aqueles tempos foram uma ruptura definitiva. No Brasil, a gente já tinha o Carnaval, e muito do que se viu na época foi uma certa macaquice.
Depois, no mundo inteiro, tudo virou seita ou comércio, o que acontece na decadência de toda ruptura. Mas, hoje, acho que a geração com entre 17 e vinte e tantos tem muito mais afinidade com os 70 do que com a minha galera de pós-quarentões cínicos e roliços
Vi a foto do Paulo Coelho que o Zé postou lá, mas a síntese, para mim, da virada toda, é a Baby Consuelo, que viveu em comunidade, se dizendo “detentora da marca Novos Bahianos” (no Joaquim Ferreira dos Santos, há uns dois meses) e por isso, embarreirando um documentário sobre o grupo.
17 de agosto de 2009 às 22:35
Excelente texto.
Vale lembrar que Woodstock não foi o único marco da enxurrada de merda que se sucedeu após os anos 60 - Maio de 68 englobou uma série de eventos que alardearam pelo mundo inteiro o poder da juventude na política, a ação direta de massas como ferramenta política efetiva e uma monte de idéias bonitas e geniais.
De maneira similar a Woodstock, todos os jovens das passeatas de 68 deram lugar aos políticos mais reacionários, conservadores e autoritários que já vimos a partir dos anos 70. Margaret Thatcher, economia neoliberal, crise do petróleo, revolução teocrática no Irã, guerras entre Israel e muitas outras coisas que indicam uma “conservadorização” do mundo aconteceram depois disso.
Tudo isso acontecendo com os intelectuais e jovens de 68 virando adultos e chegando a posições de poder. Bem triste.
18 de agosto de 2009 às 12:05
Citando o Dahmer:
Gênio da raça.
18 de agosto de 2009 às 12:59
Foi a Crise do Petróleo o mote pros reaças retomarem o poder.
18 de agosto de 2009 às 13:08
Arnaldo, o texto como sempre tá excelente, mas eu queria fazer um aparte: a década de 70 virou “década do eu” não por causa de uma ressaca materialista, mas por causa dos “baby-boomers”, as crianças nascidas no pós-guerra nos EUA, que viveram numa prosperidade sem precedentes e foram mimadas a não mais poder por pais que ainda se lembravam do perrengue que tinha sido a Crisde 1929. Essa turma superprotegida tornou-se a juventude hipernarcisista e egocêntrica que tomava todas, transava todas e não ligava pra nada nos anos 70, ao contrário de seus pais que sempre viveram em função de sua família e de seus valores (pais sem lazer, mães donas de casa, esse tipo de coisa).
18 de agosto de 2009 às 16:47
a verdade é q acabou em 1972 com a declaração do tal presidente de que ninguem mais iria para o vietnã…tudo bem q quem tava la naum iria voltar mas os outros, hippie era classe média, ficaram satisfeitos com isso “bom, podemos voltar as nossas vidas ganhar dinheiro e comprar um monte de coisas divertidas, já q nossos pais não dão mais mesada pra comprar maconha”…we lost the value but we kept the weed citando o brian e eu gosto da música daqueles hippies
18 de agosto de 2009 às 18:31
e o que será que falarão do nosso tempo daqui há 40 ou 50 anos? a geração que quando estava descontente montava um blogue?
19 de agosto de 2009 às 13:06
Luisandro, espero que não haja mais pessoas daqui à 40 ou 50 anos…
19 de agosto de 2009 às 17:01
É, meu velho.
Eu ainda acredito na fraternidade humano e em sonhos coletivos, correndo diariamente o risco de parecer rídiculo. Certas coisas, para mim, nunca envelhecem. Como o soco no estomâgo que você deu no último parágrafo, parabéns, ficou lindo.
abraços,
Pedro
19 de agosto de 2009 às 19:12
Não há progresso sem desvio do normal.
19 de agosto de 2009 às 20:14
pronto, agora posso dar alt+f4 e voltar a trabalhar para enriquecer alguém, pois o que importa no final é o Delta EVA (i vi êi) ficar positivo.
20 de agosto de 2009 às 13:47
essa coisa de um mundo mútuo melhor era mesmo a onda high, todo mundo chapado acreditando que mudaria o mundo. depois ficaram lúcidos e esqueceram a porra toda…
boa sacada sobre o dia depois de ontem… blasé choramingando, masturbação de ego e administração de tarjas pretas pra lidar com o mondo cane… interno, é claro.
20 de agosto de 2009 às 13:48
podemos ser fraternos sem ser ridículos…
20 de agosto de 2009 às 14:38
Antes hippies sonhadores e chapados que babacas antenados e cheios de opiniões.
20 de agosto de 2009 às 14:40
Antes um culto de fraternidade e sexo livre do que a estetização do corpo e da mente atual.
20 de agosto de 2009 às 20:52
parabéns pelo texto
21 de agosto de 2009 às 6:08
Adorei o “somos dedicados a nos adorar”. Golpe sórdido do liberalismo: dessimbolizou o mundo e criou um sujeito precário, solicitado a se autofundar num grotesco vácuo subjetivo. O que restou para nossa geração foi consumir as próteses identitárias disponíveis no mercado.
Agora o máximo da transgressão são essas “ego parades” e xiliques visanto cotizações mil.Saudade dos tempos em que o homem ria mais de si mesmo.
22 de agosto de 2009 às 7:29
FASCISTA!!!!!!!!!!1