4 de maio de 2009
Vivendo em negação
Por Arnaldo Branco
Ontem no Maracanã me juntei bem feliz ao coro de “Festa na favela”. Nunca tive problema em me identificar com um lugar onde moram pessoas pobres porque, para meus parâmetros, sou miserável. E, ademais, é melhor do que formar com as fileiras dessa classe média com eterno medinho de assalto.
Imagino o nível de negação de um indivíduo que mora na favela e decide torcer para outro time do Rio que não o Flamengo. Fazendo coro com sua torcida para ofender o adversário ironizando sua própria condição de favelado, só um enorme esforço de abstração pode impedir sua cabeça de explodir.
Já para um sujeito remediado, o grito de favela tem função terapêutica: exorcizar a nossa pobreza é a única forma de fazê-la parecer erradicável. Já que não podemos entrar no primeiro mundo pelo sistema da competência, no resta ao menos fantasiar. É só fingir que 70% da nossa população simplesmente não está lá.
Lembro que depois da eleição do Lula, antes mesmo dele ter as primeiras oportunidades (muito bem aproveitadas) de queimar o filme, recebia e-mails com piadas sobre seu passado como pau-de-arara, geralmente repassadas por pessoas com formação universitária sustentadas pelos pais e que não chegarão a presidente nem da sua associação de bairros. E sem nenhuma sensibilidade para perceber a ironia.
De qualquer forma, ressalte-se a inutilidade do xingamento e a blindagem da Magnética. Uma torcida que adotou uma piada racista (o Urubu) como emblema, que canta que Obina é melhor do que o Eto’o e que Maurinho é seleção é 100% à prova de pilha.
14 comentários para “Vivendo em negação”
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5 de maio de 2009 às 1:02
[...] Tião Macalé era tricolor? O Arnaldo Branco atrasou a coluna de hoje, mas a causa foi nobre, leia aqui. Já o tricolor Henrique Koifman… sofrendo da ressaca dos 31 x 30, conseguirá ele mandar o [...]
5 de maio de 2009 às 12:18
É isso aí, Arnaldo, a mulambada é mesmo à prova de pilha. Favela Sempre!
5 de maio de 2009 às 12:21
Pobre não tem medo de assalto?
5 de maio de 2009 às 13:44
Nós, que não somos racitas, adoramos apagar diferenças… Eu, que sou gonçalense, cansei de ouvir gente falar que mora em Niterói pra não se passar por pobre. É como esconder o Silva entre outros sobrenomes…
5 de maio de 2009 às 13:46
foi mal, *racistas. - é uma palavra muito forte se se escrever!
5 de maio de 2009 às 13:58
Ótima reflexão e texto, Arnaldo. Vou repassar inclusive.
Ainda assim, queria ler alguma coisa em tom parecido, caso o Flamengo tivesse perdido a final, a torcida resolvesse brigar entre si e você tivesse sido roubado num dos arrastões promovidos quando isso acontece.
Sou corinthiano, meu velho. Minha torcida também é de massa, com todos os problemas que isso acarreta. Digo isso apenas pra deixar claro que meu ponto de vista não é de um Botafoguense, Tricolor ou Vascaíno recalcado.
As mesmas mazelas que são ignoradas quando uma torcida rival, com gente às vezes até mais miserável entoando os cânticos, se faz presente na hora em que a torcida rubro-negra grita gol! É a mesma negação. Seja de um executivo no camarote que esquece a crise financeira ou de um bandido na arquibancada que encontra a redenção após o assassinato cometido na noite anterior…
Torcida, seja dita de “elite” ou de “favelados” é a mesma coisa sempre: um retrato bem feito desse povo mal administrado do qual me orgulho de fazer parte. É um pouquinho de Brasil, iá iá…
5 de maio de 2009 às 14:28
O vídeo é genial!
5 de maio de 2009 às 14:53
mc, a questão de classe vai durar um bom tempo, mas esse não é o problema. O problema é que o chorume de Niterói vai passar do lado das casas de São Gonçalo. O problema é que tem miséria em São Gonçalo.
Quando morava em Niterói, me acabava nas festas do Porto da Pedra e da Hollywood, mas isso não aliviava nem um pouco os problemas dessa desigualdade.
Sentir raiva da elite não funciona, porque ela precisa de assalariado tanto quanto o assalariado precisa dela.
E a solução é bastante simples e temos recursos para atingi-la. Priorize-se um concurso que pague a base de 5 salários mínimos aos professores do município, estabeleça um organograma meritocratico com base em resultados na secretaria.
Demora? Sim, mas não conheço nenhum outro atalho que tivesse funcionado.
O problema que isso exige empenho da elite, que no nosso caso é ocupada por despreparados que garantem o status quo por desonestidades.
Como mudar a elite, a grande questão…
5 de maio de 2009 às 15:38
Abstrair é vocação do brasileiro. Então é tranquilo um favelado xingar o outro de favelado. Já vi um preto xingando o outro de macaco… e pessoas que não tem cara de gaucho xingando outros de paraíbas.
5 de maio de 2009 às 16:57
Flávio, falei especificamente do uso da palavra favela para agredir, quando no fim das contas favela somos nós. Acho que a gente concordou, e o resultado final do jogo não tem nada a ver com isso. E até pq uma das torcidas mais violentas do Rio é a do Botafogo.
5 de maio de 2009 às 17:11
mauricio, nunca vi um pensamento político mais sensato. Mas não sei se é coisa de brasileiro mesmo, essa coisa de querer ser malandro e se dar bem em cima dos outros, mas os ricos facilmente viram corruptos e estelionatários, o que deixa as cidades sem recursos para melhorar (e num espectro mais amplo o país inteiro) e os pobres viram assaltantes e traficantes.
A diferença é que “os favelados” se fodem até quando vão comenter crimes, tendo em vista que as condições de “trabalho” no crime são piores para eles que para os da elite (é muito mais fácil e tem muito menos riscos desviar dinheiro do que assaltar alguém). O futebol só serve como ilusão e descarga emocional para todas as classes sociais, igualmente incultas.
5 de maio de 2009 às 17:13
Ah sim, e a polícia só vai atrás de bandido pé-rapado porque tem mais visibilidade, por puro preconceito e porque é muito mais fácil pegar em flagrante um cara com arma ou drogas do que alguém fraudando alguma coisa ou desviando dinheiro.
5 de maio de 2009 às 20:42
concordo muito com vc, maurício.
são gonçalo tem uma das maiores favelas planas do rio e a falta de políticas públicas é marcante.
por isso comparei SG e favelas.
a vergonha também impede organização e lutas. a primeira coisa é saber se reconhecer como cidadão, reconhecendo de onde viemos.
aprender a se valorizar, também.
já que é aniversário dele, vale lembrar que se o trabalho é a negação da vida, é pelo reconhecimento da nossa própria força que a gente vai mudar alguma coisa.
não dá pra vir de cima, é questão de aprender a se organizar (http://indecidable.blogspot.com/2009/05/re-ssurgencia.html - é um exemplo)
6 de maio de 2009 às 11:45
Quem gosta de favela é gringo. Mal o Hugh Jackman chegou ao Brasil já foi visitar uma:
http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2009/05/05/ult59u197594.jhtm
Será que quando ele tiver no Rio ele vai nos picos que o Bolaldo indicou? Vai querer conhecer a Andréa?