28 de novembro de 2009
Violetas são vermelhas
BLOG, ilícito
Por Fernando Barreiros
A noite de quarta feira chegou mais cedo. Por nenhum motivo, todos os bons bares resolveram fechar. O único lugar que vendia bebida era um bar metido à bacana com roda de samba da zona sul. A música era tão merda quanto as pessoas que estavam lá. O samba iria durar até de madrugada, mas não havia outro lugar.
Liguei para Rebecca e disse para irmos beber. E beber no lugar mais deprimente do mundo nós fomos. Contrariando o repórter do tempo, à noite fazia frio. Não um frio agradável, mas um frio gelado que cerra seus dentes e congela seus dedos. Finalmente recebi a grana de um trabalho antigo e decidi que beberia como um cavalo, não, como um cavalo condenado. Ela disse para ir até a casa dela e de lá irmos beber. Botei minha jaqueta, meu chapéu e fui buscá-la. Rebbeca já estava fumando encostada na parede do prédio quando cheguei. O bar não ficava muito longe, mas no caminho passaram sete viciados em crack para pedir cigarro e eu conhecia seis deles. O bar era arrumado, com banheiro limpo e garçonetes simpáticas, realmente, é o tipo de bar de samba de raíz zona sul.
- Hey, pelo menos podemos ficar do lado de fora, baby.
- Tá frio, mas é melhor do que essa música.
Eu mal podia me mover com aquela jaqueta de couro velha, mas era isso ou (muito provável que literalmente) morrer de frio. A garçonete com a cara amassada nos atende, eu peço meu uísque e convenço Rebecca a pedir um também.
- Eu poderia ver a sua identidade? - Porra de garçonete.
- Pequena, tá olhando minha cara? Eu tenho vinte e três e ainda tenho espinha! Acabei de voltar do trabalho e você me nega bebida? - Liar liar pants on fire.
- Desculpe. Tem “teaches” e “grantis”.
- Vê dois “grantis”, por favor. - Engrossei a voz para não arriscar. Ela rebolou sua bunda gorda e nos trouxe nossas doses.
Começamos a beber devagar, mas conforme o álcool fazia efeito, mais bebíamos.
- Está esfriando, amor. - Me abraçou de um jeito tão real que, não nego, derreti. Só faltava ela ronronar.
Já estávamos no meio do segundo maço quando pedimos cerveja.
- Me traga um mar de cerveja! - Pedi educadamente à garçonete, que fez cara de repulsa.
- Um mar de quantas garrafas, senhor?
- No momento só uma, depois aumenta. - Rebecca só poderia ter feito desta frase uma frase melhor se pedisse duas garrafas.
A bebida descia bem, esquentava mais que os cigarros. A noite só esfriava cada vez mais, nos deixando com garrafas vazias em cima da mesa. Pelo menos a música havia acabado. A noite estava boa, estava calma finalmente. De vez em quando um viciado em crack saía correndo de uma sombra para outra, parecendo um rato assustado. Crackudos, que bichinhos interessantes.
Eu gostava de beber com Rebecca, mas nunca gostei dela bêbada.
- Isaac, eu preciso cheirar.
- Deixa de merda.
- É sério!
- As chances de eu te deixar fazer isso são as mesmas de você conseguir arrumar pó com alguém desse bar.
- Você não vai deixar? Vai se foder! - As pessoas do bar olharam para nós mais do que o normal.
- Então vai foder com uma das suas amigas lesbiquinhas, não é isso que você realmente quer?!
Me mandou tomar no cu e levantou.
- Haha, então, a gente divide a conta?
- Vá se foder, Isaac, vá se foder!
- Pô, baby, esqueceu que sou judeu?
- Você é um escroto!
Ela pegou um dos copos que estava na mesa e arremessou na minha direção. Ela estava tão bêbada quanto eu, mas ainda assim tive de abaixar. O copo se espatifou no chão atrás de mim. A garçonete de bunda gorda e cara amassada veio limpar. Rebecca foi embora.
- Me traz a conta.
Deixei uns dez reais a mais que a conta e fui embora.
Ando até um ponto e outro viciado em crack vem me pedir cigarro. Era outro sujeito conhecido.
- Eu to com um beck aqui, topa?
- Aqui mesmo?
- São três horas da manhã num feriado no meio da semana. - Polícia é um mito em madrugadas de feriado em dia de semana.
Ele fumava de um jeito irritante, segurando o nariz a cada tragada e fazendo um barulho esquisito. Ele foi embora algumas tragadas irritantes depois e o ônibus simplesmente não passava. Vomitei na minha bota e no cartaz no ponto de ônibus. Vomitei no meu pé sem perceber até ele chegar. Estava vazio, apenas o motorista e a trocadora. Sento no último banco com minha cara na janela vomitando nos outros carros até chegar em casa. Porra, aquela garota é foda, amanhã eu ligo pra ela.
8 comentários para “Violetas são vermelhas”
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28 de novembro de 2009 às 12:39
haahahahhaa, adorei.
e a sua mania de amigas lesbiquinhas ^^;
28 de novembro de 2009 às 19:48
gostei muito, fe! ate parece que essa rebecca ai sou eu…
29 de novembro de 2009 às 12:08
tá do caralho! você escreve muito bem
29 de novembro de 2009 às 12:51
- Eu poderia ver a sua identidade? - Porra de garçonete.
- Pequena, tá olhando minha cara? Eu tenho vinte e três e ainda tenho espinha! Acabei de voltar do trabalho e você me nega bebida? - Liar liar pants on fire.
sem dúvidas genial
29 de novembro de 2009 às 20:52
muito bom, mesmo
30 de novembro de 2009 às 10:12
voce e seus contos de bar
eeoeueuiaeo!
adorei
1 de dezembro de 2009 às 19:35
Crakudos são bichos interessantes, se a garçonete duvidasse da sua idade…ela seria louca.
O que crianças estariam fazendo de madrugada na rua…nesse horario só tem gente grande :]
2 de dezembro de 2009 às 22:26
Meu,ainda vou fazer um vídeo das tuas crônicas.
muito da hora!
topas?