3 de abril de 2009
1929 ?
BLOG, Chamando na chincha, Da redação, O mundo lá fora
Por Luiz Bello
Ontem, os jornais destacaram que, pela primeira vez em 12 anos, o Brasil teve déficit (primário) em suas contas. Vigilantes em relação aos gastos públicos, principalmente devido à proximidade das eleições presidenciais, os jornais deram ênfase às circunstâncias (déficit em fevereiro), mas desprezaram a conjuntura. Chama a atenção o fato de que, tanto no segundo governo FHC quanto nos dois mandatos de Lula, optou-se por manter o superávit primário. Tal opção, aparentemente, continua valendo. O déficit em fevereiro deve-se muito mais à queda na arrecadação do que a um aumento absurdo nas despesas.
Não, o governo ainda não jogou fora a calculadora para vencer as próximas eleições. Sim, a redução na atividade industrial acabaria provocando, mais cedo ou mais tarde, uma queda na arrecadação. Não, o governo não pode sair cortando indiscriminadamente os gastos, pois iria, com isso, alimentar o ciclo recessivo, ao invés de combatê-lo. Sim, os gastos com investimentos são preferíveis aos gastos com salários dos servidores públicos, mas, não, os atuais reajustes estão apenas recompondo perdas históricas do funcionalismo e dos aposentados. Desistir dessa recomposição, além de injusto (principalmente com os velhinhos), pode também ajudar a realimentar a recessão. Devemos nos lembrar que o grande impulsionador do reaquecimento da economia brasileira, que fez o PIB voltar a crescer acima dos 4% ao ano, foi o consumo das famílias.
Os empresários estão apenas preocupados com suas próprias contas e demitiram muita gente. Se o governo fizer o mesmo, a vaca vai pro brejo. Voltaremos a ter redução no poder de compra dos brasileiros, diminuindo o consumo e realimentando o desaquecimento econômico. Grande parte da imprensa parece não dar muita atenção a isso, talvez antevendo gastos eleitoreiros ou, talvez, fazendo uma análise eleitoreira, no caso dos veículos que apóiam a candidatura Serra.
O governo continua com reservas internacionais elevadas e, por enquanto, ninguém sabe ao certo, afinal, que efeito sobre a economia brasileira teve ou terá essa crise no mercado financeiro internacional. Tudo é especulação, e muitas das consultorias que recitam suas previsões são as mesmas que erraram quase tudo sobre o cenário econômico mundial, alguns meses atrás. Hoje, de concreto, temos que o desemprego aumentou, mas menos do que se esperava. Que a atividade industrial despencou, mas teve ligeira melhora em fevereiro. Que alguns setores da economia não se retraíram como esperado, a exemplo dos automóveis e dos cosméticos. Que a inflação continua sob controle. Que a China vem substituindo os EUA como grande importadora. Que o dólar se estabilizou onde os exportadores queriam, e parece sob controle.
No próprio mercado financeiro, a bolsa de valores, quem diria, depois de despencar furiosamente em 2008, revelou-se a melhor aplicação do ano, com valorização bem acima da renda fixa. Hoje, passou dos 44 mil pontos. Continuará assim ou dará outro susto nos investidores? Não se sabe. Mas isso, cá entre nós, nunca se sabe.
Então, cabe aqui repetir a pergunta que fizemos nas últimas adivinhações econômicas exclusivas da Zé Pereira: essa crise é realmente semelhante à de 1929? Continuamos achando que muita gente vai queimar a língua em relação a isso. E alguns o terão feito de propósito, porque exagerar no pessimismo ajuda a oposição. Se o PAC de Dilma e Lula é somente eleitoreiro, o tempo vai dizer. Mas a oposição não pode sair arrotando muita ética nesse campo. FHC, como sempre nos lembrava Elio Gaspari, ainda deve explicações sobre sua política cambioeletoral. Lula, até agora, ainda não fez nada igual.
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