20 de janeiro de 2010
Vício e virtude ou Tempos modernos
BLOG, bolo de rolo
Por Dandara Palankof
O centro de Brasília, ali por perto da Rodoviária, possui dois setores que são curiosamente chamados de Setor de Diversões Sul e Norte (SDS e SDN, respectivamente, porque tudo aqui funciona com base em siglas). O curioso se dá no tipo de diversão que se pode encontrar no setor de diversões. Não há, digamos, muitas opções. Mas vá lá, toda cidade tem direito às suas contradições, não é mesmo?
Poderia-se dizer que o lado norte possui relativa vantagem por lá se localizar o Teatro Nacional, mas com os ingressos para qualquer coisa no lugar custando um braço (com raras exceções, como as apresentações gratuitas de sua Orquestra Sinfônica, sempre cheias), tal afirmação seria uma inverdade. De resto, temos o Conjunto Nacional, mais antigo dos incontáveis shopping centers que infestam a capital federal: o passatempo preferido da maioria dos brasilienses, por afirmarem que não há mais nada pra se fazer por aqui. Engraçado que nós possuímos, por exemplo, o maior parque em área urbana da América Latina, conhecido pela simples alcunha de Parque da Cidade, mas é muito mais cômodo levar a pirralhada pra comer um McLanche Feliz.
Mas é o edifício gêmeo do Conjunto Nacional, separado dele apenas por uma passarela, já no SDS, o lugar mais peculiar daquela área. Dividido em vários prédios com vários nomes, você só precisa conhecer um para que saibam a que lugar estamos nos referindo: o bom e velho Conic. O nome, dizem, é a sigla formada pelos nomes das construtoras que ergueram o prédio. Só não me pergunte quais.
Durante minha infância, até o início da minha adolescência, o Conic era um dos lugares mais mal afamados de Brasília. Durante o dia, era um lugar considerado decente, com lojas, escritórios, consultórios e até um cinema (o Atlântida, que, adivinhe, virou uma Igreja Universal, há pelo menos 10 anos). Havia também um dos únicos restaurantes chineses realmente chineses que já conheci na vida. E uma das faculdades particulares mais tradicionais de Brasília, a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes.
Ainda assim, o comércio era decadente e, quando a noite caia, ninguém “de bem” gostaria de estar por lá. O Conic virava mais um shopping, mas de caráter muito mais vicioso do que qualquer outro. A droga que você quisesse, se não se preocupasse com a qualidade, estaria lá. E toda a variedade existente na profissão mais antiga do mundo também estaria por lá, fosse em suas galerias a céu aberto, fosse em seus corredores ou em seus botecos sujos e mal frequentados.
E foi ali pelo fim da última década do século XX que a coisa mudou um pouco. Não sei bem quem foram os responsáveis pela revitalização do Conic, se os locatários de lojas e escritórios, se o governo, ou mesmo se a Universal. O fato é que o lugar passou por reformas, ganhou um pouco mais de segurança e mais lojas interessantes foram abrindo, aumentando o fluxo de pessoas; a Dulcina e seu teatro, que andavam decadentes, passaram a ter mais alunos e espectadores (e até uma galeria, que vez ou outra promove uma vernissage bacana); e um pouco mais a frente na linha do tempo, algumas casas noturnas “moderninhas” adotaram o Conic como casa.
O Espaço Galeria é a mais recente. Lugar pra se escutar (e dançar) bom rock n’ roll e música eletrônica, foi uma das boates que eu frequentava com assiduidade antes de deixar o Planalto Central. Localizada no subsolo de um dos prédios da extremidade sul do Conic, à primeira vista não parecia grande coisa, mas era ampla, relativamente barata e tinha sempre bons DJ’s.
Mas o início de minha assídua frequência ao Conic deu-se antes, com a progressão de minha nerdice: lá se localiza a Kingdom Comics, única loja de quadrinhos da cidade. Como eu disse numa coluna anterior, o lugar foi responsável por meu crescimento em conhecimento, acervo e amizades. Um templo. Bem ao lado da Musimed, uma das melhores lojas de instrumentos da cidade, onde comprei minha primeira guitarra.
Com a moda das camisetas (que ela também vende), a Kingdom meio que pariu outras duas lojas específicas desse segmento e com alguns sócios em comum: a Verdurão (que já foi Desacato, antes de descobrirem outra loja de camisetas com o mesmo nome em Goiânia) e a Negro Blu. Mais tarde, a Ktraca apareceu pra instituir uma concorrência saudável, mas a tríade original por si só merece uma coluna. Também foi lá que consegui meu primeiro emprego de verdade, numa ong chamada ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância — quatro bons anos achando que o interesse de todos ali realmente era mudar alguma coisa. E perto da área central, vários quiosques de livros e revistas usados.
Mesmo com tudo isso, não quer dizer que o Conic virou um jardim florido. Há um lado, digamos, saudável de sua porção viciosa: a maior sex shop da cidade, Via Sexy (antes Ponto G) está lá, bem do lado de uma agência do Banco de Brasília; mais ao sul, alguns cinemas pornôs com uma boa variedade de shows (mas não, nunca entrei em nenhum, mas admito que não foi por falta de curiosidade). Mas o lado ruim é que, a despeito de segurança ter aumentado e haver um posto policial dentro do Conic, o tráfico de drogas nunca foi seriamente afetado; e agora, com a ascensão do crack, a situação não tende a melhorar.
Talvez por isso o Conic seja um dos símbolos de que Brasília é, no fim das contas, uma cidade grande. Lá estão reunidas algumas das maiores comodidades e mazelas de uma metrópole. Lá, pessoas estudam, trabalham, se divertem, compram, se drogam, se embriagam, fazem sexo, batem, apanham e tudo o mais, sempre sob o olhar invejoso ou complacente de alguém. Se vive e se morre no Conic. Como em tantos lugares de tantas cidades.
Dandara Palankof nasceu em Recife, mas cresceu em Brasília; voltou ao Recife recentemente e, de férias na capital federal, já visitou o Conic mais vezes do que qualquer outro lugar, desde que chegou.
Deixe um comentário
- “É que Recife é um ovo!” ou Lugares queridos – Parte II
- Da avacalhação ou “Não, colega, não tenho celular”
- Rali ou Pra que faixas?
- Ritmo de festa ou Tô me guardando pra quando o carnaval chegar – Parte II
- Ascensão, apogeu e queda (?) do Coronel nº 2 ou You bastard!
- Orbital ou Como ser (sempre) uma estrangeira na própria terra
- Vício e virtude ou Tempos modernos
- Calcanhar de Aquiles ou Do andar de ônibus – Parte III
- Ainda pulsa ou Onde se cruzam as linhas
- Traço (borrado) do arquiteto ou O que diabos esse povo tem, afinal? – II
- Ano II ou O que importa
- Notivagações ou Rumos (in)certos de um Cais
- “Como alguém se perde numa cidade que sempre quis conhecer?” ou Do andar de ônibus – Parte II
- Nerds, assemble! ou A difícil vida de uma nerd em Recife
- Segundona ou Anotações gerais de um cenário futebolístico II
- Alegria e preguiça ou Brasílias
- Como deixar a vida pra trás por três dias ou Praias mais pra lá – Parte I
- Chegada ou Conto de duas cidades
- Quantos exemplares de livros da Meg Cabot podem haver no mundo ou A Bienal de Pernambuco
- Trincheiras ou Lugares queridos – Parte I
- Dos festivais ou O Coquetel Molotov e eu
- Tempo x Deslocamento ou Do andar de ônibus – Parte I
- Olinda – Parte II ou A Mimo é quase um
- Miscelânea ou “Um DVD é dois, três é cinco” à “Bermuda, só 19,90”
- Tipos – Parte I ou “Vamos fazer uma performance!”
- Diferenças lexicais ou Do pernambuquês
- “In The Garage” ou A casa (literalmente) caiu
- Brasília em Recife ou De novo, “Do mesmo ar”
- A cidade-irmã ou Olinda – Parte I
- Yes, nós temos inverno ou Vamos pro FIG?
- Mercados – Parte II ou Em busca da macaxeira perfeita
- Sobre a imundície ou Vivendo em Ankh-Morpork
- Bandeirinhas ou “Acende a fogueira do meu coração”
- Mercados – Parte I ou Cerveja barata, afinal
- Decadência ou Razões para não morar em Boa Viagem
- Minha primeira vez na Ilha do Retiro ou Anotações gerais de um cenário futebolístico
- Tô me guardando pra quando o Carnaval chegar ou O que diabos esse povo tem, afinal?










