2 de outubro de 2009
Viajando entre sarjetas
BLOG, FIQ 2009, Quadrinhos
A sexta edição do Festival Internacional de Quadrinhos, que começa na próxima terça-feira, em Belo Horizonte, traz ao Brasil nomes como Craig Thompson; a Zé Pereira vai estar por lá
Por Dandara Palankof
O fato é este: leitor de quadrinhos no Brasil, em geral, é visto como crianção. Ou o típico nerd: aquele sujeito estranho, sem o menor pendor a relações entre outros seres humanos e que concebe toda sua realização enquanto pessoa ao projetar-se nas aventuras de seus super-heróis favoritos. E além dessa imagem pré-concebida ter mesmo o gênero no masculino, porque gibi “é coisa de menino”, para estas pessoas história em quadrinhos é mesmo só Superman, Homem-Aranha e outras centenas de personagens com poderes estrambóticos e colants vergonhosos.
É justamente por esses e outros preconceitos acerca do(s) universo(s) das histórias em quadrinhos que se dá a extrema importância de um evento como o FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos, que vai acontecer em Belo Horizonte na próxima semana, do dia 6 ao dia 12. Sete dias de conversas, exposições e oficinas para transformar os desavisados em potenciais leitores, mostrando o quão diversificada e poderosa é esta expressão artística.
O FIQ é o maior evento do gênero no Brasil, país onde o mercado é, no mínimo, atribulado. O carro-chefe de vendas ainda são mesmo as revistas de super-heróis, cujas edições ainda conseguem manter um preço acessível. Enquanto isso, inúmeras editoras nascem e morrem tentando publicar material mais alternativo (ainda que, em sua maioria, eles pertençam a selos das grandes editoras americanas, como a Vertigo, da DC Comics; a Pixel foi o último exemplo). Outras acharam seu nicho publicando edições de luxo para um público seleto, cujo material é inegavelmente soberbo, mas de preço geralmente proibitivo.
E ao que parece, é para mudar esta realidade, criando mais leitores e popularizando a chamada nona arte, que a diversificada programação do 6º FIQ foi montada. Além das exposições mais variadas, dos 70 anos do Batman aos quadrinhos chineses, alemães e franceses (afinal, é ano da França no Brasil), convidados de várias partes do mundo estarão na capital mineira para trocar experiências e mostrar seu trabalho.
Das pratas da casa, temos por exemplo os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá (”10 pãezinhos”, “Fanzine’), junto com Rafael Grampá (”Mesmo Delivery”); os três vem conquistando a passadas napoleônicas o gigantesco mercado americano (com o peso de alguns Eisner Awards, principal prêmio da indústria dos quadrinhos); Ivan Reis, Joe Bennet, Eddy Barrows e Will Conrad são os convidados brasileiros do FIQ (não repare nos nomes) que já estão com a bandeira fincada em terras ianques, trabalhando para as grandes editoras Marvel e DC. De dentro de nossos fortes, acenam Adão Iturrusgarai e Renato Canini (que deu a verdadeira identidade brasileira ao Zé Carioca; aqui tem uma ótima entrevista dele, do Télio Navega), aliás, um dos homenageados do festival, junto à ilustradora Ciça Fittipaldi. Além de Maurício de Sousa, é claro.
Os estrangeiros também estão muito bem representados. O americano Craig Thompson vem na esteira do recém-lançamento de seu aclamado gibi autobiográfico Retalhos. Assim como Liniers, elogiado cartunista da nova geração argentina (publicado aqui em livro pela Desiderata, e na “Folha de S. Paulo”). Ben Templesmith, australiano gabaritado pelos desenhos de gibis como “30 dias de noite” (que recentemente foi adaptado para o cinema) e “Fell”, também está na programação. Ainda tem os franceses Olivier Tallec e Jean-Christophe Camus, os chineses Xiao Pan e Benjamin, além das participações especiais de Becky Cloonan e Vasilis Lolos (que colaboraram com Grampá, Moon e Bá na premiada antologia “5″). E ainda tem o Eddie Berganza, editor-sênior da DC, avaliando portfolios!
Ainda tem espaço pra discussões com especialistas, como o jornalista especializado Paulo Ramos (Blog de Quadrinhos), Waldomiro Vergueiro (ECA-USP) e Vitor Amaro Lacerda (UFMG). E isso é só o começo. Pra saber tudo que vai rolar, dias e horários, é só clicar aqui.
E se você não vai estar em Belo Horizonte pra aproveitar tudo isso, não se preocupe: a Zé Pereira vai estar por lá, em uma parceria amiga com o pessoal do site HQManiacs, e aproveita tudo por você. Mas claro, conta tudo que aconteceu. A partir de quarta, 7, aqui na ZP e no HQM, a melhor cobertura do melhor festival de HQs do Brasil.
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