3 de outubro de 2008
Uma rádio pras cantoras
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
Por Gustavo Acioli
O filme “Cantoras do Rádio” é a prova de que a música popular brasileira do século XX é a grande realização cultural do nosso povo. A bem da verdade, a música popular brasileira é uma das maiores realizações de um povo na História da Humanidade.
Para mim, persistem alguns mistérios com relação à história da nossa música popular:
Por que João Gilberto é tratado como um deus que baixou no Municipal e tantos talentos maravilhosos pré-joão-gilberto caíram num ostracismo tão severo que equivale ao exílio, ao banimento?
Por que Roberto Carlos e Caetano Veloso fazem uma apresentação cacete em homenagem a Tom Jobim, com arranjos burocráticos de uma orquestra fazendo cama de acordes (é pra dormir, mesmo) e todo mundo fica se olhando em constrangido silêncio, tentando entender como é que vai gostar daquilo, como se estivesse provando um pedaço de queijo bolorento?
Enquanto isso, Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas, Ellen de Lima e Violeta Cavalcante, bem mais velhas do que Roberto e Caetano, fazem um show muito mais interessante, muito mais divertido, cantando muito melhor do que os dois, e é como se tivesse acontecido apenas mais um baile da terceira idade ali na esquina. Por que será?
Ah! Elas são pré-bossa nova.
Apenas cinqüenta anos após a abolição da escravidão, este país inteiro já estava cantando samba. Brancos, negros, mamelucos e cafuzos, todos juntos cantando a música dos negros sob a égide de um ditador gaúcho.
E ainda tinha Luiz Gonzaga, Caymmi, e tantos outros. Era baião, xaxado, canção praieira, coco. Era samba, samba-canção, marchinha, marcha-rancho. Era bolero, tango, fox. Era Radamés, Pixinguinha, Ary Barroso. E Drummond trabalhando no governo. E Villa-Lobos trabalhando no governo. Dá pra dormir com um barulho desses? Dá pra olhar pra trás e entender esse país?
Glauber Rocha apareceu no cenário nacional batendo na chanchada e proclamando Humberto Mauro como o grande cineasta pré-histórico do Brasil. Mas isso era uma estratégia declarada de tomada do poder. No caso da Bossa Nova, não me parece tratar-se de uma estratégia pensada e declarada. Será que o problema era só com o Getúlio?
Sei não… Como diria Tom Zé: “Salve, Tinhorão!”
Eu acho que o governo deveria pegar o acervo da Rádio Nacional, montar uma nova rádio e chamar o Ricardo Cravo Albim pra cuidar da programação. Aproveita e tomba esta rádio logo de uma vez, pra ninguém nunca poder acabar com ela. E tomba a Rádio MEC também, por favor, porque se um dia a Rádio MEC acabar, a música clássica some destas terras – e atualmente é a única rádio que dá para escutar; o resto é baranga jabazeira.
Ainda dá pra ver “Cantoras do rário” hoje, às 20h, no Estação Gávea 3.
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