15 de janeiro de 2010
Uma canção ao cair da tarde: “Abolison”, Ennio Morricone
BLOG, Uma canção ao cair da tarde
O jornalista Mauro Satayana escreveu duas belas colunas no JB, sobre a tragédia haitiana. Ele lembra as origens coloniais dessa ilha descoberta por Colombo, a primeira do Novo Mundo a receber escravos africanos, para um “trabalho” que os nativos rejeitaram e, por isso mesmo, foram exterminados.
Em 1697, os espanhóis cederam metade da ilha de São Domingos aos franceses, que a transformaram num lucrativo canavial, povoado quase que inteiramente com escravos. Em 1804, após mais de uma década em guerra, o Haiti tornou-se o segundo país independente das Américas, depois dos Estados Unidos. Mas os franceses logo traíram os haitianos e aprisionaram seu líder, Toussaint-Louverture, que morreu em Paris.
Parcialmente inspirado nessa história, Gillo Pontecorvo dirigiu “Queimada!”, com Marlon Brando em seu papel predileto, o cínico agente que fomenta a revolta em uma colônia portuguesa apenas para torná-la submissa aos ingleses. Os créditos de abertura são um clássico, e nossa canção ao cair da tarde de hoje.
Após essa “independência”, mais guerras coloniais dividiram o país e, em 1844, parte dele tornou-se a Republica Dominicana. Nos quase 60 anos seguintes, o Haiti teve 20 governantes, dos quais 16 foram depostos e / ou assassinados. Em 1915, foi invadido pelos fuzileiros navais americanos, que lá permaneceram até 1934.
Segue-se outro período de instabilidade política, até a eleição do médico Fraçois Duvalier, em 1957. Ele se torna “Papa Doc”, um dos ditadores mais sanguinários e folclóricos do mundo, responsável por mais de 30 mil assassinatos. A exemplo de outros facínoras úteis, como Somoza, Pinochet, Noriega e Sadan Housen, foi apoiado pelos Estados Unidos, e apoiou a ofensiva anticomunista no Caribe. Permaneceu no poder até morrer, em 1971, sendo substituído pelo filho, “Baby Doc”, que foge do país em 1986. De lá para cá, mais golpes de estado, corrupção, violência e fraudes eleitorais.
Em 2004, a ONU aprovou o envio de uma força militar multinacional ao país. Com cerca de 6.700 homens, é liderada pelo Exército brasileiro e vinha dando importante apoio às instituições democráticas haitianas, agora mais abaladas ainda pelo terremoto.
O Haiti tem área menor que a de Pernambuco e a 36ª mais alta taxa de mortalidade infantil (48,8 por mil) entre 224 países, além de uma taxa de analfabetismo acima dos 45%. Sua população - pouco mais de 8 milhões de habitantes - tem uma das mais altas incidências de AIDS das Américas. O terremoto é apenas uma das muitas tragédias em sua história. Mais do que eleger novo alvo para o assistencialismo internacional, é necessário resgatar a enorme dívida política, econômica e social que o colonialismo e o imperialismo ali deixaram. França e Estados Unidos têm tudo a ver com isso. Mas nada fará diferença se os próprios haitianos não acreditarem que, apesar de tudo, ainda podem ser uma nação. É o mais difícil. Eu não acreditaria.
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