23 de maio de 2009
Um pouco de paranóia anos 50
BLOG, Recanto nerd, Star Trek, TV
Por Luiz Henriques
Depois de abrir a temporada com um bom e velho monstro transmorfo e telepata em “O sal da terra”, pra em seguida botar em discussão coisas como mediocridade, política, alteridade, responsabilidade pessoal, arte, identidade, o que é ser humano, destino e existencialismo, “Jornada nas estrelas” dá a volta completa e fecha seu primeiro ano com outra historinha de alienígena malvado e assasino, tão anos 50 que é basicamente uma recauchutagem de “Fiend without a face”, um Bzão daquela década na fronteira do trash. O que não é problema nenhum, já que variedade é o tempero da vida e entre tanto caviar e biscoito fino para as massas, um Big Mac só vai adicionar sabor. E é sempre bom ver nossos heróis – e figuras de identificação – salvando a galáxia e lembrando ao universo que porra, caralho, vá lamber sabão, quem manda nessa porra são as naves da Federação.
O roteiro traz de volta até o extraterrestre indestrutível, capaz de aguentar longas rajadas de phasers 2, mas vulnerável a uma coisa tão simples que ninguém havia pensado – digamos que devemos agradecer por esses bichos não pegarem muita praia e por isso nunca precisaram de Sundown. A explicação é que cada um deles na verdade é um enorme neurônio que extrai sua força da coletividade e fundindo-se ao sistema nervoso de um hospedeiro é capaz de controlá-lo ativando seus centros de dor. Como metáfora para totalitarismo – e condizente com o ar de ficção científica anos 50, uma metáfora paranóica e xenófoba – funciona bem, mas não faz nenhum sentido, tanto que o sr. Spock teoriza que eles vieram de outra galáxia onde nossas leis físicas não se aplicam. Mas não interessa que eles tenham vindo de uma inexistente Galáxia Doidona, ao lado da Galáxia Maluca e pertinho da Galáxia Comportadinha, agora eles estão na Via Láctea e têm que responder por seus atos às nossas leis físicas, ora! (continua aqui)
Ainda seguindo o raciocínio metáfora anticomunista, tá bom, vou contar o fim, é a luz brilhante que no final irá destruir os alienígenas maus. Numa subtrama extremamente dispensável, Spock parece ter ficado desnecessariamente cego, melodrama demais prum episódio que começa com a morte do irmão e da cunhada de nosso capitão favorito da Frota Estelar.
Depois de tanta coisa boa – este é o episódio que se seguiu a “A cidade na fronteira da eternidade”, de Harlan Ellison, que muita gente considera o melhor que “Star trek” já produziu em qualquer de suas encarnações - “Operação: Aniquilar” parece retroceder a série, mas não deixa de ter suas qualidades: é uma aventurazinha legal, tem um instigante começo, com um sujeito atirando sua nave contra o Sol em gritos de felicidade e um grupo de colonos agressivos tentando porrar o povo da Enterprise enquanto grita “vão embora! Não queremos machucar vocês!” e uma primeira vez em que o grupo de desembarque desce numa cidade de verdade e não num óbvio estúdio com telão pintado. Como a história se passa numa colônia extremamente distante, provavelmente os produtores acharam que uns quarteirões futuristas de Los Angeles quebrariam o galho, já que não seriam mostradas megalópoles ou aparelhos de última geração. Nossos heróis caminhando em ruas DE VERDADE vazias e abandonadas funciona perfeitamente e adiciona uma dimensão até então desconhecida em suas peripécias. Coerentemente, os interiores das casas são austeros, já que este é um posto avançado e todo o planeta tem apenas um milhão de habitantes. Um dos melhores usos de cenário de toda a série, numa época em que orçamentos como os de “Os Simpsons” ou “Roma” só estavam disponíveis para os grandes do cinema.
Com excesso de melodrama, McCoy demonstrando um desconhecimento de fisiologia vulcana inexplicável para um médico da Federação, efeitos especiais catastróficos durante o ataque dos neurônios ao grupo de desembarque e conceitos científicos jogados pra escanteio, “Operação: Aniquilar” é, ao contrário do escopo do programa, uma velha aventura espacial paranóica típica dos anos 50 e das outras produções de tevê da época. Embora não feche a primeira temporada com chave de ouro, aumenta a variedade das situações enfrentadas pela galera da Enterprise, numa tentativa de atrair um público mais acostumado com esse tipo de coisa. E eles iam precisar, já que entravam de férias com este episódio e só iriam mostrar coisa nova dali a cinco meses. E, por pelo menos durante mais um ano, iam continuar forçando os limites do formato de ficção científica de tevê.
Digno de nota:
- Contagem de corpos: A cunhada e o irmão de Kirk e um número indeterminado de colonos e tripulantes de uma espaçonave suicida.
- Inesperado: um grupo de desembarque cheio de gente de camisa vermelha que nunca apareceu antes desce a um planeta repleto de alienígenas mortais e todos voltam sãos e salvos – com exceção do sr. Spock.
- Pela primeira vez oficiais da ponte usam o macacão de serviço: McCoy e Spock.
Um comentário para “Um pouco de paranóia anos 50”
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4 de fevereiro de 2010 às 6:01
[...] bem desenhados, não apenas um artifício de roteiro como o irmão de Kirk aparecendo em “Operação: Aniquilar” já morto e sem causar praticamente nenhuma reação em James [...]