6 de outubro de 2008
Um filme que se desfaz
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
UM ROMANCE DE GERAÇÃO
(David França Mendes, Brasil, 2008)
Por Fernando Gerheim
“Um romance de geração” é habilmente construído para deixar a encenação de bermuda e chinelo. A história apresentada na tela vai sendo simultaneamente desfeita, e cada plano do filme de David França Mendes é, no mínimo, dois: a história e sua encenação. Isso o faz fiel ao livro homônimo de Sérgio Sant’Anna, escrito na década de 70, romance que representa uma peça de teatro.
A adaptação cinematográfica inclui conversas entre o diretor, os atores e o autor; os atores ensaiando suas falas; e depoimentos do escritor. Mas esses trechos de making off, intercalados no “filme”, fazem parte da estrutura dramática. Ao mesmo tempo que os atores, ao representar, deixam entrever que representam. Não se pode dizer que a incorporação do processo de realização não tenha sido cuidadosamente construída pelo roteirista.
O fiapo de enredo poderia ser resumido assim: escritor (Isaac Bernatem) quer comer a jornalista (Susana Ribeiro, Lorena da Silva e Nina Morena) que vai entrevistá-lo. Ele bebeu muita vodca e escuta os páreos pelo rádio. A história narra suas possibilidades. Em “Um romance de geração”, o livro, a ação é também a que se passa dentro da cabeça do escritor, antes do que seria de se esperar encontrar colocado no papel em um romance convencional. Essa é também uma das características do filme. E a tensão narrativa, que necessita imersão, é sempre desinflada e colocada em baixo-relevo pela auto-ironia.
Num dos registros da preparação pro “filme”, Sant’Anna conta que a peça que ele escrevia não estava dando certo, então transformou-a num romance. Ele não faz o romance de sua geração sob a ditadura. O filme também não quer fazer o retrato da dele. Mas acaba fazendo pensar: a metalinguagem dos anos 70 virou o reality-show de hoje?
“Parece que hoje você pode fazer qualquer coisa que tudo cai no vazio”, diz o diretor.
“Acho que hoje ainda existe impacto estético, o que acabou foi a ilusão de mudar o mundo com isso”, contra-argumenta o autor do livro.
Dessa encenação que se consome numa sanha metalingüística resulta um filme que o próprio diretor, na entrevista publicada em Zé Pereira alguns posts atrás, definiu como “chanchada cabeça”.
A chanchada foi um cinema de estúdio barato e popular feito no Rio de Janeiro que, ao mesmo tempo que anarquizava o modelo hollywoodiano, o conservava. Esse era o seu limite. E o de “Um romance de geração”?.
Ele não faz da realidade um espetáculo em tempo real; a imagem é a peça de um jogo. O espectador não decide entre as três atrizes que interpretam a personagem da jornalista, para aproveitar o filão da interatividade. Elas são três porque tudo é, no mínimo, dois. O filme explora até certo ponto, com um bem-humorado carioquismo semiótico, esse espaço entre a realidade e a imagem. Pode fazer lembrar, em relação à ficção, “Jogo de cena” (2007), de Eduardo Coutinho.
Com essa estratégia, que busca renovar formas narrativas, o produtor, roteirista e diretor conduz o filme num limite em que a encenação que apresenta a história vai simultaneamente a desfazendo. Filme barato que ri de si mesmo é chanchada; filme de metalinguagem é cabeça. O filme de França Mendes, ao colar esses elementos, encontra sua medida e fica à vontade dentro dela. Resta perguntar até que ponto a pulverização ao mesmo tempo que desacredita a imagem, não tira o seu potencial. Esse é o limite perigoso que o filme aponta.
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