7 de outubro de 2008
Um filme domesticado pra falar do instinto
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
LA LEONERA
(Pablo Trapero, Argentina/Brasil, 2008)
Por Fernando Gerheim
“La leonera” significa a jaula dos leões. É o título do filme de Pablo Trapero sobre o instinto materno de Júlia (Martina Gusman). Ela é uma presidiária grávida que, a princípio, rejeita o bebê. O filho nasce na cadeia e sua amiga Marta (Laura García) é quem dá de mamar à criança que se esgoela de tato chorar. Júlia é bonita e as colegas a cobiçam, inclusive Marta. Só depois que ela troca alguns afetos com a amiga, como se fosse um sinal de que seu coração amoleceu, dá o peito pro filho. Close da criança mamando; entra a música pela primeira vez. Esse drama materno argentino é um dos filmes mais concorridos do festival.
Trata-se de um melodrama de bom-tom e previsível. A avó pega o neto pra criar. Júlia foge da cadeia, toma o bebê de volta e, de posse de passaportes falsos, atravessa a fronteira com o guri.
O interessante é que esse melodrama é mais animal que o comum: o único laço familiar que resta é o da mãe com o filho criança, o biológico, porque aqueles já muito filtrados pela cultura se deterioraram. Júlia não tem boa relação com a mãe, que toma-lhe a criança; o pai do bebê é o homem que, segundo a Justiça, Júlia matou. Ela alega inocência e acusa Ramiro (Rodrigo Santoro), amante de seu namorado que acabou indo morar com eles. No mundo da família desestruturada, a natureza é o único princípio estruturador da personagem.
O problema é que o filme só extrai das cenas imagens óbvias. As situações dramáticas não são aproveitadas cinematograficamente. Trata-se de um filme que não arrisca, com medo de desagradar. Se ele não chega a ser dependente dos diálogos como no chamado cine-romance (os diálogos, pelo contrário, são burocráticos), é porque as imagens já estão dentro de uma concepção inteiramente convencional, reféns da narrativa. O enredo, como na maior parte do cinema, é separado das imagens, que raramente sobressaem com uma função expressiva e não meramente comunicativa ou “motora-sensorial”, na expresão de Deleuze. Filmado em um presídio, utilizando presidiárias de verdade, “La leonara” não consegue extrair da trama simples, mas de possibilidades ricas, imagens que se descolem do realismo mais comedido. Há umas poucas, como os pés das crianças entre as grades, usando as barras para aprender a andar, mas a fotogenia da boa atriz, perfeita como um comercial de shampoo, é a imagem que o filme irradia.
A força da natureza que o filme pretende transmitir com a relação entre essa mãe e seu filho fica num nível inteiramente domesticado, ilustrativo, low-brown, mesmo que não seja filme de ação americano. E toda a abordagem, o crime envolvendo o triângulo dois-homens-uma-mulher, o presídio como espetáculo do submundo pro espectador voyeur, é já sob medida pra dar ao melodrama bom-tom e cunho contemporâneo. No suposto embate entre cultura e natureza de que trata o filme, a atração que a primeira exerce para o clichê dá de dez. O mediano é o pior dos níveis. Mas o monstro hipnótico, mítico e infantil, pulsa por baixo das convenções. Bom que o digital está aí pra subtrair a indústria e fazer cinema de verdade.
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