22 de março de 2009
Um desencontro com Buñuel
BLOG, Cinema, Festival de Guadalajara 2009
Por Estevão Garcia
“El último guión, Buñuel en la memoria” – Filme fora de competição
(Dir: Gaizka Urresti, Javier Espada, México, Espanha, 2009)
A vida/obra de Luis Buñuel é revistada e recontada pelo seu filho mais velho Juan Luís e seu amigo e roteirista Jean-Claude Carrière, que empreendem um retorno aos lugares que foram importantes para o diretor. Os espaços geográficos e as paisagens pelas quais transitou Buñuel são percebidos como resquícios da presença e da passagem do diretor pela existência. Representam as pegadas de Buñuel e são essencialmente um manancial de memória. Assim optando por uma ordem cronológica o documentário começa nos levando à Calanda, cidade natal do cineasta, para depois se dirigir à Madri, onde ele viveu sete anos na famosa Residência dos Estudantes, ao lado de Salvador Dalí e García Lorca. Logo após o tour vai para Paris, local que serviu de cenário para o encontro travado entre Buñuel e o grupo surrealista, volta para a Espanha onde o diretor trabalhou como produtor executivo da produtora Filmófono alguns anos antes de explodir a guerra civil. Segue para a efêmera passagem do diretor por Hollywood e Nova York e para o exílio mexicano. Daí novamente para a França, palco da última fase do cineasta.
A conversa de Juan e Carriàre se esforça, mas não consegue unir didatismo e informalidade. Sem deixar que os seus olhares encarem a objetiva da câmera, os dois amigos fingem que ela não está lá, negam a existência do aparato cinematográfico e da fonte produtora que registra a caminhada por esses diferentes espaços. Essa opção estilística não apresenta nada de errado em si, porém ela se torna problemática para o filme na medida em que o tom de espontaneidade e despojamento do bate-papo jamais é alcançado. Os dois contam a relação que tiveram com o diretor, o papel que esses lugares desempenharam nessa relação, é especialmente tocante, por exemplo, a cena em que Juan retorna depois de décadas à velha casa em que viveu na Cidade do México. A falta de descontração entre a câmera e os narradores se reflete e se desdobra em uma contenção emocional, especialmente no caso de Juan, o que torna ainda mais especial essa seqüência em que a sua contenção se dissolve. Não é por casualidade que a única cena em que Juan se emociona também é a única em que ele enfrenta a câmera. Sem conseguir frear ou evitar o quase choro ele olha para a lente e pede para cortar. Ou seja, apenas quando ele realmente se expõe, quando ele sem-querer rompe a formalidade e o distanciamento que a presença da câmera é notada. Nesse momento a câmera não pode mais permanecer invisível porque ela já está ficando inconveniente.
Daí que a lembrança da frase clichê do velho J.LG se torna apropriada. Sim, a escolha de um traveling é uma questão moral. Ou seja, qualquer opção estilística/formal adotada por um diretor é uma opção de ordem moral e ética. Ao escolher dois “narradores afetivos”, o filho e o melhor amigo do personagem biografado, os diretores optaram por trilhar um caminho mais pessoal, íntimo e humano. Não temos aqui um historiador, um crítico de cinema ou um pesquisador. Não temos o discurso de um especialista e sim, a priori, o discurso comprometido e emocional próprio de quem viveu e não apenas leu sobre o objeto filmado. O problema é que todas as vantagens que essa escolha carrega foram simplesmente anuladas pelas estratégias formais de “El último guión”. A afetividade dos narradores em relação a Buñuel não vem à tona, sobretudo por uma câmera sempre distante, adoradora dos planos médios e dos planos de conjunto. O distanciamento provocado pelo excesso de respeito a Buñuel e pela necessidade sempre presente de não tirá-lo do pedestal faz de “El último guión” não só um documentário biográfico convencional, mas também um filme que não vai de jeito nenhum às entranhas de seu tema. As melhores partes sem dúvida acabam sendo as imagens de arquivo com entrevistas à Buñuel, quando o objeto, sem mediadores, se revela.
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