7 de outubro de 2008
Um cineasta da América Latina
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
Por Eduardo Souza Lima
Filho de Glauber e da também artista visual colombiana Paula Gaitán, nascido em Brasília, Eryk Rocha é o que podemos chamar de cineasta da América Latina - como quis ser o pai. Em sua obra, o Brasil nunca está só, mas intimamente ligado ao continente. Depois de “Rocha que voa” e de “Intervalo clandestino”, Eryk se embrenhou pelo Peru e pela Bolívia para pensar o Brasil em “Pachamama”, que estréia amanhã, às 17h, no Odeon - com esssões também na quinta, às 14:30h e 20:30h, no Cine Glória. Além de dirigir, Eryk fez a câmera e montou (junto com Eva Randolph) o filme. O diretor agora prepara o seu primeiro longa-metragem de ficção, “Transeunte”.
O que é “Pachamama”?
Pachamama é a mãe-terra, a fertilidade, a deusa agrária dos camponeses, dos indígenas andinos originários da civilização inca. É dificil definir um filme do qual ainda tenho tão pouco distanciamento, até porque pouca gente o viu e eu acredito que o sentido de qualquer obra quem inventa são as pessoas. A cada sessão o filme vai ganhando novos sentidos, vai nascendo para o mundo. “Pachamama” é um filme sobre o deslocamento, o ato do deslocamento possibilita se pensar, se ver como pessoa, como artista, como país. Nesse sentido, também é um filme sobre o Brasil através das realidades do Peru e da Bolívia. Então, a partir do deslocamento pude pensar o Brasil: que somos nós? Qual é o nosso lugar no mundo? Quais são nossas potências como cultura, como país? O que podemos aprender dos países sul-americanos e dessas culturas ancestrais?
Qual foi a sua maior descoberta de viagem?
Eu tenho uma raiz latino-americana muito forte. Tenho sangue colombiano. Estudei cinema em Cuba, morei na Venezuela e conheço quase todos os países da América Latina. Isso se reflete nos filmes que faço de alguma forma. Sempre tive um desejo de fazer um filme-viagem pela América Latina. Me impressionou vivenciar e filmar toda a ebulição poltica que está acontecendo na Bolívia. O que existe na Bolívia é um problema secular, ancestral, de 500 anos. Um conflito social, étnico, ligado direatmente às feridas e catástofres do colonialismo que hoje se manifestam através de outras formas. A Bolívia indígena e Bolívia branca espanhola. Com a chegada do Evo Morales, o primeiro presidente indígena ao poder, todas esses conflitos e contradições eclodem. De alguma forma, mas sem a intenção de ser didático ou conclusivo, acho que o filme toca em algumas dessas questões, é um prenúncio do que está ocorrendo agora, algo que não sabemos ao certo onde vai dar.
O que une o Brasil, tão isolado pela língua e pela floresta, ao resto da América Latina?
A marcas do colonialismo e da violência. Em todo o continente haviam culturas, civilizações ancestrais muito poderosas que foram exterminadas, esquecidas.
Por que você mesmo quis fazer a câmera do filme?
Em 2006, um amigo meu, o João Carlos Nogueira, que é uma pessoa que conheçe profundamente a geopolítica do continente, viu e gostou muito do meu filme anterior, o “Intervalo clandestino”, e me convidou para participar da travessia. Além dele, também fizeram parte da viagem o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva e mais dois alunos dele. Fizemos a viagem em dois jipes, então a decisão de fazer a câmera está ligada à própria dinâmica da viagem, ao paradigma de produção. Esse foi uma dado novo, nos filmes anteriores sempre tive um fotográfo, um interlocutor. Então esse é um filme que também fala da solidão de filmar. Desde o princípio eu percebi que esse era uma filme onde a câmera estaria conectada ao meu corpo, uma câmera sensorial, de descoberta, de dúvida, de respiração, a câmera plenamente integrada ao corpo, como um orgão do corpo. Quase como uma inspiração vertoviana, da câmera-olho. Foi uma experiência nova fazer um filme junto com uma equipe que não era de cinema, uma equipe multidisciplinar, foi uma grande aprendizagem, uma aventura criativa enigmática.
Como você situaria “Pachamama” em sua obra?
Creio que “Pachamama” é o terceiro filme de uma trilogia. O “Rocha que voa” fala do imaginário; o “Intervalo clandestino”, da política; e o “Pachamama”, da terra. O que une os três filme é a multidão, a história do anonimato na América Latina. Isso não foi algo programado, mas que percebi recentemente. O próximo filme que estou começando a preparar será uma ficção, mas completamente influenciada por esses filmes.
O que você viu de bom neste festival?
Posso dizer que vi filmes extraordinários no festival. Os meus preferidos foram “La rabia”, “A cidade de Sylvie”, “Pan-cinema permanente” e “A fronteira da alvorada”.
Um comentário para “Um cineasta da América Latina”
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7 de outubro de 2008 às 15:59
foda!
fico bastante anciosa com esses filmes-verdade.
existe, ainda bem.