7 de outubro de 2008
Um (bom) herói dos anos 80
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
SE NADA MAIS DER CERTO
(José Eduardo Belmonte, Brasil, 2008)
Por Luiz Henriques
Rapaz, estava falando ainda outro dia, na crítica do “Vingança”, do povo que cresceu nos anos 80 vendo filme noir, lendo Bukowski, então sendo lançado aqui pela Braziliense, e colecionando as primeiras “graphic novels” a aparecer nestas plagas, e de como suas tentativas de contar histórias transpondo o herói sensível, cínico e ultra-romântico que eles tanto admiravam para as telas trouxe resultados aquém do esperado. Pois não é que 20 anos depois finalmente eles estão conseguindo?
E a influência desses ícones aí em cima no “Se nada mais der certo”, de José Eduardo Belmonte, é tanta que em dado momento os personagens se embebedam com a ajuda da “vodka Bukowski”. O velho Buk não tinha simpatias por povo de classe média metido a ser verdadeiro marginal, como o jornalista duro protagonista do longa, mas a coisa (quase) toda é tão bem feita que consegue desviar-se da auto-exaltação e da auto-piedade, as armadilhas escondidas na folhagem de quem resolve contar uma história seguindo com esse tipo de herói.
Sim, porque o jornalista que Cauã Reymond defende bem é claramente alter ego dos criadores e figura de identificação da platéia. Vez por outra o roteiro escorrega em seu romantismo ético, como quando deixa claro que ele não se deita com nenhuma das duas mulheres de quem passa o filme cuidando, uma delas inclusive morando com ele, uma moça bem neurótica, e não é pra menos, o sujeito por quem ela obviamente sente atração não toma nenhuma atitude…
Mas isso é detalhe. Usando a hoje em dia já tradicional câmera tremida e desfocada e edição nervosa, a fita segue a vida de alguns personagens que se encontram por acaso – a moça de sexualidade duvidosa que faz alguns aviões, um taxista depressivo, o jornalista duro, e como eles formam uma família postiça. O jornalista volta e meia mostra romantismo e dignidade demais, como quando faz um discurso contra se vender à sociedade de consumo (felizmente de apenas umas duas linhas) ou não consegue desempenhar quando um amigo patrocina uma ida ao bordel, mas a vontade dele de fazer amizade com todo mundo e a óbvia alegria que ele e os outros habitantes da fita sentem em companhia um dos outros conseguem nos vender esse universo fílmico de desajustados felizes por encontrar seus iguais.
Como sói acontecer nos filmes noir e graphic novels que influenciaram os criadores de “Se nada mais der certo”, a história acaba descambando para crimes, aventuras e armadilhas do destino. A trama é bem recheada de incidentes e não se detém muito em nenhum deles a ponto de nos fazer pensar em sua verossimilhança ou se são tão importantes, mantendo nosso interesse e atração. E, importante, mantém o ar regional, escapando de outro erro normal nesse tipo de fita, a exposição da alienação do artista, incapaz de se libertar da influência da cultura americana, presente o tempo todo, é claro, mas filtrada por olhos de metrópole do terceiro mundo.
Deixe um comentário
- Esses esboços, pobres esboços
- A morte careca
- Noite de premiação
- Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa
- Idéias em movimento
- O pódio da Première Brasil
- Repescagem e maratona
- Escrevendo um 4
- Uma canção ao cair da tarde: “A vez do Brasil”, Flu
- Doidão de amor
- O estouro da bolha
- A crueldade da arte
- Todos os nossos fracassos cinematográficos
- Rostos por trás dos números
- Com Monty Python e outras coisas nas idéias
- Um cara gente boa
- Sem pé nem cabeça
- Family cop
- Descobrimento da América
- Somente as aparências enganam
- Ripstein premiado
- Poesia marginal
- Atuação mecânica
- Cimentando o caminho das nuvens
- Página virada
- Ripstein chegou!
- Placar moral
- Digestão demorada
- Woody Allen é um velho pedófilo incestuoso
- Um filme domesticado pra falar do instinto
- Ponyo não saiu do fundo do mar
- Pare e pense
- Um cineasta da América Latina
- Musa atrás das câmeras
- Um (bom) herói dos anos 80
- Ausência paterna, ausência do Estado, falta de mulher
- Trilha pra quê?
- Sessão da Tarde: “O paradoxo da espera do ônibus”
- Um filme que se desfaz
- Rio, Zona Norte
- Cabeça a prêmio
- Um olhar em off
- Uma canção ao cair da tarde: “Vinet San”, Flu
- Pancadão
- Banzai!
- A Tijuca baixa na Cinelândia e em Guadalupe
- Mala de Barro
- Como se dança o baião
- Nothing but a good time*
- É grupo!
- Uma conversa com Paolo Taviani
- Idéias curtas
- Filme cabeça
- BOMBA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
- Boato do dia, quer dizer, da Zé Pereira
- Top 5 nomes típicos de festival
- Mulher esfinge
- De volta para o futuro
- Uma rádio pras cantoras
- Dois morcegos na porta principal
- Cavalo selvagem
- Alô, Walt!, continuamos amigos!
- Ele & Ela
- Depois do vendaval
- Curtas e o festival online
- A culpa é do Lula
- Irmã Dorothy e a “mãe dos problemas do Brasil”
- É só RocknRolla, mas quem se importa?
- Natividade
- Viagem perdida
- Outra verdade muito inconveniente
- Sacanagem
- Hope I die before I get old! (Talking ’bout my generation)
- Um filme é um filme é um filme é um filme
- Véus cobrem/descobrem uma diva: Maria Gladys
- Um filme de geração
- Tempo de lágrimas
- O fio da meada
- Abaixo da crítica
- O WTC e o crime perfeito
- Vermelho-vida
- Eles não queimaram o filme
- Quem é normal?
- O sonho acabou
- Filho do seu Natal
- Da China non, do Zapon
- Os filmes que não verei
- O spleen de Strasbourg: cinema de Guerin é melhor que seu filme
- Duas vidas
- Bressane para todos
- Rock já foi rock mesmo
- Marginal é rua que engarrafa em São Paulo
- O cinema neonovo de Matheus [AUTOTEXTO]
- Dinheiro é uma coisa suja
- Revolucione-se
- O Iraque pelos iraquianos
- A festa do menino Matheus Nachtergaele
- Vale-tudo na tela
- Cinema de breque não é pra qualquer otário
- Bom dia, Rio Babilônia
- Merecida aposentadoria
- A filósofa dos curtas ou Uma mulher com cabeça
- Aqui me tens de regresso
- Chanchada cabeça
- Onde está Waly?: Retrato do poeta enquanto vídeo
- O silêncio das imagens
- Drežnica é um lugar perto daqui
- Cineclubismo em debate
- Por água abaixo
- Mentes vazias
- Mais brasileiros no Odeon
- Sentido aguçado
- Homem-Elástico
- Será que não vi isso antes?
- Azul da cor do mar
- A Zé Pereira no Festival do Rio 2008










