30 de dezembro de 2009
Traço (borrado) do arquiteto ou O que diabos esse povo tem, afinal? – II
BLOG, bolo de rolo
Por Dandara Palankof
“E só tende a piorar”. O comentário não me foi feito por uma pessoa apenas. Várias o fizeram, quando de minhas reclamações sobre o estado de conservação de nosso querido avião modernista. Porque quando voltei pra esta casa de mãe que Brasília é pra mim, semana passada, esta foi a sensação que tive: estão acabando com a cidade. O lugar no qual tive uma infância quase idílica, que eu esperava proporcionar aos meus próprios rebentos, quando viessem, pode acabar não tendo muito do que eu prezava nos próximos anos.
Décadas de desgoverno. Não dava bem pra esperar outra coisa, no fim das contas. A triste verdade é que o que tem acontecido em Brasília nos últimos tempos não é novidade. O governo do Distrito Federal é uma máfia desde os tempos em que nosso representante máximo era “biônico”, escolhidos pelo governo federal. Tudo, tudo o que há de errado nessa cidade começou quando o Sr. Joaquim Roriz assumiu pela primeira vez o seu comando.
O que dizem é que a família de Roriz teve terras desapropriadas para a construção da capital. O fato é que, tempos depois, ele ganhou a cidade toda pra administrar, como uma grande fazenda, e nunca se comportou como algo que não um coronel. Roriz sofreu processos por corrupção em praticamente todas as vezes que assumiu um cargo público, mas nunca sofreu um impeachment. E sempre foi reeleito. Sua renúncia há alguns anos, quando exercia o cargo de senador, foi apenas uma retirada estratégica. Já se comenta sua candidatura para o GDF no ano que vem, e com chances de vitória ainda no primeiro turno. Afinal, Roriz importou seu eleitorado, e eles lhe são gratos até hoje.
Sim, é bem provável que o crescimento demográfico de Brasília fosse estar acima das projeções feitas na década de 1960. Mas o fato de o nosso “coronel” ter prometido terras de forma aleatória ali pelo dos anos 1980, sem dúvida acelerou o processo de migração sem que houvesse estrutura pra receber toda essa gente. Assim, as primeiras cidades-satélite, os bairros fora do Plano Piloto, nasceram como favelas, sem a menor estrutura básica. E foram se desenvolvendo quase que de forma independente, isolando-as do “avião”, que teve seu caráter elitista cada vez mais acentuado. Acho que surge por aí, também, o nosso maior problema até hoje: transporte público.
Divagações a parte, José Roberto Arruda não é mais do que um jovem padawan de Roriz. Apesar de hoje estarem em lados opostos, foi com ele que o atual governador do DF aprendeu a usar a máquina pública para lavar dinheiro, superfaturar compras e serviços em setores menos visados da administração e a subornar praticamente toda a Câmara para evitar maiores aborrecimentos, como processos e afins. Como mostrado nos vídeos já famosos. Repressão policial pesada a manifestações era prática bem comum do “coronel” e, como também já se viu, bem aprendida por Arruda. E o barco segue, com a máfia dos empresários dos transportes se fartando, dos crentes deputados subornados nem se fala, as empresas amigas que conseguem inflados contratos sem licitação, e viva o setor imobiliário: vem aí o Setor Noroeste, novo bairro a ser construído em local que possui índios radicados e bacias de rios, mas que afirma em sua campanha de marketing ser um bairro ecológico. É bom pra inflacionar ainda mais os já altos preços dos imóveis em Brasília. Seria essa uma boa hora pra lembrar que o vice-governador, Paulo Octávio, é dono de uma das maiores construtoras do país?
Mas triste mesmo é ver que ninguém parece se importar muito. Já virou rotina, mais do que em qualquer outro lugar, assistir a todos esses acintes com aquela indignação de boteco; esbraveja-se enquanto tem alguém pra ouvir, mas depois se faz o quê? Se resigna com o fato de que Arruda permanecerá no cargo até o final. E com certeza vai usar os 50 anos da cidade, a serem comemorados agora em 2010, como uma cortina de fumaça (de gelo seco, dos shows que ele vai bancar com o dinheiro do governo; cogita-se até a Madonna!) pra esconder toda a sujeira na qual está envolvido; nada mais eficaz do que encher o povo de dopamina e fazer um ou outro discursinho emocionado. Outra lição bem aprendida com o coronel.
E eu cresci vendo carreatas e manifestações pelos dois eixos cruzados. Tudo agora parece tão tedioso, todos parecem tão impassíveis. Mesmo aqueles que ostentam adesivos de “Fora Arruda” em seus carros admitem sua total desesperança. Ninguém mais toma as ruas do centro, a Rodoviária só se lota agora de transeuntes, e enquanto isso, os blocos que enfeitavam a lateral do Teatro Nacional (mais uma amostra do abstracionismo geométrico que é uma das características da cidade), e foram retirados para limpeza há mais de um ano, ainda não voltaram, a Catedral totalmente coberta para uma reforma que ninguém sabe quando (e a quanto) vai terminar; tudo deixando o Eixo Monumental ainda mais apático sob a chuva de dezembro.
Ou essa cidade acorda ou não vai mais ter qualquer horizonte que seja.
Dandara Palankof nasceu em Recife, mas cresceu em Brasília; hoje mora na terra-natal. De férias na cidade que ainda é sua outra casa, torce pra que os “conterrâneos” estejam todos errados.
2 comentários para “Traço (borrado) do arquiteto ou O que diabos esse povo tem, afinal? – II”
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30 de dezembro de 2009 às 10:44
Tipos que INVENTAR CIDADE dá nisso; sugiro retorno da capital ao RJ urgente.
30 de dezembro de 2009 às 21:47
Já era, Diogo, não tem volta. Sugiro a galera brasiliense se tocar e tocar essa corja de lá. Alternativa não há.