9 de março de 2009
Teoria do co-autor
Por Arnaldo Branco
Dia desses fui falar mal de um filme no twitter e vários compatriotas reagiram com extrema violência, deixando de me seguir. Como era um filme gringo, estranhei: será que uma das unidades de filmagem ficava no Brasil? Pelo tanto de gente que levou para o lado pessoal, achei que eram todas da equipe de produção.
Sempre achei esquisito que alguém reaja passionalmente - pelo menos em público - quando o gosto de outra pessoa não bate com o seu. A prova de que esse comportamento é estúpido está nas seções de cartas do leitor dos cadernos culturais: quanto maior a indignação com um determinada crítica a um artista querido a) mais jovem é o fã revoltado ou b) mais indesculpável é a carreira desse artista.
Tenho essa teoria de que hoje as pessoas não apenas gostam das coisas, elas são as coisas de que gostam. Ninguém se sente mais definido pelo que é, ou pelo que faz, mas pelo que curte. Natural que se sintam co-autores de projetos de que só participaram como espectadores.
Um indivíduo sem talento pode compensar essa tecnicalidade sendo o feliz possuidor das obras completas de outro indivíduo, este sim talentoso - e, assim, acreditar ser uma espécie de Guardião do Bom-Gosto Humano.
Se você conhece algum ostentador intelectual chato que você deseja espancar com uma chave de rodas em brasa, por favor, releve. Ele é apenas uma vítima dos mecanismos compensatórios da mente.
13 comentários para “Teoria do co-autor”
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9 de março de 2009 às 18:02
[...] te tornas responsável por aquilo que te cativas. Leia aqui a coluna desta semana do Arnaldo Branco. E amanhã, apesar da crise, tem o Fotodiário celular [...]
9 de março de 2009 às 20:37
Muito bom o texto Arnaldo, já pensei muito sobre esse assunto, li idéias semelhantes a suas, mas essa definição de “Tenho essa teoria de que hoje as pessoas não apenas gostam das coisas, elas são as coisas de que gostam. Ninguém se sente mais definido pelo que é, ou pelo que faz, mas pelo que curte” é muito boa. Também acho que se explica porque hoje pouca gente faz algo, só são uma pequena parte de um processo e não se sentem realizadas com o produto final, talvez por sentirem que são descartáveis naquilo tudo.
9 de março de 2009 às 20:40
Exatamente, cara, perfeito.
11 de março de 2009 às 9:03
[...] Minha coluna para a Zé Pereira: Teoria do co-autor. [...]
11 de março de 2009 às 11:51
Qual foi o filme ?
11 de março de 2009 às 12:34
É, qual foi o filme?
11 de março de 2009 às 12:46
Inclua aí os torcedores que lascam um pedaço de pau na cabeça de outra pessoa que usa uma camisa diferente.
11 de março de 2009 às 12:47
lindo texto, arnaldo. eu desenvolvo uma ideia parecida no meu texto “orgulho de ser brasileiro”.
http://www.interney.net/blogs/lll/2008/05/05/orgulho_de_ser_brasileiro/
a ideia principal é que muita gente gosta de esportes pq eh uma forma indolor e facil de se apropriar do sucesso dos outros..
sempre q alguem fala “ganhamos do vasco por 3 a 1″ eu pergunto: “ganhamos quem? vc estava em campo por acaso?”
jah te mandei emails e nao tive resposta. sera q mandei pro lugar certo? vou estar no rio no meio do ano e queria finalmente te encontrar… ensinei beijo no asfalto pra duas aulas no semestre passado e passei sua graphic novel pra eles lerem… os gringuinhos adoraram…
11 de março de 2009 às 16:53
Slumdog millionaire, que eu nem vi. Hahahaha (mau)
Fala, Alex! Ahn… talvez, antigamente usava dois emails e tinha amigos demais que me escreviam, isso tudo acabou. Agora só uso o do gmail, é o que vc tem?
Vc ensinou Nelsão para crianças? :O
Sobre o esporte, acho que vc tem razão, mas aí é um processo consciente, ou totalmente irracional. O gordinho que não consegue subir escada e pede pro lateral voltar correndo 100m pra marcar sabe que está caindo em contradição. Ou não sabe, mas evidentemente é um cara que reage com paixão e sem pensar, como um fanático religioso que só sabe repertir bordões tipo “O Coringão é pura emoção”.
Essas pessoas que não admitem crítica pro seus artistas, no caso, são pessoas que se julgam inteligentes e que fazem escolhas guiadas por um bom senso estético que outros não possuem, mas se traem como nesses comentários sobre o filme de que “não gostei” (mau 2)
12 de março de 2009 às 0:14
Gosto do texto, Arnaldo, mas tava pensando também no caso oposto. Eu não sou e nunca posei de “guardião do bom gosto”, mas já sofri com o contrário.
Estranho? Não, rola muito. Eu, por exemplo, gosto muito de Chico Buarque, e ainda que não me incomode que alguém não goste do cara e goste do Catra (exemplo aleatório), canso de ouvir piadinha do tipo “tá posando de intelectual”
Eu desenvolveria mais, mas comentário grande é chato.
12 de março de 2009 às 10:52
hhahahah! ensinei sim. O Beijo no Asfalto, numa aula, e na outra, q foi uma aula de cronicas, lemos varios “A Vida Como Ela É” e vimos alguns episodios do seriado da Globo tb.
Aí, no final do semestre, naquela avaliação que os alunos fazem do professor, algum puritano pudico escreveu: “ele fala muito de sexo em aula!!!”
nao me lembro se o email q tenho é o gmail ou nao, e de qualquer modo nao tenho mais, pq tive um email meltdown em setembro. minhas tentativas de comunicação foram lá por julho do ano passado. se puder, me manda um email pro endereco q coloquei aqui no comentario
12 de março de 2009 às 16:10
Não sei, não, acho que eu não reagiria muito bem se alguém viesse me falar mal de Douglas Adams. Claro que nunca ouvi falar de alguém que o tivesse feito, e, se acontecer, não imagino que seja uma pessoa merecedora de qualquer tipo de resposta inteligente. Para criticá-lo seria necessário nunca ter lido a obra do autor, e isso os críticos já se divertem fazendo com Stephen King. Mas aí é por o cara ser um vendido, como todos os escritores gostariam de ser.
Ah, tenta falar mal do Rolling Stones pra um fã, tenta. Eles viram Chris Crocker mais rápido que o Keith Richards vira um copo de vodka.
14 de agosto de 2009 às 18:54
Acho que isso começou com as torcidas organizadas de futebol, como diz o Alex Castro ali em cima. Quando o time perde, é como se eles, que não jogaram, que não ganharão um centavo, tivessem perdido. E saem por aí disseminando sua frustração batendo uns nos outros e depredando o patrimônio público. É, na verdade, uma necessidade de pertencimento a um grupo. Eu sou muito fã da Madonna. E queria muito ir ao show do ano passado. E fui, mas não dormi na fila pra comprar ingresso, não cheguei ao estádio com 15 dias de antecedência, nem estava ali com a ilusão de que ela fosse me ver ou se lembrar de mim. Estava a fim de ver o show. No dia, meu namorado queria ficar colado na grade. Falei pra ele: “Meu, vc só vai ver os pés dela. Vamos ficar a uma distância boa o suficiente para vermos tudo e sem histeria. Você está na pista VIP, comporte-se como tal.” Ele concordou. Só contei essa história pra ilustrar que a gente tem que ter distanciamento de certas coisas, senão vira comportamento de seita.