16 de fevereiro de 2009
Teoria do autor
Por Arnaldo Branco
Assisti por curiosidade mórbida a um capítulo de Caminho das Índias. Gloria Perez continua nos brindando com uma trama que apresenta um grupo étnico desconhecido para o público médio da Globo, aka Homer Simpson, baseada em uma árdua pesquisa feita na página sobre a Índia da Wikipedia em português, provavelmente atualizada por um carnavalesco.
Não temos uma indústria de cinema que se apresente, mas isso não é desculpa para tratarmos nossos autores de novela (contradição em termos) como se estilistas fossem. Jornais gostam de repetir que temos uma das melhores teledramaturgias do mundo, mas esquecem de completar que nosso concorrente direto é a Venezuela.
E que raios de teledramaturgia é essa de que estão falando? Imagino que produções como Sopranos e House não estejam na competição. Na verdade “teledramaturgia” denota uma subcategoria de ficção televisionada que pressupõe um casamento consanguíneo, um assassinato, e no caso da Gloria Perez, Eri Johnson. Sua ausência em Caminhos da Índia deve ser um sinal, para os padrões gloriaperezianos, do que chamam de amadurecimento artístico.
O prestígio dos - que seja - teledramaturgos por aqui desafia a teoria do autor tão querida dos artífices da Nouvelle Vague. Um novelista (?) trabalha com mais limites de expressão que um blogueiro chinês por causa dos números do ibope e do gosto médio do brasileiro, que não curte coisas como lésbicas, gays e negros que não sirvam cafezinho.
Sei que escrever novela é um trabalho de corno, mas fazer metrô também e vê se eu acho que os carinhas que começam com britadeira debaixo da minha janela às 8 da manhã merecem uma medalha. Portanto o volume de serviço não pode ser o motivo desses embromadores terem admiradores entre gente com alguma intimidade com o alfabeto.
Mas é claro que tudo isso é inveja do sucesso da Gloria Perez e seus colegas. Eu mesmo já escrevi a sinopse de uma novela. Só falta estudar pro tal teste do sofá.
10 comentários para “Teoria do autor”
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16 de fevereiro de 2009 às 17:59
[...] Arnaldo Branco, quem diria?, tomou o caminho das Índias. Confira aqui, em sua coluna de hoje. E amanhã não perca, por nada deste mundo, o Fotodiário celular [...]
16 de fevereiro de 2009 às 19:30
Sério, não sei qual a profissão mais fácil e mais produtora de merda. Autor de novelas ou publicitário?
17 de fevereiro de 2009 às 6:52
Eu botaria aí carnavalesco tb…
17 de fevereiro de 2009 às 18:00
Produtor de telejornal?
18 de fevereiro de 2009 às 12:43
[...] 2) E minha coluna para a Zé Pereira sobre Caminho das Índias: Teoria do autor. [...]
20 de fevereiro de 2009 às 12:43
No nosso país, qualquer um que escreva qualquer coisa é rei. Ex: Paulo Coelho.
25 de fevereiro de 2009 às 16:35
Acho engraçado críticas a alguém que faz alguma coisa quando o que critica ñ faz nada para ser criticado. Profissão mais fácil do mundo, criticar. Apontar o dedo em uma direção nos induz a não ver o quem aponta. Desconstruir é um arte, construir é o cão.
Toda crítica é válida, mesmo as fundamentadas em sentimentos, em relacionamentos pessoais assim como todo esforço deve ser reconhecido - telha ele bons ou maus resultados.
26 de fevereiro de 2009 às 15:02
Sempre que eu penso em falar alguma coisa sobre novela em qualquer discussão eu lembro que simplesmente não vale a pena. É óbvio demais.
4 de março de 2009 às 13:54
Foda cara, adorei.
8 de março de 2009 às 21:09
o mesmo acontece comigo, Daniel.