19 de janeiro de 2009
Tempos difíceis para um Stalinista
Por Arnaldo Branco
Os que acompanham o que escrevo, ninguém que eu conheça pessoalmente, sabem que sou de esquerda, com atenuantes. Fecho com várias questões capitais dessa antipática corrente ideológica, com divergências aqui e ali, principalmente no que tange o gosto musical. E, pessoal, não tem sido fácil torcer para o nosso time nesses tempos em que nem a Igreja nem o Comunismo tem mais moral para combater a usura.
Não ter gosto pelo consumismo predatório é hoje uma inclinação antinatural, como foi considerado o homossexualismo em outros tempos. Nem é preciso ser ativista nem nada: todo mundo que não curte monetização, filme de super-herói, Washington Olliveto e A Favorita é esquerdista radical. E qualquer um que pareça avesso à idéia de que o capitalismo é o pior dos sistemas com a exceção de todos os outros está sujeito a ser tirado de stalinista.
“Todo mundo na merda, eis o paraíso socialista”. A frase do Wolinski explica melhor a derrocada do sonho de uma sociedade sem classes do que vinte palestras soporíferas do Noam Chomsky, mas também não é para os porcos capitalistas ficarem até hoje fazendo dancinha da vitória. Claro que a liberdade absoluta para consumir é a grande conquista da marcha da humanidade, só não sei se a hora pra tirar onda é agora, com a crise e tal.
Pior que já houve precedentes: a década de 80 pertenceu aos yuppies, os jovens empreendedores caretas que não tinham vergonha de sua ganância, ou pelo menos não mais do que de seus pais hippies nojentos. O curioso é que justo quando poderiam curtir seu maior momento, a queda do muro de Berlim, sobreveio uma crise horrorosa que deixou todo mundo sem grana e refletiu até na estética mulamba do movimento grunge. Sério.
Está na moda ser de direita, até porque paga melhor, mas todo cuidado é pouco quando a certeza de se estar com a razão prejudica a boa e velha observação imparcial. Todo mundo que acha que o Mercado é sábio como a Natureza e autoajustável igual tinha que passar pela experiência de ter a mãe doente com um plano de saúde que não cobre sua enfermidade por uma brecha jurídica qualquer.
E adoro quando esses caras apontam a incoerência de sujeitos como o Niemeyer, comunista convicto e podre de rico. Quando vejo meus amigos que são totalmente a favor do Capital mas não tem onde caírem mortos, penso: sou muito mais o dilema do velho.
29 comentários para “Tempos difíceis para um Stalinista”
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19 de janeiro de 2009 às 16:37
[...] duro ser comunista hoje em dia. Saiba o porquê lendo aqui a coluna o Arnaldo Branco desta semana. E amanhã rola o Fotodiário celular [...]
20 de janeiro de 2009 às 21:36
Hummm. Sei não, Arnaldo -mas, considerando o próprio Niemeyer, parece que ser de esquerda paga bem melhor. (=
Também acho mais comum que qualquer um que concorde com “o capitalismo é o pior sistema fora todos os outros” seja tirado de fascista -o que pra mim faz tanto sentido quanto o contrário (ou seja, zero). Mas isto não é uma boa e velha observação imparcial, como ‘cê sabe.
Abraço!
21 de janeiro de 2009 às 15:48
Artigo meio anacrônico, não?
Mas eu sou a favor do paradoxo do Niemeyer, sempre!
21 de janeiro de 2009 às 18:46
Por que anacrônico?
21 de janeiro de 2009 às 18:51
[...] 3) Minha coluna Mal Necessário para a Zé Pereira: Tempos difíceis para um stalinista. [...]
21 de janeiro de 2009 às 19:43
Essa coisa da certeza do capitalismo me intriga tanto quanto a supersatisfação e defesa incontestável da democracia.
Qualquer um que pense em sequer questionar um detalhe do regime democrata é taxado de bolchevique e o caralho.
A Veja gasta quase tantas páginas felando a democracia quanto com propaganda.
21 de janeiro de 2009 às 23:57
O tema é muito maior que seu texto. Então, o que seu texto diz? Qual o tema dele? Diogo Mainardi? Olavo de Carvalho? Reinaldo Azevedo? Hegemonia dos EUA? Encobrimento e sufocamento do marxismo pelo “stablishment”? Falta de uma ciência marxista contemporânea? Ou seria seu texto o resultado material de tudo isto: um vazio, um clamor por palavras que não vêm. Não sei, mas eu sinto o mesmo.
Li ontem, em algum lugar, um dos absurdos desse Olavo de Carvalho. Dizia que o Barack Obama não tinha apresentado seu RG até o momento e que, portanto, não tinha comprovado sua cidadania americana. Pior que ler isso do dito cujo, foi ouvir de outros que propagam a “informação” como se verídica fosse, apaixonadamente. Mandei a resposta do problema: o Barack Obama não tem RG? Mande ele pro PoupaTempo.
E stalinista é coisa do passado. Outro século, outro milênio. As gerações novas têm certeza: Marx nasceu no século XIV e a ex-URSS caiu no crepúsculo do séc. XV.
Hoje em dia a nomenclatura oficial e uniformizada é: terrorismo. Você comete um ato político violento e é terrorista. Pichou a bienal? Terrorista. Atirou pedra no Estado? Terrorista. Árabe? Terrorista. Venezuelano? Terrorista. Vota no PT? Terrorista. Coringa do Batman? TERRORISTA.
É um terror.
22 de janeiro de 2009 às 3:46
Ótimo!
22 de janeiro de 2009 às 3:51
Ótimo texto!
Só faltou o clichê: “Se o comunismo é tão bom, por que você não vai morar em Cuba?”
22 de janeiro de 2009 às 9:04
Caralho, até você com essa coisa de direita e esquerda? Olha o tamanho (e breguice) dos comentários que esse tipo de texto proporciona.
22 de janeiro de 2009 às 12:39
Bom, eu vejo o dilema do velho por outro ângulo:
- Se eu fosse rico pra caralho, seria comunista.
- Como sou pobre, prefiro ser capitalista, assim um dia posso ser rico pra caralho e aí vestir a camisa vermelha.
Em outras palavras: com grana, viro até o supla e viro pseudo punk anarquista palhaço.
22 de janeiro de 2009 às 20:41
tem quem continue crer nessa metastase ambulante. é sempre mais facil passear no shopping enquanto a conta nao vem…
23 de janeiro de 2009 às 9:40
Hoje em dia, no Brasil, a esquerda é direita, e a direita é mais direita do que nunca. Onde já se viu, o Lula defendendo o Sarney? Como diz o Dahmer, quero um Lula modelo 89!
23 de janeiro de 2009 às 20:33
não vejo contradição no caso niemeyer. ele ganhou dinheiro com o produto do trabalho dele, mais do que justo. acontece q o trabalho de desenhar brasília foi mais bem pago do que o trabalho de fazer o concreto e colocar os desenhos dele de pé. são sei prq as pessoas gostam tanto de rótulos, parece uma síndrome de aristóteles, vivem querendo classificar tudo. é o paradoxo do “vinhas da ira”: o sujeito é chamado de comunista prq não quer ser explorado e quer ser pago decentemente pelo seu trabalho, sem ter a mínima idéia de quem é marx, lênin ou stalin. Dúvido que Lula leu manifesto comunista, o capital, e outros clássicos do marxismo e se leu duvido q entendeu e tb duvido que o Lula dos anos oitenta um dia precisou de background em filosofia pra lutar por melhores condições de trabalho e salário decente.
24 de janeiro de 2009 às 0:18
as informações do luisandro tão caducas. se o lula não leu, ou leu e não entendeu, teve o sérgio buarque para explicar o que cada um dizia. agora, base o cara tem, é só olhar o background dele que ninguém fala, só mandam o “analfabeto, blá, blá” mas ele fez ainda um curso de ciência política na alemanha que na época (não a revista) deu o que falar, que o tal tinha acabado com as raízes… e se fosse questão de ter lido, entendido e ramificações, o fhc leu até demais e pra que serviu? até hoje pagamos as dívidas, até daquele conjunto de jantar de 11mil reais que ele fez questão de comprar antes de sair da presidência.
o problema do comunismo, do socialismo, do stalinismo - da esquerda, é que só guardam as memórias: maio de 68 (a ufrj/ifcs por exemplo o celebrou o ano inteiro de 2008), urss, o fim do muro… não dá pra viver assim, tem que renovar - o próprio marx não pensou em propriedade intelectual como mercadoria. e ainda tem a distância das idéias originais, criadoras desses vermelhos que vivem gritando REVOLUÇÃO e acham que se você tem um tênis que não seja abaixo de 30 reais é playboy, cujo próprio marx falou no socialismo utópico no famigerado manifesto: pela distância das ideiais originais, criam-se discípulos que não tem idéia do que é socialismo e são radicais estúpidos. hoje em dia (nem mais agora) a barba é praticamente só pra fã de los hermanos (e as ideias) são só de onda até o fim da faculdade de humanas pra se achar que vive no estopim e tentar comer alguém.
por fim, se o idealizador do comunismo fala que o proletário tem que acordar pra sua situação pelo movimento que o capitalismo engendra, porque as criticas ao niemeyer? proletário ele não é. ele (se ainda iver idade) só tem de aderir ao processo na segunda etapa. e, quer melhor momento pra revolução que a crise? o capitalismo tomando bomba, demitindo (deveria fazer o proletário acordar), enfraquecendo… é praticamente se unirem e tomarem o poder, mas, quem quer? o eike batista é que não vai liderar.
24 de janeiro de 2009 às 12:21
Ser stalinista é ser um abjeto genocida. Um sujeito que quer mudar o mundo conforme sua cabeça doentia e não se importa com a contagem de cadáveres.
Meua amigos esquerdistas (fiz amizade muitos anos antes deles term degenerado) ficam insinuando que devo trocar de carro. Pra quê? Eu, verdadeiramente direitista, conservador e defensor do livre mercado não me incomodo com tanto com coisas materiais. Se eu tenho um teto, roupas e um prato de comida não fico infeliz.
Sou a favor do livre mercado (e não do “Capital”) e desprezo profundamente baratas e esquerdopatas. Uma mensagem aos petralhas:
Quer revolução? Nem todo mundo é doente, enfia essa revolução no seu orifício corpóreo.
24 de janeiro de 2009 às 12:46
abriram a porta do hospício?
24 de janeiro de 2009 às 20:34
incrível. o arnaldo nunca decepciona. e haja coragem para assumir as tendências esquerdistas. racionalmente assim, é ainda mais admirável.
26 de janeiro de 2009 às 10:42
Ontem, tava passando um documentário na rede Brasil, com imagens de 1984/85… e o Maluf ta lá, se defendendo das acusações de ladrão feitas pelo ACM, e respondendo “meus advogados responderão”. Cara, já faz quase 25 anos e o cara tá aí ainda!
Aqui no Brasil, não funciona o capitalismo, e jamais funcionaria o Comunismo. A única coisa que funciona bem aqui, é a corrupção. Talvez a vantagem de o Brasil virasse uma ditadura maoista ou algo do tipo, é que iriamos parar de ver manchetes como “Prioridade de Gilmar Mendes é aumentar o salário dos ministros do STF”. Pq simplesmente não seria publicado, e aí sim eu poderia ir na banca só pra ver as notícias do Mengão e quem foi a gostosa do BBB que posou pra Playboy.
26 de janeiro de 2009 às 14:39
Legal do Ricardo que ele demonstra claramente que para não entender nada basta não ler o texto.
27 de janeiro de 2009 às 14:56
Tô mais com o Niemeyer e acho que ser de esquerda, além de tudo, dá mais moral com as gatas. Mulher de verdade gosta bastante de uma justiça social.
28 de janeiro de 2009 às 9:51
Legal, eu realmente pensei que tu passava ao largo dessas questãs.
28 de janeiro de 2009 às 20:14
Se procurar refúgio político num lugar decente fosse fácil, eu torceria pro Brasil virar uma ditadura.
O comunismo deu errado. Deu muito errado, e teve mais de cinquenta anos pra se provar. Acho ingênuo ser contra o capitalismo por conta do padrão brasileiro de vida porque o capitalismo no brasil é tão capitalismo quanto o Jô Soares é escritor. Num mundo de sete bilhões de pessoas é impossível não haver injustiça social. O melhor possível é batalhar por um MÍNIMO de injustiça, e o comunismo não oferece isso. Como no livro-dentro-do-livro do personagem Emmanuel Goldstein em 1984 diz, classe alta, média e baixa sempre existiram e sempre existirão. Aqui a gente chama de classes A, B e C. Na Rússia era Nomenklatura e politburo, Aparatchik e o resto da corja. A diferença é que as classes altas soviéticas eram compostas de MUITO menos pessoas e as classes baixas, por conseguinte consistiam de muito MAIS. Todos os países comunistas seguiram o modelo. O motivo pelo qual caras como Niyemeyer e Chico Buarque apóiam tanto o comunismo é porque no fundo (ou até mesmo no raso) eles sabem que num Brasil comunista eles seriam Nomenklatura.
Nem vou mencionar os números de mortes por fome, doença, execução, trabalho forçado em campos de concentração e outras causas em estados socialistas porque acredito que o Arnaldo é bem-lido o suficiente pra saber disso tudo.
Tem sempre gente pra dizer que Rússia, Romênia, Coréia do Norte, China, Vietnam, Camboja, Líbia, Cuba etc etc foram sociedades desviadas do caminho e que portanto não contam como uma experiência válida em comunismo. Eu digo que não vale a pena arriscar um holodomor no Brasil só porque você PENSA que a visão de mundo de um determinado sujeito é boazinha o suficiente pra conceder a esse cara poder total sobre sua vida e a dos outros.
29 de janeiro de 2009 às 12:49
Ser de esquerda = comunista?
1 de fevereiro de 2009 às 2:40
Esquerda pode significar um bilhão de coisas dentro de cada contexto. Ataquei o significado mais relacionado a “esquerda política” no Brasil. E porque gosto de falar mal do comunismo.
Se não é o caso, mea culpa. Foi mal.
6 de fevereiro de 2009 às 15:35
a teoria defendida pelos marxistas é de que, durante o desenvolvimento da humanidade, cada vez mais as pessoas são separados dos meios de produção (antes os artesões eram donos das ferramentas, os fazendeiros das terras, etc) e hoje temos o sistema de salario, onde temos o proletario (dono apenas da sua capacidade de trabalho) e o burgues (dono dos meios de produção), uma pessoa que só é dona do seu trabalho precisa vender este para viver (diferente do feudalismo, quando ainda havia as terras comunais, onde qualquer sudito poderia caçar etc, apesar de ter que trabalhar para o senhor como imposto), porém como nos ensina a economia e a propria realidade, isto nunca atingira 100% da população, ou seja, jamais teremos todas as pessoas empregadas, pois o trabalho é uma mercadoria, e como esta obedece as leis de oferta e procura, que sobem e descem conforme a maré (porém nunca sobem a 100%, pois, segundo a economia, quanto mais empregados, maior o salario, logo o desemprego traz consigo ainda a desvalorização da mão de obra), atualmente temos cerca de 10% da população desempregada, porem ela nao fica desempregada para sempre, ela é rotativa, ou seja, todos vivem passeando por estes 10%, a ideia inicial do comunismo é simplesmente incorporar esses 10% de pessoas desperdiçadas, e dividir o trabalho dos outros 90% por todos os 100% (ou seja, menos trabalho para todos) ou mesmo usar estes 10% para aumentar a produção (empregar todos em novos empregos, obras publicas por exemplo), porem como disse acima, a força de trabalho é uma mercadoria que depende da procura, então é impossivel isto acontecer no capitalismo, a ideia de buscar o minimo de justiça no capitalismo é a mesma de aceitar que continuemos disperdiçando 10% da população economicamente ativa (as vezes mais, as vezes menos) e de viver em meio a crises economicas paradoxais, como a da superprodução, como exemplo temos os patios de montadoras cheios de carros, quando temos ruas entupidas de carros, temos rodizios para diminuir o numero de carros nas ruas, e mesmo assim ainda produzimos mais carros, isto por que o carro agrega muito valor, as necessidades humanas não são as diretrizes da nossa produção, o agregamento de valor é, se temos 1000 pessoas com frio, mas a venda de 1000 blusas ira proporcionar um lucro menor que o numero de carros produzidos com o mesmo capital, e mesmo tempo, tenha certeza que os investimentos serão para mais carros
bom, esse é um dos muitos problemas que percebi na nossa economia nao quando li marx, mas bem antes, em minhas aulas de economia
ps: antes que alguem venham me questionar sobre meu aprendizado, fechei economia com 8.5, e em uma faculdade renomada
9 de fevereiro de 2009 às 12:19
Cheguei aqui sem querer , e lí atentamente essa materia e cuidadosamente todos os comentarios !
Caraca ! só tem idiota nessa porra hein ! um bando de garotinhos despolitizados e que acham que o mundo acaba quando não sabem onde estao dirigindo ?
Ser burro é bem mais facil né ! ainda mais quando se sabe escrever textos , ter blogues , orkut e coisas do genero
9 de fevereiro de 2009 às 14:00
“Ser burro é bem mais facil né !”
se voce afirma isso, voce no minimo demonstra conhecimento na area
9 de fevereiro de 2009 às 21:48
Você conhece um sketch do monty python em que o cleese está lendo o jornal e começa a dizer, histericamente, algo como: “i hate that commies! i hate them, hate them…”
O pior é que tem gente igualzinha.