8 de novembro de 2008
Tempo Presente e Futuro
BLOG, Cinema
Por Eduardo Souza Lima
Ainda estudante da UFF, Bruno Safadi se aproximou dos cinemas de Julio Bressane e Rogério Sganzerla organizando uma mostra da produtora Belair e trabalhando como assistente de primeiro a partir de “Filme de amor”. Em curtas como “Tabu Totem” (2005), “Uma estrela pra Ioiô” (2003), “Na Idade da Imagem ou Projeção nas cavernas” (2002) e “Gosto que me enrosco” (2001) esta influência é evidente, mas há uma pegada particular acentuada também. E é por aí que vai “Meu nome é Dindi”, seu primeiro longa-metragem, estrelado por Djin Sganzerla e Gustavo Falcão, que estreou ontem no Unibanco Arteplex 3. O filme, rodado em Cinemascope, custou pouco mais de R$ 200 mil. Bruno fala com tanta propriedade quanto filma. Não é por nada não, mas a entrevista abaixo está duca.
Pra você, o que é “Meu nome é Dindi”?
“Meu nome é Dindi” é um primeiro filme de longa-metragem de ficção. Tem todo o frescor de um primeiro filme e também todos os erros. O filme é uma produção independente, sem qualquer incentivo público, e pensado para ser independente. Escolhi o caminho mais difícil, filmar um filme independente em película com resultado final em 35mm Cinemascope. E essa escolha do caminho mais difícil e o sucesso nessa empreitada é que dá ao filme uma grande força, tanto para o Presente, e acredito, quanto para o Futuro.
Por que quis fazer este filme?
Primeiro, “Meu nome é Dindi” nasce de uma necessidade vital de realização. Levo muito a sério o cinema e sua história. Grande parte dos meus mestres realizaram seus primeiros filmes ainda jovens e eu precisava disso. E depois, já definida essa vontade de se fazer um filme na marra, é que cheguei ao melhor: que é criar o filme. “Meu nome é Dindi” tem uma vontade de refletir o Tempo. Tempo é algo muito complexo e muito caro à História do Homem e eu pude me servir de muitos ângulos para fazer essa reflexão-realização. Através de um recorte, dentro de uma narrativa, refletir como o Tempo influencia a vida de uma pessoa e como essa pessoa reage e vive o seu Tempo. Para esse recorte, que foi filmado no Rio de Janeiro, mas poderia ser na Argentina, nos Estados Unidos ou na Europa, pensei numa história clássica dos dias de hoje: uma moça de 30 anos tem um pequeno negócio de família, no caso uma quitanda, que está falindo devido a abertura de um supermercado na vizinhança. Ela está devendo dinheiro a um agiota e começa a ser perseguida por um homem. Ela está no limite da sua sobrevivência e mesmo sabendo que sua luta, mais dia, menos dia, será perdida, ela diz sim à vida e vai à luta. Por isso, o filme se chama “Meu nome é Dindi”. Uma afirmação. Um SIM à vida. Dentro desse momento agônico da Dindi, que tudo vem à tona, Tempo é Passado, Presente e Futuro juntos. E no filme, essa linha é muito tênue. A idéia do filme é de se filmar através de uma subjetividade que é a câmera, mas também de uma subjetividade da personagem, revelando não só Passado, Presente e Futuro - às vezes dentro de uma mesma cena - mas também consciente e inconsciente, que se cruzam ao longo do filme. Criei a história para permitir essas reflexões-experimentações. Entretanto, essa reflexão sobre o Tempo não se prende só a história, mas se estende por outros campos da linguagem como o plano-sequência. O Cinema nasceu num plano-sequência. Eu queria me aproximar dessa experimentação de fazer um filme todo em planos-sequências. Explorar o tempo dentro do plano, esgarçar até o limite do chassi. Houve nisso um processo radical de experimentação, pois com essa escolha houve uma inversão na ordem comum do processo da realização cinematográfica. Houve realmente uma montagem antes da filmagem. Uma vez filmado, dificilmente o plano seria cortado na montagem para o filme obter mais ritmo. Então houve nisso um processo experimental. E, apesar do filme ser em plano-sequência, houve montagem. O final do filme foi criado na montagem. (continua aqui)
Que aproximações estéticas e/ou ideológicas tem o filme com os filmes da Belair?
“Meu nome é Dindi” tem uma aproximação ideológica fortíssima com uma fina tradição de cinema independente e experimental que há no Brasil desde o nascimento do cinema brasileiro. Sempre é bom frisar que o cinema brasileiro nasceu na entrada da Baía da Guanabara com uma câmera dentro de uma barco. Um plano ondulante, experimental. Depois temos exemplares fortíssimos nos anos 20 e 30. E também a Belair está inserida dentro dessa tradição experimental. Foi dessa tradição que eu quis me aproximar e renovar, colocando para frente essa linha fina. Com a Belair especificamente eu tenho uma afetividade muito grande. E como consequência desse sentimento afetivo, o filme tem signos transmutados da Belair. “Meu nome é Dindi” é protagonizado pela atriz Djin Sganzerla, filha de Rogério Sganzerla e Helena Ignez, dois dos três principais personagens da Belair. Há também a presença da Maria Gladys no filme, atriz da Belair e também uma pequena citação ao nome Belair. Mas creio que o que mais se aproximou da Belair foi o modo de produção do filme. Filmamos em uma semana apenas, com um dinheiro curtíssimo e um rigor estético muito grande. O filme é fotografado pelo Lula Carvalho e é 35mm cinemascope. Tem uma imagem sofisticadíssima.
O filme custou uma merreca. Como foi possível?
Primeiro, foi possível por uma vontade tremenda de uma equipe em fazer esse filme. “Meu nome é Dindi” é um filme de Bruno Safadi, mas muito mais, é um filme de uma equipe apaixonada por fazer cinema brasileiro e que quis fazer esse filme de qualquer maneira. Faltava a essas pessoas super talentosas e experimentadas fazer um longa-metragem de alguém da sua geração. É um filme de uma nova geração. Para citar nomes, Lula Carvalho, diretor de fotografia; Leandro Lima, técnico de som; Moa Batsow, diretor de arte; Rodrigo Lima, montagem; Sofia Saadi, assistente de direção; Fulvi Costalonga, figurino; e toda uma equipe por trás dessas pessoas. E o lado importante é que todos nós já trabalhávamos juntos, em curtas e longas de outros diretores. Havia uma grande afinação entre os agentes dessa criação.
Além desse envolvimento essencial para o projeto, houve uma imensa e dolorosa reflexão sobre como se fazer um filme. Já tinha tentado fazer dois longas (“Coisas nossas” e “A cor do desejo”), mas ambos tinham ficado com roteiros muito tradicionais, com tamanhos de produção tradicionais. Cheguei a mandar para alguns editais, mas após as primeiras respostas negativas, percebi que dificilmente conseguiria realizá-los. Há no Brasil toda uma fila de cineastas querendo fazer seu primeiro longa-metragem. Há cineastas com carreiras mais longas e premiadas do que a minha, cineastas à beira dos 40 anos que ainda não filmaram seus longas, e eu percebi que dificilmente com um roteiro de ficção chegaria lá tão cedo. Os editais não contemplam mais do que cinco cineastas “novatos” por ano. Toda essa reflexão aconteceu depois de muitas frustrações, muito trabalho e empenho financeiro jogados no lixo. Foi a partir daí que percebi que, se quisesse realizar esse meu sonho, não poderia esperar um prêmio. E percebi mais: se fizesse independente, estaria indo de encontro ao Cinema Brasileiro que mais me agrada. O cinema brasileiro de invenção, que é a grande tradição do nosso cinema. Essa percepção da independência é que foi a grande jogada. A partir desse limite é que me libertei. O limite de um filme realmente de baixo orçamento, com poucos atores, poucas locações, uma história simples e que necessitasse de poucos dias de filmagem e de muita criatividade. “Meu nome é Dindi” foi filmado em apenas uma semana. Três dias no mês de junho e depois mais quatro no mês de julho de 2006. Eram dois curtas-metragens. Filmei em 18 planos-sequências. Tinha dias da filmagem que tinha conseguido 20 mintuos. Assim se faz filme rápido. Muitos minutos filmados por dia.
Como a Belair conseguiu produzir tanto numa época em que ainda não existiam as facilidades digitais?
Acho que justamente por uma imensa reflexão do fazer cinema. Havia ali uma idéia de indústria. Uma mesma equipe com pequenas variações de um filme para outro, uma alternância de diretores – quando um estava filmando o outro estava montando - e filmes pensados para o modelo. Hoje no Brasil o cara tem um filme de dois milhões e quer fazer com 600 mil. Aí fica difícil.
A quantas anda o seu projeto de documentário sobre a Belair? No momento você está trabalhando em mais algum projeto de ficção?
Estamos, Noa Bressane, diretora, eu, diretor e Rodrigo Lima, montador, chegando ao final da edição. Ainda falta um pouco, mas logo chegaremos lá. O filme é para o ano que vem. Deve ser lançado nos Festivais do segundo semestre.
Estou também preparando um novo filme de ficção, “Éden”. O roteiro foi selcionado pelo Laboratório do SESC e estou captando a verba. Custará 1,3 milhão. Esse filme é de baixo orçamento tradicional. Será com a Mariana Ximenes.
Como é trabalhar com o Bressane? Como é ele no set? O quanto isso te influenciou?
Trabalhar com o Bressane é aprender a todo instante, o tempo todo. Ouvi-lo falar é como ouvir uma música. É muito impressionante. É o artista mais preparado que conheço. Ele no set é muito tranqüilo, pois já sabe muito o que quer. É rápido. Chega a dar trsiteza, pois acaba logo. Mas nossa parceria não se limita ao set. Trabalho desde o roteiro, o processo de escolha dos atores, ensaios, produção, filmagem, montagem, finalização. Temos uma produtora, a TB Produções, que junto a Aruac Produções do Eryk Rocha e da Paula Gaetan,, é a grande produtora do cinema de invenção brasileira hoje. Este ano a TB lançou três longas metragens: “Cleópatra”, “Meu nome é Dindi” e “A erva do rato”. Todos com belas carreiras.
Que sugestões você daria para o novo prefeito para a Riofilme?
Que invista mais na Riofilme. Que crie editais de desenvolvimento de roteiro, produção, finalização e distribuição para curtas e longas-metragens.
Para você, qual seria uma boa política para o cinema brasileiro?
A de se achar uma forma de baratear o ingresso do cinema brasileiro. Outra, de conseguir tirar as taxações dos equipamentos de cinema. No cinema paga-se impostos caríssimos. Assim não há discurso de indústria que resista a tudo isso.
Que tipo de filme te faz delirar?
Os que buscam a criação. Quando vejo algo de novo na tela ou mesmo a busca do novo, me emociono. Tenho visto alguns filmes novos muito bonitos: “Na cidade de Silvia”, “Luz silenciosa”, “Melancholia”, “Liverpool”, “A erva do rato”. Todos esses filmes se jogaram no abismo e saíram de lá vivos.
2 comentários para “Tempo Presente e Futuro”
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- Merecida aposentadoria
- A filósofa dos curtas ou Uma mulher com cabeça
- Aqui me tens de regresso
- Chanchada cabeça
- Onde está Waly?: Retrato do poeta enquanto vídeo
- O silêncio das imagens
- Drežnica é um lugar perto daqui
- Cineclubismo em debate
- Por água abaixo
- Mentes vazias
- Mais brasileiros no Odeon
- Sentido aguçado
- Homem-Elástico
- Será que não vi isso antes?
- Azul da cor do mar
- A Zé Pereira no Festival do Rio 2008











11 de novembro de 2008 às 14:49
Djin Sganzerla está maravilhosa na telona cinamascope , o filme é lindo, ousadia de quem sabe, e faz com pouca grana. O sonho de Bertolucci, que adora nosso cinema, e me disse um dia que o brasileiro faz filmes com criatividade em tudo, até inventando gruas e quetais. Merece ser visto, já , antes que não dobre a semana, pela cruel regra do deu pouco, tira de cartaz.
3 de outubro de 2009 às 9:56
[...] é relembrada no documentário “Belair”, de Bruno Safadi (que a gente já entrevistou aqui sobre seu filme anterior, “Meu nome é Dindi”), que passa logo mais, às 17h, no Odeon. [...]