1 de outubro de 2008
Tempo de lágrimas
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
NOSSA MÃE
(”Kabei”, Yoji Yamada, Japão, 2008)
Por Antônio Rogério da Silva
O Festival do Rio abriu a mostra 100 anos de Imigração Japonesa com uma homenagem ao veterano diretor Yoji Yamada, apresentando seu filme mais recente, “Nossa mãe”. Yamada pertence à terceira geração de cineastas japoneses. É o roteirista e diretor de uma das mais longas séries cinematográficas de seu país: “Toro San”, que estreou em 1969 e teve 48 episódios até terminar em 1995. Três filmes dessa comédia sentimental estão presentes nesta mostra, bem como duas de suas últimas produções.
Yamada mantém as características de refinamento e estética delicada na forma de narrar típicas do já tradicional cinema japonês. “Nossa mãe” é um exemplo de como o humor leve e a sincera solidariedade podem representar o que há de mais digno na condição humana. É uma adaptação das memórias de infância de Teruyo (a menina Miku Sato e Keiko Toda, na fase adulta), filha mais nova do casal Nogami, e a resistência de sua família ao arbítrio do Império Japonês durante a Segunda Guerra Mundial.
O patriarca da família, Shigeru Nogami (Mitsugoro Bando), um professor “comunista”, livre pensador é preso em uma madrugada fria de fevereiro de 1940 acusado de “crime de pensamento”. Uma época em que os “comunistas” poderiam cometer “crimes de pensamento”, mas nunca de corrupção. Quando não se dobravam à tortura e muito menos ao aceno do capital. Sua esposa Kayo (Sayuri Yoshinaga) e suas duas filhas entram em desespero, em meio a problemas financeiros. Não fosse a ajuda providencial de Yamazaki Toru (Tadanobu Asano), um atrapalhado ex-aluno, dono de uma editora, e da cunhada Hisako (Rei Dan), a família Nogami não teria como sobreviver nesse momento crucial, onde o contato escasso com Shigeru dificultava a manutenção da estrutura familiar. Mas logo também esses apoios serão solapados pela voracidade da guerra e as três mulheres terão de superar a fome com a força que lhes resta.
A direção de Yamada preserva o estilo clássico, com uma montagem pausada, movimentos de câmara precisos e uma edição que acompanha de perto a mudança das estações, bem marcadas no Japão. “Nossa mãe” é uma obra singela e madura que não teme expor os sentimentos humanos mais profundos sem ser piegas. Tudo transcorre com leveza e naturalidade para revelar a tensão violenta que há entre uma sociedade conservadora e pessoas que procuram resguardar suas individualidades contra a ditadura da maioria.
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