13 de novembro de 2009
Tateando no set
Por Eduardo Souza Lima
“Se eu sou gênio, o que era Mozart?”, disse certa vez Woody Allen numa entrevista . A auto-crítica, é, sem dúvida, uma de suas maiores qualidades – o diretor se questiona em seus filmes o tempo todo, como se fossem sessões de análise. O cara queria ser o Bergman, ele não esconde isso de ninguém; mas sabe que não o é. Allen é, antes de mais nada, um profissional do texto formado em comédia americana clássica - baseada em situações absurdas, diálogos afiados e humor histriônico – pelo teatro e pela TV, a mesma formação de um Mel Brooks. Nunca foi um estouro de bilheteria, mas foi gradativamente perdendo público – quiçá pela pecha que lhe impuseram, de cineasta intelectual – e prestígio do início dos anos 90 pra cá – ele produz muito, praticamente um filme por ano, e aí não dá pra manter a qualidade; quantas vezes você já leu ou ouviu por aí que tal filme é “a volta por cima de Woody Allen”?
“Dirigindo no escuro” (“Hollywood ending”, 2002) é um dos três filmes bancados pela DreamWorks de Steven Spielberg no início dos anos 2000 – os outros dois foram “Trapaceiros” (“Small time crooks”, 2000) e “O escorpião de Jade” (“The curse of the Jade Scorpion”, 2001). Os dois primeiros foram tentativas de levar Allen de encontro ao grande público, filmes mais voltados para esta entidade abstrata que ora nos rege chamada mercado - “Trapaceiros”, inclusive, remete diretamente ao seu segundo filme como diretor, a comédia quase pastelão “Um assaltante bem trapalhão” (“Take the money and run”, 1969). O terceiro também deveria ser, mas a impressão é que Allen, vendo que as tentativas anteriores não tinham dado em nada, resolveu chutar o pau da barraca e tirar uma onda consigo mesmo – e com seus fãs. Ou o fez só para cumprir contrato mesmo.
O temperamental Val Waxman é o personagem que mais evidentemente se aproxima da persona pública do diretor, criada pelo imaginário popular. Cineasta vencedor de dois Oscars, é considerado um gênio por alguns e um problemão por outros. Por causa de seu comportamento excêntrico e turrão, não consegue mais trabalho. Até que sua ex-mulher, Ellie (Téa Leoni), convence o atual namorado, o magnata de Hollywood Hal (Treat Williams), a lhe dar uma nova chance, à frente de uma superprodução. Às vésperas dos incínio das filmagens, porém, ele é acometido de uma cegueira psicológica. Dirige o filme assim mesmo, e é claro que ele é um grande fracasso de público e crítica nos Estados Unidos. Mas os franceses adoram. Quando Waxman diz “ainda bem que existem os franceses”, Allen está fazendo um agradecido reconhecimento, mas também é como se mandasse o aviso: “Eu gosto do que faço, mas realmente não me levo tão a sério quanto vocês”.
Evidentemente, Waxman e Ellie terminam juntos, em Paris. Allen não estava muito para inventar: “Dirigindo no escuro” é basicamente uma comédia romântica adolescente, com adultos nos papéis principais - curiosamente, lá paras tantas ele faz uma crítica ao gênero, quando Treat Williams diz que está lendo o roteiro de um filme sobre adolescentes que inventam uma máquina que restaura virgindade.
Composição de cenas nunca foi o forte de Allen – que se dá melhor escrevendo e dirigindo atores –, mas “Dirigindo no escuro” parece mais desleixado neste sentido do que o geral – as abruptas cenas inicial e final e a narrativa em off muleta, totalmente fora de propósito, numa das últimas cenas são bons exemplos. Mesmo o roteiro é burocrático. Como em outros filmes seus, parte de um ótimo argumento, mas parece feito às pressas – como “Poucas e boas” (“Sweet and lowdown”, 1999). São poucos os diálogos realmente inspirados e menos ainda, frases de efeito memoráveis – talvez um “conversa é o que você suporta para chegar ao sexo”, o que, convenhamos, é muito pouco. Só que você ri um bocado vendo o filme, o que é o mínimo que se pede de uma comédia. Porque outra qualidade de Allen é ser um ótimo diretor de filmes menores.
Artigo originalmente publicado no catálogo da mostra A Elegância de Woody Allen.











