20 de julho de 2009
South american way
Por Arnaldo Branco
O Henfil publicou um quadrinho na Placar durante Copa de 1970 estrelado por um torcedor chato que ficava berrando com os jogadores em todos os jogos. Sua queixa final: “levanta esse troféu direito, Carlos Alberto!”
Nelson Rodrigues também gostava de contar que um dos jornais da época chamou a festa popular pelo tricampeonato de “relativo carnaval”. Assim é o brasileiro, capaz de extrair a desejada derrota de qualquer vitória, não importa quão gloriosa.
Contrariando a expectativa geral, cito futebol aqui para falar de futebol mesmo, sou ainda mais limitado nas metáforas ludopédicas que o nosso presidente. Então: semana passada a conquista da Copa de 1994 fez quinze anos. Foi a senha para circular a versão revisionista que tenta reduzir aquela jornada épica a uma participação covarde e o título a uma tacinha de torneio colegial.
O Brasil passou por sete adversários: as seis seleções da tabela (jogou duas vezes com a Suécia, lembre-se) e a imprensa, que torceu contra abertamente. Uma campanha que tinha duas frentes de ressentimento: a do provincianismo paulista, que não admitia a reserva de Müller e a convocação de Branco e a dos herdeiros do Armando Nogueira, nostálgicos de um futebol-show que só tinha mesmo dado as caras (para apanhar) em uma Copa depois de 1970, a de 82.
Entre as bobagens perpetradas pelo primeiro grupo, o lobby pela entrada do Ronaldão na vaga do Leonardo, nosso lateral-esquerdo suspenso, e a insistência na escalação de nulidades como Palhinha e Viola. Do segundo grupo, basta dizer que ainda ironizam os poucos jornalistas que torceram a favor, dizendo que agiram por patriotada - como se a defesa de um “verdadeiro futebol brasileiro” também não fosse.
É essa mania de botar o modus brasilis em todos os aspectos da nossa vida social. Vivemos a fantasia de que há um jeito brasileiro de se fazer as coisas, um misto de capacidade de improvisação, esperteza e prestidigitação que supera qualquer esquema de organização gringo.
O pragmatismo de Parreira (a propósito, tenho sérias restrições), que supriu como pôde a entressafra de meio-campistas criativos, virou um crime de lesa-pátria para as viúvas do Garrincha ou sei lá que outro símbolo de um tempo em que o futebol não era praticado por velocistas com a explosão muscular de um boxeador.
Não seria tão ruim se essa mentalidade ficasse restrita ao futebol. Mas espraia-se por tudo; achamos que nossa primeiras idéias são geniais e basta, não gostamos de retrabalho. A pretensa criatividade natural do brasileiro é um mito que prejudica seriamente a criatividade em si.
E se você quer garantia de espetáculo, compre ingresso para os Harlem Globetrotters.
16 comentários para “South american way”
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21 de julho de 2009 às 7:44
[...] Minha coluna Mal Necessário para a Zé Pereira: South american way. [...]
21 de julho de 2009 às 12:33
É, como o Muricy mesmo disse ano passado “se quiser ver espetáculo vai no Municipal”. Mas confesso que sou um bocado viúva do Garrincha, ou melhor, viúva do Telê.
21 de julho de 2009 às 13:10
Eu tb, da Era Zico and such, mas até parece que vou renegar a Supercopa que o Flamengo ganhou com com gol do Lê ou o Brasileiro com o Piá na lateral.
21 de julho de 2009 às 15:21
Eu fico imaginando se os russos, que são campeões no hóquei, têm algum tipo de “estilo russo” de jogar, e se os jornalistas ficam falando “ahh.. bons eram os tempos de Subarov e Kopelnikov, passavam pelos adversários como bailarinos no Bolshoi”, ou algo assim.
Mas um gringo uma vez me apontou bem: O brasileiro é o único que só torce reclamando. Em qualquer rodinha de boteco assistindo o jogo do mengão, sempre tem o primeiro a afirmar, e todos reverenciam, como se ele estivesse enunciando um novo tratado da filosofia ocidental: “O Williams está correndo pouco”. É como se ele quisesse o time tome um gol, só pra ele poder dizer “Eu falei que ele tinha que cair pra esquerda pra apoiar!!!”
21 de julho de 2009 às 15:23
Para quem, como eu, nasceu no começo da década de 80 e praticamente não pôde acompanhar muito de Zico, Falcão e cia., a Copa de 94 foi A COPA e Romário era O CRAQUE.
Por isso, fico meio puto quando vejo alguém diminuindo aquela conquista, tão cara para quem é da minha geração.
Grande texto, sinto-me redimido.
21 de julho de 2009 às 19:02
Sinceramente não me recordo de ninguém em São Paulo pedindo a escalação do Ronaldão na vaga do Leonardo.
21 de julho de 2009 às 19:56
Chamar um jogador que foi destaque na conquista de TRÊS Libertadores (92, 93 e 97) de nulidade, como você fez com o Palhinha, não me parece a coisa mais inteligente a se dizer. Talvez seja mágoa de um rubro-negro chateado pela passagem opaca dele pelo clube em 98. Mas até aí, o Edmundo, o Amoroso, o Alex e o Zé Roberto também não tiveram muito destaque na Gávea. São nulidades por isso ou será que o Flamengo não oferece as melhores condições a seus atletas?
No mais, concordo com boa parte do texto. Foi uma grande conquista, acho até que muito (mas muito mesmo) maior do que a de 2002. E não acho que aquele time jogasse tão feio. Desde Pelé, nunca o Brasil confiou (e se deu bem) tanto em um par de pernas como nas de Romário. E ele é o cara…
Escalar o Ronaldão no lugar do Leonardo seria uma das maiores insanidades da história das Copas. Isso sim seria bairrismo, mas pelo menos isso, o Parreira não faria. Aliás, seria uma antecipação dos novos tempos, já que hoje é chique escalar zagueiro na lateral (vide Burdisso, Heinze, Sergio Ramos e cia.).
22 de julho de 2009 às 1:18
Concordo com o Cabron aí em cima. Outro exemplo é a torcida do Palmeiras, que é chata - já ouvi isso de amigo palmeirense- e se orgulha disso.
22 de julho de 2009 às 5:13
Concordo que tem o elemento “vi jogar no meu time”, mas é verdade que na Seleção sempre mandou mal. Outro foi o Raí, que (principalmente) na mão do Telê era um monstro. Leia então
Tercio, a campanha contra o Branco foi assassina. Até gente que nunca falava sobre futebol abriu exceção para entrar no coro, tipo a Danuza Leão que no dia do Brasil X Holanda escreveu que teve uma festa na concentração do adversário quando souberam da escalação dele. Tive ganas de mandar uma carta com o recorte da coluna e um sachê de mostarda, pra ela engolir.
Vi a defesa da escalação do Ronaldão na esquerda no Apito Final e no programa correlato do SBT, que era até pior no nível de baixaria: lembro o Luiz Ceará na beira do campo de treinamento apontando pro Branco e dizendo “amanhã joga ISSO AÍ na lateral”. Acho que nunca comemorei tanto um gol do Brasil.
22 de julho de 2009 às 5:15
Ops, a frase cortada na resposta acima era pra ser “Leia então ‘inoperante na Seleção’ ou algo assim no lugar de ‘nulidades’.”
22 de julho de 2009 às 10:31
Dunga, Taffarel e Branco eram ODIADOS pela imprensa, viz. Bandeirantes, TV Cultura. Quem acompanhou as mesas redondas da época sabe disso. Basta dizer que o Apito Final (A. Nogueira, Mário Sérgio et al.) escolheu o Moracy Santana (preparador fis. do SPFC) como principal responsável pelo título…
O Branco era odiado porque tiraria o lugar do xodó Leonardo; o Taffarel, porque tiraria o lugar do xodó Zetti; e o Dunga, por existir e respirar.
====
O Lúcio de Castro, repórter do Sportv, quis certa vez ironizar o Dunga pela sua atitude com a imprensa e disse que ele parecia o Rambo, sempre numa guerra que já teria acabado. (Não vou nem discutir se a guerra acabou ou não.)
Embora tenha sido uma analogia irônica, eu acho que ele está certo. E basta lembrar a frase do General Trautman no início do Rambo II, quando o general diz para ele: “Você escolheu a guerra errada (Viet) para ser herói.” Isso serve para todos os que jogaram naquela copa e até hoje têm que PEDIR DESCULPAS por terem vencido.
O Dunga é criticado até quando levanta a taça e xinga. Já o Müller, que errou 3 gols feitos em 90, contra a Argentina, é INJUSTIÇADO e VÍTIMA, porque ‘merecia’ estar no time de 94.
(Não precisaria, mas farei um disclaimer: não gosto nada do Parreira como treinador, não sou o maior fã do Taffarel e nem acho que o Müller seja um perna-de-pau; a questão é que em 94 a imprensa brasileira abriu mão de qualquer tipo de senso do ridículo ao comentar a seleção brasileira.)
Abraço.
23 de julho de 2009 às 2:21
Esse comentário é do Rambo III, que ele vai pro Afeganistão. No início do Rambo II o Coronel Trautman quer mandar o Rambo de volta pro Vietnã, daí o Rambo pergunt se dessa vez eles iriam ganhar. Ele volta e ganha a guerra 10 anos depois de acabar. Que filme ruim, nem o Rambo III consegue ser pior.
23 de julho de 2009 às 8:34
a copa de 94 foi a mais emocionante e divertida de todas. sem mais.
23 de julho de 2009 às 20:08
Minha Mãe, q é russa, vive dizendo prá gente trabalhar. Diz ela q é o elixir da dor, seja lá o q isso for!
Bem, ela só fala q Nikholai Khabibulin e Vyacheslav Koslov foram ídolos e não jogam, não pela seleção, mas não justificam a má fase da Rússia no Hóquei. Mais ou menos como a falta de um Zico faz falta ao Mengo.
Se a diretoria do Fla não trabalha, não dá prá exigir q os jogadores façam o mesmo. Se eles realmente tentarem treinar e jogar duro, remarão contra a corrente!
E não dá pros torcedores procurarem um novo messias!
24 de julho de 2009 às 10:59
Não é do Rambo III coisa nenhuma. É do II. O general diz isso exatamente quando ele pede para voltar ao Vietnã.
Aqui:
TRAUTMAN
You just picked that wrong war to be a hero in.
Caso tenha dúvida.
http://www.imsdb.com/scripts/Rambo-First-Blood-II-The-Mission.html
4 de agosto de 2009 às 23:41
Cara, eu sou mais traíra que todos estes jornalistas aí.
Eu sou um perro porteño. Tenho saudade do Maradona, pelo menos este eu vi jogar!