Reportagens

13 de setembro de 2008

S.O.S. Vila Operária*

Texto: Ana Paula Conde
Fotos: Barbara Copque

Altamiro Nunes de Souza mudou-se para a casa onde mora na Vila Operária em 1929. Ele tinha apenas dois anos e dividia o espaço com os pais e quatro irmãos. Seu pai, Antônio, trabalhava na Prefeitura, como todos os moradores do primeiro conjunto habitacional de baixa renda construído pelo poder público. Quase 80 anos depois, como conseqüência do descaso e das transformações urbanísticas pelas quais a cidade passou, e que raramente levavam em conta a história da cidade e a realidade dos moradores, muita coisa mudou no Catumbi, zona central do Rio de Janeiro. A chegada do Metrô e do Sambódromo colocou construções abaixo e mudou a feição do lugar; muitas casinhas de porta e janela, decoradas com azulejos trazendo a imagem do santo favorito, transformaram-se em oficinas ou cortiços, assim como algumas fábricas desativadas. A violência dos morros que cercam a região alteraram a rotina, mas o clima familiar permanece no dia-a-dia dos moradores. Muitos são os vizinhos dispostos a ajudar uns aos outros em momentos de dificuldade.

— Os meninos costumam bater na janela e pedir dinheiro para a merenda. Sempre que posso dou um dinheirinho para comprarem biscoito. Não ganho muito, mas como sou sozinho, dá para ajudar — conta seu Altamiro.

Ele lembra com saudade da época em que guardas vigiavam o lugar dia e noite e repreendiam os meninos que colocavam os pés para fora da janela, dos antigos carnavais, quando fazia parte da diretoria do Bloco Carnavalesco Jará, rival do Bafo da Onça, das animadas festas de São João de uma avenida (antigo nome dado às vilas de casas) na Rua Senhor de Matosinhos, paralela à Salvador de Sá, onde fica a Vila Operária, e lamenta pela violência, que encrudesceu nos últimos anos, como em toda a cidade, mas que sempre foi presente nas redondezas.

A Vila Operária era vizinha da Zona do Mangue e as histórias de malandros, navalhadas, cafetões e batedores de carteira não estavam distantes do cotidiano de quem ali morava. Seu Altamiro, 80, conta, inclusive, que algumas tias não gostavam de visitar sua família porque moravam nas proximidades do Mangue. O aposentado também se recorda que costumava parar em botequins na volta de escola para observar os malandros dividindo o dinheiro do roubo de carteiras.

— Era preciso ter cabeça para viver aqui — afirma.

A declaração não é muito diferente da que se ouve do telefonista Fábio Gonçalves Manso, 25, também criado no local.

— Gosto muito dessa casa, acho que a manteria mesmo que ganhasse na Mega-Sena. Tenho bons amigos, mas é preciso saber com quem lidar — conta o rapaz, que vive com a mãe, a manicure Geni, 51.

Seu Altamiro ficou 23 anos longe da Vila. Entre 1953 e 1976, morou no Catete com a esposa e teve dois filhos. Quando se separou, voltou a morar com a mãe, Leonor. Ele sentiu diferença na vizinhança, mas jamais pensou em deixar novamente o lugar onde cresceu e passou momentos importantes da vida. A casa de dois quartos — um deles construído pelo pai no pequeno quintal dos fundos —, sala, cozinha e banheiro, mantém a pintura com as mesmas características da original, com três tons de bege, e os móveis da época em que era jovem. O aposentado, que trabalhou no arquivo do Departamento de Obras da Prefeitura do Rio de Janeiro, de 1950 a 2001, adora observar a vida passando nas ruas pela janela de casa, caminhar calmamente até a Praia do Flamengo e freqüentar as missas da Igreja Nossa Senhora de Fátima, na Rua do Riachuelo, e Divino Espírito Santo, no Estácio.

— Meus filhos querem que eu me mude. O local está realmente precisando de obras e eles temem que tudo desabe, mas eu gosto muito daqui — explica, enquanto nos serve um copo de mate gelado.

Muitas das 120 habitações, construídas em 1906 pelo prefeito Francisco Pereira Passos, logo após a abertura das ruas Salvador de Sá e Mem de Sá, estão com infiltrações e problemas estruturais. As escadas que levam às moradias localizadas nos segundos pavimentos estão quase intransitáveis e em muitos imóveis não há mais o guarda-corpo de madeira das varandas.

— Gostaríamos de ver as casas recuperadas, mesmo que tivéssemos de financiar a reforma. Moro aqui desde que nasci, conheço todo o mundo e tenho muito carinho pela área. O clima é familiar e há muitas histórias nessas casas. O Moreira da Silva morou na Vila, em uma parte derrubada para a construção do Sambódromo — conta o simpático e falante William César Machado, 41.

Os moradores conservam as casas da maneira que podem, mas não têm recursos para reformá-las por conta própria. A Vila Operária, propriedade da Prefeitura do Rio de Janeiro, é tombada pelo patrimônio municipal desde 1985 e faz parte de uma Área de Preservação do Ambiente Cultural (APAC). Existem estudos e um plano de recuperação para os imóveis desde 2003, mas ainda não há previsão para o início das obras, como explica a Coordenadora de Projetos Especiais da Secretaria de Patrimônio Histórico-cultural, a arquiteta Cristina Lodi, 48 anos.

— Estamos buscando parcerias com outros órgãos do município para começar o processo de recuperação. A Salvador de Sá está entre as prioridades de revitalização da área — diz.

A construção do conjunto de casas cinza-chumbo faz parte de um grande e conturbado processo de transformação efetuado por Pereira Passos. Influenciado pela reurbanização de Paris realizada por George Haussmann, o prefeito derrubou centenas de casas que se espalhavam pelas ruas estreitas para abrir a elegante Avenida Central, atual Rio Branco. A obra, conhecida como “bota abaixo”, desalojou milhares de pessoas, que começaram a habitar os subúrbios do Rio. Em uma época ainda marcada pela construção de sobrados, a Vila Operária, com suas linhas retas, representavam o moderno, movimento que viria a influenciar os prédios da cidade.

É e justamente esse patrimônio que os moradores querem ver preservado. As casas guardam histórias da cidade e de cada um de seus moradores. Afinal, como separá-las? Alguns imóveis passaram por modificações internas, provocadas pela própria necessidade de conservação e de criar espaço para os filhos, mas não há quem pense em transformar o prédio externamente.

— Queria que as casas continuassem a manter o mesmo estilo — diz o vigilante William.

Ele mantém bem conservado internamente o imóvel com cômodos amplos divididos em três quartos, sala, cozinha e banheiro. Seu maior problema é a escada de madeira que o leva até sua casa, localizada no segundo pavimento do prédio. Ele está em mau estado e não se sabe quanto tempo vai resistir.

A pensionista Iracy Silva, 63, deixou o Bairro de Fátima há 29 anos para viver na Vila Operária. Viúva de um motorista do Estado, ela gostaria que os pedestres e motoristas que passam pela Salvador de Sá pudessem imaginar o que se vê além da porta que separa a rua do lugar onde vive: uma casa tratada com todo o capricho. A habitação térrea de quarto e sala ganhou uma divisória para criar mais um cômodo, que abrigou o filho até recentemente. Ele cursou marketing e agora mora com a esposa no Méier. Mas dona Iracy já arranjou uma nova função para o cômodo: servir de dormitório para os filhos da vizinha Suely Rodrigues da Silva, 41.

— Eles adoram ficar na Iracy — diz Suely.

— Os meninos têm até roupas nas gavetas — emenda a pensionista.

Suely vive com o marido César, 48, há 23 anos no local.

— Meu avô era motorista da Prefeitura e eu costumava passar longas temporadas com eles. Tenho uma ligação emocional com a casa e aqui, apesar dessas histórias de violência nas redondezas, é muito sossegado ­— diz César.

Ele vende cachorro-quente todos os dias na calçada em frente a sua porta. É com a renda da barraquinha que sustenta os três filhos: dois meninos, com 16 e 4 anos, e uma menina, de 9 anos. O espaço é apertado para cinco pessoas, mas o lugar para o computador do mais velho, que estuda na Faetec (Fundação de Apoio à Escola Técnica do Rio de Janeiro), tem lugar garantido.

A Prefeitura já tem a matéria-prima mais importante para iniciar um processo de restauração dos imóveis e de recuperação do entorno: moradores que amam e conhecem a história da região e que desejam preservar os imóveis onde vivem da maneira como foi construído. É hora do poder público fazer sua parte, recuperando a Vila Operária e criando medidas para evitar que o casario típico do Rio de Janeiro que se espalha por aquelas centenárias ruas seja degradado por oficinas mecânicas, cortiços e pequenas favelas. Pereira Passos também agradece.

*Reportagem originalmente publicada na revista Zé Pereira número 4, de fevereiro de 2008.


4 comentários para “S.O.S. Vila Operária*”

  1. Revista Zé Pereira» Arquivo do Blog » S.O.S. Vila Operária disse:

    [...] Ambiente Cultural (APAC), mas está caindo aos pedaços por causa do descaso da Prefeitura. Leia aqui a reportagem de Ana Paula Conde com fotos de Barbara [...]

  2. Hercules da luz disse:

    E uma pena que o pratrimônio público é tratado desta maneira sem contar o palacete da praça da republica. Tenho me voltado para a política se conseguir o pleito; não vou trair meu passado nem o nome de família.

  3. Revista Zé Pereira» Arquivo do Blog » JC no CV disse:

    [...] A fotógrafa Barbara Copque expõe o ensaio fotográfico “Jesus está no Comando”, que retrata um momento de fé do Comando Vermelho num presídio, durante o I Seminário Imagens e Narrativas, que acontece amanhã de 9:30h às 20h, no Centro Cultural da UERJ. Barbara fez as fotos da reportagem “S.O.S. Vila Operária”, de Ana Paula Conde, que a gente publicou aqui. [...]

  4. Fabio Tancredi disse:

    Caro Senhor,

    Em 1906 meu avô Fabio Tancredi por solicitação do governo do Estado, elaborou um projeto de Vila Operária, para construção de casas na Rua Salvador de Sá, numeros na eópca 104. 105 e 110.
    Destinava a alojar a população do centro da cidade.
    Constuia-se de 12 casas do tipo A e B.
    Gostaria se possivel informar, o que foi feito dessa Vila Operaria, pois segundo soube a mesma foi tombada e virou Patrimônio Histórico.

    Eng. Fabio Tancredi Neto

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