7 de janeiro de 2009
Sorria (ou melhor, chore): você está sobre um sambaqui
Por Tainá Miê
Os sambaquis são pequenas elevações em formato de pirâmide, onde grupos de homens pré-históricos, conhecidos por sambaquieiros faziam sua morada. Esses montes artificiais foram formados pelo acúmulo dos restos de alimentos, principalmente crustáceos, e eram encontrados aos milhares na região da cidade do Rio de Janeiro. Para falar sobre esse tema tão pouco debatido por nós, os moradores que os sucederam na ocupação desse território, recorremos à jovem História Ecológica ou Ambiental, que se iniciou a partir da década de 70, principalmente pela influência do movimento da contracultura.
Um dos aspectos desse movimento foi a busca por uma visão da relação homem-natureza que fosse além da perspectiva da dominação humana. No Brasil, apesar de não ter essa nomenclatura, há séculos se produzia uma literatura de viajantes naturalistas, pesquisas modernistas sobre cultura popular. Sérgio Buarque de Hollanda, Antônio Cândido e Gilberto Freire, entre outros, embora não tenham partido do mesmo viés epistemológico, são consideradas fontes privilegiadas para essa corrente historiográfica.
Essa nova abordagem, segundo Worster, “nasceu (…) de um objetivo moral, tendo por trás fortes compromissos políticos mas, à medida que amadureceu, transformou-se também num empreendimento acadêmico que já não tinha uma simples ou única agenda moral ou política para promover. Seu objetivo principal se tornou aprofundar o nosso entendimento de como os seres humanos foram, através dos tempos, afetados pelo seu ambiente natural e, inversamente, como eles afetaram esse ambiente e com que resultados.” Também na opinião desse autor, “o historiador ambiental tem que enfrentar o formidável desafio de examinar as idéias como agentes ecológicos”.
Bem antes dos índios
Diferentes áreas do conhecimento se mesclam nesse tipo de análise, e a pesquisa sobre as ocupações da Baía da Guanabara, na sua época pré-cabralina, utiliza trabalhos da Arqueologia, da História e da Antropologia Social. Pincelando informações sobre o debate da ocupação humana no que, hoje, é considerado Brasil e, principalmente, em seu litoral, há diferentes teses que, muitas vezes, se contradizem.
Segundo Maria Cristina Tenório, apesar das diferentes hipóteses para a chegada do homem no continente, há um certo consenso de que o paleoíndio, ou índio da primeira Idade da Pedra, é de 11.200 à 10.900 anos atrás. Segundo Maria Dulce Gaspar, entre 6.000 e 1.000 AP (Antes do Presente), grupos de caçadores, coletores e pescadores se espalhavam do Rio Grande do Sul à Bahia e do Maranhão ao Pará. Conhecidos como sambaquieiros, eles “habitavam, durante muito tempo, o mesmo local e tinham o hábito de acumular restos faunísticos. Num mesmo lugar, acumulavam conchas, moluscos, ossos de animais, especialmente peixes, mas também mamíferos, aves e répteis. Restos de caranguejos, de ouriços, sementes e coquinhos.”
São muitos os sítios arqueológicos desse tipo encontrados no Brasil, e para denominá-los os arqueólogos utilizam a palavra tupi “sambaqui”, originada da aglutinação de tamba (marisco) e ki, (amontoado). Essas elevações ou dunas de conchas são encontradas sempre perto de um golfo, restinga, rio, lagoa, enseada, mangue e, principalmente, na junção desses ecossistemas.
Geralmente, os sambaquis são encontrados em excelente estado de conservação. Apesar de seus construtores catarem mariscos, a pesca era importante atividade, o que pode ser constatado através da análise dos ossos encontrados, que os caracterizaram como canoeiros remadores. É comum também a presença de machados de pedras - popularmente conhecidos como “pedras de raio” que eram utilizados na construção de canoas - e restos de grandes peixes, tubarões brancos, golfinhos, tartarugas e arraias.
Segundo Pedro Augusto M. Ribeiro, esses paleoíndios praticavam a caça o ano inteiro, “para pescar e coletar moluscos deveriam deslocar-se para rios ou litoral marinho. As migrações sazonais para esta última região originaram os sambaquis”. Também praticavam o manejo de espécies vegetais e pequena agricultura. Em alguns casos produziam cerâmicas, em outras esculturas e inscrições rupestres. Eram grupos nômades e os sambaquis, provavelmente, foram ocupados de modo sazonal, por sucessivas gerações de sambaquieros.
Ao analisar os ocupantes do Ilhote, no Aventureiro, Ilha Grande, Maria Cristina Tenório concluiu que da ilha, situada estrategicamente entre praias, montanhas, planícies e lagoas, se vigiava inimigos e cardumes. No inverno a pesca seria nas lagoas e no mangue, de onde vinham caranguejos, além de moluscos, da zona do canal. Da restinga, roedores; da mata, macacos, porcos, cujos dentes eram utilizados para adornos e instrumentos. Coquinhos e folhas de palmeira para as palhoças e troncos de Guapuruvu (Chizolobium paraibum), madeira utilizada para confecção de canoas até os dias atuais, pelos caiçaras fluminenses.
Uma forte hipótese sustenta que esses grupos eram canoeiros e se dispersaram através da cabotagem. Tinham a intenção de defesa, por se alimentarem no alto, e eram antropófagos, pois foram encontrados esqueletos juntos com os restos alimentares.
Guanabara farta
Quanto à Baía da Guanabara, a ocupação por populações pré-cabralinas foi maciça, confirmada tanto pelo relato dos primeiros colonizadores quanto pela presença de centenas de sítios arqueológicos na região. Talvez o acúmulo de ecossistemas altamente produtivos - como as lagoas cercadas por restingas, mangues, enseadas e a própria Baía das Guanabara - oferecesse a essas populações um habitat com uma grande oferta de alimentos.
Os sambaquis foram mais encontrados na região insular da Baía de Guanabara que na parte continental. A maioria das ilhas apresenta vestígios arqueológicos de ocupação, mas com o início da colonização européia, esses sítios passaram por um profundo processo de degradação.
Os sambaquis representaram três ciclos de moradias: primeiro, as conchas, como casa do molusco, depois os amontoados nos povoamentos do sambaquieiro e, finalmente, suprindo a demanda de cal e argamassa para as construções coloniais, antes da descoberta de calcário na região da cidade.
O local onde as conchas dos sambaquis eram transformadas em cal ficou conhecido como caieira. Com tal extração, imensos sítios arqueológicos, não só na Baía da Guanabara mas em todo o país, sofreram descaracterização total. Em 1874, Guilherme Capanema se queixava que “os antigos sambaquis do Rio de Janeiro já de longa data foram consumidos pelas caieiras”.
Caieiras e lagoas
As ilhas do interior da baía, Ilha do Governador e Paquetá eram repletas de caieiras, já que o acúmulo de conchas cobria quase toda a extensão das praias. As ilhas mais próximas ao continente foram as primeiras a terem sua cobertura utilizada na fabricação da cal. Segundo Castro, “do campo de Santana e da Lagoa da Sentinela, a cidade dirigiu-se pelo aterrado ou rua das Lanternas (Senador Euzébio, através de rua e praças, formando a Cidade Nova)”. Essa lagoa formava um imenso lodaçal que ia até a Praça da República, e que a partir de 1842 sofreu uma série de aterros, inclusive a construção do Canal do Mangue, que canalizou essas águas. Aliás, havia sete grandes lagoas que ficavam na parte interior da cidade, após a barreira formada pelas restingas, que iam da Urca ao Castelo e de São Bento até o Morro da Providência.
Segundo as crônicas, neste morro havia um enorme sambaqui, razão pela qual ele é identificado nos mapas antigos como o Morro de Paulo Caiero. Tantas caieiras, indiretamente, revelam que um grande grupo sambaquieiro habitou a região por um tempo muito prolongado. No limite desse ecossistema se situava a cachoeira da Prainha, que descia do Morro da Conceição e chegava onde hoje está o Largo de São Franscisco da Prainha, outrora uma enseada de areias brancas e, ainda hoje, ponto fundamental de desembarque e embarque, onde se situa a região portuária da praça Mauá.
Cercada de rios e lagoas, manguezais, restingas e enseadas, essa região era farta em opções de subsistência. Pelo grande número de sambaquis ali encontrados, conclui-se que a ocupação pré-histórica não apenas existiu, como também foi intensa. Ao analisarmos a macro-região, encontramos o grande sambaqui da Duna Grande, em Itaipu, que apesar da péssima conservação, ainda apresenta inúmeros fragmentos de conchas, espinhas e cristais de ponta de lança. No fundo da baía, em Guapimirim, Magé e Itaboraí, importantes sambaquis estão sendo lentamente estudados.
Quanto à ocupação por populações mais recentes de índios históricos, principalmente de Tupis-Guaranis no caso da Baía da Guanabara, pode se ressaltar que, apesar de não se saber ao certo o que levou ao desaparecimento dos povos sambaquieiros, os índios históricos que os sucederam continuaram a consumir o mesmo tipo de fauna.
Entulho luxuoso
A ossatura dos dois grupos difere, sendo os sambaquieiros possuidores de feição negróide e os indígenas, de feições similares aos atuais. Horticultores e com rica tradição cerâmica, (PROENZA:84) “os Tupi e os Guarani teriam um nicho amazônico, tendo os Guarani descido o Madeira e o Guaporé, se espalhando pelo Paraguai, e os Tupinambá teriam ido até a foz do Amazonas e depois convergiram pelo litoral.”
Quando esses povos se estabeleceram na região, não construíram mais “pirâmides” de conchas, mas ainda as amontoavam, pescavam, caçavam e faziam seus enterramentos e rituais na região de suas habitações. As ilhas e lagoas continuaram a ser estratégicos alimentar e belicamente, podendo também servir de acampamentos sazonais, como a época da desova das tainhas.
Infelizmente, é escassa a bibliografia sobre o tema dos sambaquis da região da Guanabara, decorrente, não se sabe, da pouca importância dada ao tema ou da falta de incentivo aos centros de pesquisas sobre nosso próprio meio ambiente. É triste perceber a destruição de sítios arqueológicos tão fundamentais para a pesquisa do passado de seus habitantes. Há uma correlação direta entre a ausência da catalogação dos sítios e sua destruição, que continua. Na Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes, onde prossegue a marcha dos condomínios, havia, na década de 70, centenas de sítios, nenhum deles tombado pelos órgãos competentes. Morreu na praia mais essa página da nossa História…
Bibliografia:
TENÓRIO, Maria Cristina. Org. A Pré-história da Terra Brasilis. 1a ed. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2000.












7 de janeiro de 2009 às 10:35
[...] Tainá Miê nos fala sobre História Ambiental e conta como o carioca está soterrando uma parte importante da História de cidade. Leia aqui. [...]
9 de maio de 2009 às 13:17
Brilhante artigo, parabéns Tânia, vou cita-lo num projeto…obrigado
9 de maio de 2009 às 13:18
perdão, parabens Tainá!