8 de outubro de 2008
Somente as aparências enganam
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
LOKI - ARNALDO BAPTISTA
(Paulo Henrique Fontenelle, Brasil, 2008)
Por Fernando Carneiro
A cinebiografia de Arnaldo “Mutatis Mutandis” Baptista, é um trabalho extremamente bem bolado. O material, entrevistas e pesquisa de arquivos poderia cair na pieguice e hagiografia barata. Mas Fontenelle evitou essa casca de banana comum a documentários biográficos, comovendo a turba apenas com os fatos. Arnaldo, lá presente na mostra, ao contrário da platéia, não derramou uma lágrima sequer falando sobre sua vida, passado ou presente. Participa ainda como um grande mistério do planeta. Sempre sorriu. Ao vivo e na tela.
O contraponto final da “Balada do louco” demonstrou que todos somos mais “loucos” do que ele, e que ele realmente é feliz. Um erê, uma criança super-dotada. Um rapazola cujo primeiro instrumento é um baixo sem trastes (fretless). As possibilidades textuais dessa escolha é uma grande “lacanagem” com todos. Como o trabalho sacana dos Mutantes, sempre com um quê de Zappa e humor. Sobre o humor sempre temos que adjetivá-lo. O deles era um bom humor, um humor inteligente e musicalmente profundo e atemporal. A progressão de acordes da obra dos Mutantes se rende a harmonias de uma beleza indescritível. O próprio filho de John Lennon, perfilado diante de um piano e partitura, afirma que aquilo ali é mais profundo que os Beatles.
Para os que não conhecem a trajetória desse músico incomparável, ele fundou Os Mutantes com seu irmão Sérgio Dias – o maior guitarrista brasileiro vivo - e com Rita Lee. E Arnaldo era o líder nato. Tocaram com Gilberto Gil “Domingo no Parque” num dos festivais da canção acompanhados de orquestra com arranjos do não menos genial Rogério Duprat. A banda se desintegrou e com ela, Arnaldo.
Temos então a rodada obrigatória de depoimentos sobre esse grande enigma, como o assassinato de JFK, a morte de PC Farias e o sumiço do menino Carlinhos nos anos 70. Acabou por quê? Cadê Rita Lee? O que houve? Versos e versões. Dos pitacos, contamos com a ubiqüidade zeliguiana de Nelson Motta mais uma vez, dentre outros.
Comeram a Rita Lee? Ela deu pralguém? Ele comeu algo? Literalmente, o filme dá uma grande resposta, a única cabível a esse mistério: foda-se.
A banda e os santos marcham. Arnaldo cai no solo – antes e depois – literal e metaforicamente. Concebe a Patrulha, um filho (o que houve com o rapaz?) e, sozinho, Loki. Disco endeusado por todos e que só foi lançado por obra e graça de Roberto Menescal. A fofoca que não foi dita ali é que alguém com bala na agulha tava já querendo cravar a Rita e por isso o melhor seria deixar Arnaldo no estaleiro musical.
O tempo passa, Sérgio vai morar em Nova Iorque, Rita lança perfume e se consagra como popstar nacional. Arnaldo já tinha planos para construir uma nave espacial. Mas Sérgio sempre foi mais atraido por tal paixão, veste-se com macacões da NASA, e passou um tempo em Houston brincando com simuladores de foguetes lá na própria “mission control”. Mas o filme não era sobre Sérgio. Que aliás merece um também. Nada demais. Aliás o candor e delicadeza dos comentários de Sérgio valem a menção. Seria um despropósito a observação, mas foram comentários lúcidos e loki ao mesmo tempo.
Surge o movimento grunge em Seattle nos anos 90 e conseguiram material com Kurt Cobain do Nirvana tecendo loas aos Mutantes e a Arnaldo. O boato se espalha. Sean Lennon gosta do que ouve. David Byrne lança a já famosa coletânea. Faltou no documentário mencionar a banda californiana Wondermints, que na verdade gravou uma faixa chamada “Arnaldo Says…” O mito e o verbo evangelicamente tornam-se carne.
Tropicália, Barbican em Londres: chama o Arnaldo lá em Minas, atracado com Lucinha – amor encarnado em forma de gente. Quem vai cantar? Zélia Duncan, e o resto é história. Mais uma vez, Arnaldo pareceu fazer a escolha certa. Era para ser isso mesmo. Uma grande reunião, uma turnê e olhe lá. Dando grandeza e dignidade a tudo. Chega, acabou. O fim é infinito.
Enquanto o filme conta a história com rigor cronológico cartesiano, Arnaldo vai pintando uma tela à óleo com motivo naif meio cartunístico, com imagens e palavras. Ambas valem e carregam o mesmo peso. O peso da leveza e do sorriso. Todas as suas observações, mesmo após o “vôo livre” da janela do hospital, que afetou algo de sua cognitividade, não mudou em nada a alma e substância do sujeito, nem do objeto direto. Difícil dizer se o doc em questão será páreo na corrida de cavalos da mostra competitiva.
Mas Arnaldo não está nem aí. Ele não anda nada desligado. E em Londres, após ser interpelado por um admirador Mexicanamericano, diz apenas que é Arnaldo, irmão do guitarrista Sérgio. Acho que ele lá no palco, durante essa turnê de volta, continuou a demonstrar que de música, afeto, generosidade e carinho ele entende.
Agora só falta songbook e muitos tributos musicais. O cinematográfico já foi feito. Fontenelle conseguiu uma proeza. Arnaldo é o mutante que não muda. Sempre foi avant-la-musique e ainda não mudou. Somente as aparências enganam.
Um comentário para “Somente as aparências enganam”
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18 de julho de 2009 às 9:36
Foi o melhor texto que eu já li sobre o Arnaldo. Chorei como no filme, de alegria sabe? Só de sentir que ele existe.
Obrigada.