5 de maio de 2010
Sentidos, direções e posições ou Rixa de bêbado
BLOG, bolo de rolo
Por Dandara Palankof
Sempre lembro da Foxglove, em “Morte — O grande momento da vida”, dizendo que clichês só o são por serem verdadeiros. Um pequeno pedantismo nerd pra dizer que percebi esses dias que, realmente, a gente às vezes acaba não enxergando o óbvio justamente por ele estar na nossa cara. Pensei nisso quando me dei conta de que depois de tanto tempo, só agora me ocorreu falar de um dos lugares que, no fim das contas, mais frequento.
O Central é um desses bares descolados aonde você encontra de culturetes e pseudos à boêmios e artistas, passando por jornalistas, cineastas e alguns playboys. Como uma colega disse, dia desses, quando conversávamos sobre como adentrar nas panelinhas da produção audiovisual da cidade: “Passe a frequentar o Central”. Acho que é o suficiente pra você entender como a coisa funciona.
E funciona à base, claro, de um cardápio mais sofisticado, acompanhado de doses de bons uísques e cerveja long neck, como dita a etiqueta boêmia de classe. Tudo pra combinar com a jukebox soa anos 1940 e as belas e gigantescas fotografias do Recife adornando as paredes. Um lugar bacana, até, o Central.
E eu geralmente só entro lá pra usar o banheiro.
Não, é realmente um lugar muito interessante, e a bem da verdade faz parte da minha história recifense desde a primeira semana, ma eu sou só uma pobre redatora. Eu geralmente levo em consideração a relação de custo benefício que vai me levar a beber mais, pagando menos. Assim como a maior parte das pessoas que freqüenta a Rua Mamede Simões, no fim das contas.
De um lado da rua, há o Central; do outro, uma série de outros botecos aonde a cerveja é mais barata e, lógico, os bares são muito mais ordinários. O contraste entre eles, e a mistura de seus públicos nos dias de maior movimento, é sempre algo interessante de se ver. Do meu ângulo, geralmente uma das cadeiras de plástico amarelo colocadas na rua mesmo (algo que as autoridades competentes até tentaram impedir, mas foi em vão), formando várias fileiras de uma ponta a outra, de bar em bar.
E num chiste também óbvio, o bar de maior preferência desse complexo alternativo acabou se tornando conhecido como “Frontal”; os subseqüentes, acabam por serem englobados num só, o “Lateral”. E por aí vai. Mas basta dizer que vai ao “Frontal”, e quem quiser lhe achar saberá que a rua inteira tá valendo (já quem diz que vai ao Central, geralmente vai ao próprio, mesmo).
Eu meio que aprendi a beber feito gente em um lugar relativamente parecido, em Brasília. O Café Martinica era um desses adoráveis bares com essa mesma atmosfera, o ar blasé meticulosamente construído meticulosamente; com o adendo de que, além de artistas, também dava muito desse tipo que Brasília (ainda) tem em certa profusão: o alto funcionário público intelectualizado. Só não tinha boteco vagabundo pra ralé compartilhar o ar. Mas acho que por puro acaso; o mesmo fenômeno Central-“Frontal” já ocorre em outros lugares por lá, como a quadra CLN 408 (mas o Martinica e o Carpe Diem foram os precursores). A diferença é que eu nunca havia arrumado um nêmesis por lá.
Eu costumava me sentar no bar identificado como o “Frontal”. É o único do outro lado da rua que aceita cartão, tem uns petiscos razoáveis e uma música idem. Mas a sucessão de erros do dono (cujo nome nunca me recordo) na hora de fechar a conta — sempre contando umas cervejas a mais e a extorsão dos 10% — porque ele ignora completamente a lei que desobriga o pagamento da taxa e incita seus garçons (tão vítimas quanto nós) a praticamente nos intimidar para que o pagamento seja feito, foram me deixando cada vez mais indignada com o indivíduo. A gota d’água foi o dia em que, desavisadamente, algumas amigas pediram refrigerantes e descobriram que o cara cobrava R$ 3,50 a lata. Ele realmente deve estar se achando um anexo do Central e esqueceu que é só um boteco. Fechei questão de que lá, eu não sentava mais.
Neste exato momento, o boicote se tornou recíproco. Tudo culpa do Zé José, aliás: em sua última passagem pelo Recife, marcamos de nos encontrar e, quando vejo, lá está o cara sentado no boteco-non-grato, que eu vinha com sucesso evitando há semanas. Abro a exceção. Apenas pra me irritar com as três cervejas descaradamente cobradas a mais (visto que as garrafas estavam ao nosso lado e poderiam ser facilmente contadas), a manutenção do valor anterior dos 10%, ainda que a conta tivesse diminuído e o cálculo precisasse ser refeito, e a postura sonsa do garçom em se referir ao valor total da conta sempre com a taxa, fazendo ouvidos mocos às nossas observações de que aquilo só seria pago se quiséssemos. “Aí você resolve com ele”, finalmente disse. E resolvemos. Depois de muito esbravejar, o Dono cede à razão e conclui com um “Não atendo mais vocês”. Era o conflito declarado por ambas as partes.
Infelizmente, alguns comparsas meus são reféns deste homem avarento, por ele ser o único a aceitar cartões. Imploro aos “Laterais” que modernizem seus caixas, para que possamos nos livrar totalmente do jugo desse Tio Patinhas da boemia.
Ah, nos Laterais eu sempre pago 10%. Sem imposição e com simpatia, dá até gosto.
Dandara Palankof nasceu em Recife, mas cresceu em Brasília, onde ninguém nunca deu escândalo quando os 10% não eram pagos; de volta à cidade-natal, percebe que intimidação é mesmo uma constante por lá.
4 comentários para “Sentidos, direções e posições ou Rixa de bêbado”
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5 de maio de 2010 às 18:05
O Tio Patinhas da boemia se chama Sílvio.
7 de maio de 2010 às 8:25
Martinica!!
Queijo e vinhos!!!
Filosofia de boteco até o sol nascer com a tia Palankof (a sênior) e tio Jacopeti!!
Saudades…
Ti Amuuuu
7 de maio de 2010 às 22:09
Aprenda com seu Silvio a não tratar seus clientes. É uma verdadeira escola aquele homem.
11 de maio de 2010 às 4:21
O Tio Patinhas da boemia se chama Santos, Silvio Santos.