10 de março de 2009
Sem as calças mundo afora
Por Ângela Silk
Estava um dia quente e eu saí para passear, como costumo fazer nos domingos de calor. Embora não fosse domingo, a rua sugeria a mesma preguiça avermelhada, começava áspera e real, logo abaixo dos pés, e estendia-se como um lagarto molenga, liquefazendo-se até o horizonte, que de tão indolente, mal se deixava espiar. As pessoas acocoradas sob as sombras dos cartazes se distraíam fazendo refletir no asfalto seus relógios solares estúpido-magnéticos e os mais perniciosos direcionavam o feixe de luz para o Desfile dos Generais, os mesmos velhos velhos Generais, espremendo os olhos para fugir à opressão luminosa.
Na cadência do traslado, que consistia em atravessar a rua uma dezena de vezes para a margem dos Operários e outra dezena para a margem dos Marmiteiros, os Generais repetiam em coro: “Onde estão nossas calças? Onde diabos estão?”.
Do lado dos Marmiteiros, a lucidez de um aleijado constrangeu a todos: “Bonachão! Bochechudo! Quem lhes levou as tuas, que me levem as minhas também!”. O sol de imediato se refrescou e eu saí da sombra da estátua do Terceiro Cão de Augusto, o Lépido, e corri a acudir o Sem-as-Pernas. Suspendendo-o pelos dois bolsos, rasquei-lhe as calças puídas com apenas um puxão. Uma pequena multidão se formava e perguntei-lhes, sem perscrutar nenhum com os olhos, se tinham fósforos sob os chapéus. Responderam dois Marmiteiros e um Operário, por alcunha o Sortudo, “Sim, temos fósforos” e riscaram os palitos com gestos escancarados, desde o chapéu até o comprimento do braço e paque!, atearam fogo aos trapos do cadeirante.
Sem as calças, o homem tentou sorrir, mas um cacoete de piscar alternadamente os olhos dificultava o gesto e comovia a todos, especialmente a Albina, uma Marmiteira entendida e astuta, que nos explicou o verdadeiro motivo do sestro. O aleijado era mesmo um homem muito banguela e disfarçava a vontade de sorrir com a mania de piscar. Enternecida, ofereci-lhe dois dentes, justo os superiores da frente, para que o aleijado pudesse sorrir como um homem inteiro. Dois Jovens Operários ergueram o mendigo, ajeitaram-no nas costelas e desceram a rua feito camaleões, a pele mudando de cor sob o reflexo dos cartazes.
Um General desertou naquele instante e vestiu suas calças, revoltado com a turba na avenida, enquanto nós outros pisoteávamos a cadeira de paus e arame, onde morava o deficiente. Não houve tempo para reflexões, que o bafo quente do asfalto nos subiu a golpear o cangote e as têmporas voltaram a lacrimejar sob as ofensas do sol. Os Generais alisaram-se nos cotovelos, o que significava que estavam prontos para recomeçar o séqüito, e num átimo puseram-se novamente a perambular sem as calças desde a calçada dos Marmiteiros até a calçada dos Operários e o inverso.
Voltei com os demais à sombra, espiar mais um domingo de calor, ainda que não fosse domingo…
9 comentários para “Sem as calças mundo afora”
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11 de março de 2009 às 10:02
Impressionou-me a habilidade descritiva dessa saga surreal, um dia tão incomum que nem parece um domingo.
Angela… agora tenho sede de tuas palavras.
12 de março de 2009 às 21:14
camaleões reflexos de cartazes
O aleijado era mesmo um homem muito banguela e disfarçava a vontade de sorrir com a mania de pisca
ofereceu-lhe os dentes para que sorriso de homem inteiro nascesse no mendigo
há tempos que eu não lia parágrafos assim tão inspirados.
um pouco cortázar, jodorowsky…
o que achas?
12 de março de 2009 às 21:20
vou passar anos sonhando com isso hoje a noite
13 de março de 2009 às 9:22
angela silk, surrealista carnavalesca… muito bom! valeu!
18 de março de 2009 às 21:10
angela, apareça todos os domingos para acabar com a nossa monotonia! apareça para contar histórias, mesmo que não seja domingo…
21 de março de 2009 às 23:13
relógios solares estúpido-magnéticos faz uma analogia perfeita com o monte de produtos/entulho que nos empurram. ao menos os operários encontraram uma boa utilização para eles, cegar os generais haha
25 de março de 2009 às 8:38
triste e bela a imagem do aleijado como ícone da contracultura… os que tem menos a perder são geralmente os primeiros (muitas vezes os únicos) a arriscar
19 de abril de 2009 às 11:58
Garcia Márquez? Orwell? Bacon (o pintor! o pintor!)? Ou delírio silkiano? Humm… “Delirar silkianamente”. Litera-atitude. Mais delírios silkianos! Queremos mais delírios silkianos!
27 de abril de 2009 às 13:46
belíssimas imagens! uma crítica enfeitada com poesia, ou devaneios aos quais podemos trocar arbitrariamente o pano de fundo? foi um prazer te ler por aqui, continue postando!