20 de novembro de 2008
Seleção brasileira
BLOG, Cinema, Festival de Brasília 2008
Por Eduardo Souza Lima
A seleção brasileira pode não causar mais a comoção de outrora – se bem que depois de ontem, sei não – mas a sua passagem pelo Distrito Federal certamente desfalcou o público do Festival de Brasília. Porém, se a casa não estava cheia, Armando Praça, Luís Alberto Melo e Sergio Roizenblit, diretores, respectivamente, dos curtas “A mulher biônica” e “Que cavação é essa?” e do longa “O milagre da Santa Luzia”, não tiveram do que reclamar, já que a platéia estava bastante receptiva. E quem perdeu o jogo também não, já que são três filmes bem brasileiros. O primeiro foi o menos bem recebido, talvez porque exigisse do público um tipo de conhecimento prévio. Quem conhece o Ceará ou é de lá com certeza o apreciou melhor. O diretor retrata muito bem uma certa Fortaleza e um tipo de mulher de lá, que abdica da própria vida para cuidar o alheio - uma espécie de versão feminina do escroto cearense -, embora adapte um conto do gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996). E ele acerta porque leva muito de sua vivência à tela. Uma historinha que ele contou no debate de hoje de manhã ilustra bem como: “Eu tenho um teclado de brinquedo que ganhei quando era criança que vinha com uma musiquinha gravada. Eu adoro essa música e sempre quis usá-la num filme. Consegui fazer isso neste curta”.
O segundo curta da noite, “Que cavação é essa?”, ganhou a platéia logo de cara, até porque o seu tema é caro a quem gosta de cinema: a preservação e a restauração de filmes. O curta trata do tema com irreverência reverente, fazendo uso da metalinguagem, bem a cara do cinema carioca formado na UFF e na Cinemateca do MAM, de filmes como “Acossada”, das Karen Akerman e Black e “Tira os óculos e recolhe o homem”, de André Sampaio. Cinema de cavação (em gíria do início do século passado, “de picaretagem”) seria o cinema institucional de hoje - dos institucionais de empresas a filmagem de casamento. O filme reconstitiu ficcionalmente um documentário dos anos 1910 e um cinejornal do anos 70, usando como atores figuras legendárias do underground do cinema carioca. Às vezes é difícil saber se o que está na tela é ficção ou documental. A participação do diretor de conservação da cinemateca do MAM Hernani Heffner, a quem o filme é dedicado, foi a que causou maior confusão: “O Armando Praça achou que era uma cena de arquivo, o que é um erro histórico, porque nos anos 70 o Hernani tinha um cabelão de metaleiro até a cintura. Mas tudo o que a gente fez foi pedir para ele deixar crescer o bigode e o vestimos com roupas de época. E o texto de sua fala saiu da transcrição literal de uma entrevista que fiz com ele em 1999″, contou depois o diretor Luís Alberto Melo que, no vídeo acima, apresenta o seu “Que cavação é essa?” no palco do Cine Brasília, com a atriz do filme Anna Karinne Ballalai.
“O milagre de Santa Luzia” se refere à data de nascimento de Luiz Gonzaga e o filme de Sergio Roizenblit propõe ao espectador uma viagem ao Brasil que toca sanfona. O público do Cine Brasília embarcou numa boa: não foram poucos os aplausos em cena aberta. É um documentário convencional, mas com toque autoral - Roizenblit assina também a direção de fotografia, o roteiro e a montagem. O filme abre com uma seqüência magistral de Dominguinhos, seu guia, tocando numa estrada. ”O milagre de Santa Luzia” é afetuoso e tem belas imagens - que, até pelo cenário, remetem ao “Aboio” de Marília Rocha, em seu uso de texturas e grafismos -, só que às vezes elas parecem ter encantado por demais o diretor. Há umas ótimas sacações de montagem, mas o ritmo vacila - muita gente achou cansativa a seqüência no Rio Grande do Sul. Em certas passagens dá a impressão também de que faltaram imagens de cobertura, embora o diretor tenha contado que em algumas cenas foram registradas por até três câmeras diferentes. O próprio Dominguinhos não aparece em alguns momentos. Esta ausência, o diretor explicou mais tarde: “O Dominguinhos é a pessoa mais desprendida e sem vaidade que já conheci. Para ele, estar num filme, ser homenageado, não significa nada. Ele vive para a família e o trabalho e só viaja pelo Brasil de carro, pois tem medo de avião. Ele deixou que a gente filmasse desde que nos aproveitássemos de sua agenda. A gente filmava onde ele ia dar show”. No vídeo abaixo, Roizenblit apresenta seu filme no Cine Brasília.
Hoje tem os curtas “Nº 27″ (PE), de Marcello Lordello, e “Cidade vazia” (DF), de Cássio Pereira dos Santos, e o longa “Filmefobia” (SP), de Kiko Goifman. Não deixem de ler também as coberturas do festival do Blog do Zanin e a do André Miranda, no Blog do Bonequinho.












20 de novembro de 2008 às 17:52
a mostra competitiva em 35mm abriu com um soco no estomago de aramndo praça, o filme a mulher bionica. achei o comentário e a análise feita no texto postado na revista simplória. um dos méritos do filme é exatamente ser universal utilizando uma linguagem tão cotidiana daquelas cearenses. a excelente atuação das atrizes, sobretudo de ceronha pontes, não pode deixar de ser ressaltada.
30 de novembro de 2008 às 16:53
O curta “Que cavaçãoé essa?” é muito interesante, alegre, reflete a alma do cinema carioca; bem feito e retrata a dificuldade na preservação e restauração de filmes.Parabéns para EStevão Garcia, Luiz e parabéns para nós brasileiros, que vemos e sentimos que jovens cineastas acreditam no ciema brasileiro…e no Brasil, por isso se empenham, com garra.
26 de junho de 2009 às 10:48
[...] Rua Sorocaba, 190, Botafogo), em sessão em parceria com a Cinemateca do MAM, completada pelo curta “Que cavação é essa?”, de Estevão Garcia e Luís Rocha Melo. Depois da sessão, o curador Dario Gularte e a pesquisadora [...]