24 de julho de 2009
Segundas
BLOG, grossericatessen
Por João Moraes
No tempo de faculdade no Rio, durante um breve período, saíamos toda segunda, eu, o nobre editor dessa revista, Zé José, e um outro amigo, o Dario Renato, um emérito cachaceiro e grande motorista levador de amigos aos butecos e cachaçadas, mesmo que sem nenhuma garantia de ser também um bom trazedor. Muitas e muitas vezes, sumia na poeira da noite e nos deixava vagando pelos ermos orvalhados e vomitados da madrugada carioca, onde nenhum gato é pardo.
Em verdade, essas saídas segundeiras eram expedições em busca dos bares mais casca grossa e freqüentadores de bom estômago e índoles festivas. Quanto menos conhecêssemos os bairros, melhor eram as chances dele ser escolhido para uma visita dessas três almas desfocadas.
A gente entrava nas espeluncas e ia direto ao chefe, em geral sujeito sebento e falastrão que, em geral, bebia junto com a clientela e, em geral, fedia. Boa gente e cozinheiro de mão cheia. Cheia de cicatrizes e nódoas. Ao lado de tal figura havia sempre uma estufa onde exibia suas criações infernais saídas de um fogão apenas menos sujo que as panelas por sobre ele. A cor da utilidade do lar nunca era definida, mas lembro bem o gotejamento do óleo grosso pelas beiradas, o bujão cheio de teias de aranha e um generoso naco de sabão em barra vedando a válvula do gás.
De todos esses bares o melhor, em minhas lembranças, foi um na região portuária mais antiga. Para entrar era preciso ultrapassar uma tábua atravessada ao pé da porta. Não entendi aquilo, mas pensei ser por conta de alagamento em caso de grandes chuvas. A tábua, no caso, serviria para impedir a entrada de água e lama.
Pois entramos na birosca e, para nosso encantamento, na estufa ao lado do chefe sebento boiava óleo furta-cor uma fritada de amarelo claro com ares de decana entre os acepipes outros. Ah, nunca a escolha foi tão fácil e unânime. Pedimos a fritada e o chefe respondeu ser uma boa escolha, pois era fritada de bacalhau. Quer dizer, não era bacalhau, mas ele havia desenvolvido uma alquimia infalível de merluza com sardinha, contou o ébrio executivo da noite.
- Não dá pra diferenciar, cê come e acha que bacalhau mermo. Prova aí.
Pois era mesmo uma maravilhosa mistura de seres aquáticos que lembrava perfeitamente o gosto de bacalhau. Vísceras de bacalhau. Vísceras de bacalhau boiando em óleo furta-cor. Lógico, empurramos o manjar com duas doses rápidas de Caninha da Roça. Mas o cheiro de mar que soprava morno da Baía de Guanabara, a maçaroca híbrida de sardinha e merluza entre os dentes e as largas gotas de óleo caídas no côo da camisa me fizeram lembrar o universo das águas.
Uma discussão mais acalorada desenrolava, na ponta do balcão, a iminência de contundente pancadaria. Um sujeito berrava sobre duvidar que o outro duvidaria de sua palavra e o outro respondia afirmando que se assim fosse o primeiro já estaria estirado no chão do bar.
- Vou te pagar o isqueiro.
- Se num pagar te enfio ele aceso no cu.
Uma mulher de calção de malha e camiseta regata sem sutiã e muxibas fugitivas, com a metade dos dentes banidos da boca caída e os olhos amarelos emoldurados em hematomas bradava, orgulhosa:
- Sou feia, mas sou gostosa.
Enfiava a mão entre as pernas e gritava
- Se eu fosse homem comia isso aqui todo dia, seu corno filho da puta.
Percebendo o ambiente em tormenta e ressaca, resolvemos zarpar antes que desabasse a tempestade. Uma ultima dose de Caninha da Roça e, mesmo muito apressados, perguntei ao chefe o porquê daquela tábua na entrada.
- É porque quando rola o porradeiro aqui, neguinho sai correndo sem pagar a conta. Com a tauba lá, o pessoal estabaca e dá tempo de cobrar.
Pagamos sem esperar troco e singramos porta afora, por sobre a tábua, rumo a outras abordagens em portos menos bélicos.
Chamávamos essas saídas de Segunda Sem Lei.
3 comentários para “Segundas”
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24 de julho de 2009 às 19:06
Grande Jou!
Boteco-navio pirata com prancha vira um clássico nas suas palavradas. Saudades do amigo.
25 de julho de 2009 às 14:46
…prancha melhor do que qualquer alarme eletrônico. Coisa de “engenheiro” que conhece bebum. Mais um texto muito legal, João! Um abraço.
29 de julho de 2009 às 11:39
Engraçado é que não sabia que lembrava de tantas passagens libatórias. Nessa sexta tem mais cachaçada. Acho que vou continuar com isso por muito tempo.