9 de outubro de 2008
Rostos por trás dos números
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
Por Eduardo Souza Lima
As últimas palavras de “Esse homem vai morrer – Um faroeste caboclo” são “a Irmã Dorothy vai morrer”, ditas pela atriz Dira Paes. Mesmo que ditas depois do assassinato da religiosa, têm tom profético. “A gente tinha material filmado dela, era bastante impressionante, mas decidimos não usar quando ouvi dizer que estavam rodado o ‘Mataram a Irmã Dorothy’ e porque achei que tínhamos personagens tão importantes quanto ela e não tão conhecidos. Embora o filme tenha sido feito depois de sua morte, antes mesmo de filmar a gente sabia que isso ia acontecer”, disse o diretor Emilio Gallo (à esquerda), no Cine Encontro ontem, no Galpão da Ação da Cidadania. “Esse homem vai morrer” narra fatos acontecidos nos anos 80 e 90 em Rio Maria, quando circulava pela cidade uma lista de 14 pessoas que tiveram suas mortes encomendadas a pistoleiros. De 1992 para cá, não houve mais assassinato de liderança camponesa e sindical em Rio Maria, mas sua história é muito parecida com a de outras cidades do sul do Pará.
O documentário é centrado na figura do padre Ricardo Rezende (à direita), que estava com a cabeça a prêmio e foi obrigado a fugir para o Rio. Ele também participou do debate: “A reforma agrária saiu de moda. Hoje, até setores e intelectuais de esquerda dizem que ela não é mais necessária, que a nossa produção agrícola é suficiente, que não existe latifúndio improdutivo e que a população do campo é pequena. Só que a questão agrária não é só econômica, mas humana. Quando se trabalha com números a gente esquece que por trás deles há um rosto. E o filme dá rosto a essas pessoas. A morte de João Canuto foi decidida numa reunião com os prefeitos de Xinguara, de Conceição do Araguaia e de Rio Maria e empresários locais, regada a uísque. De um lado, há um grupo armado, que muitas vezes tem a polícia do seu lado. Do outro, aqueles que lutam pela vida”.
O fato de não haver mais assassinatos por encomenda em Rio Maria é uma mostra de que ainda é possível se fazer algo. É um sinal de esperança deixado pelo filme.
Você pode assistir aos debates do Cine Encontro aqui, ou no portal Puc-Rio Digital.
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