31 de março de 2009
Que filme brasileiro, eu quero é ver o Costa-Gavras!
BLOG, Cine PE 2009, Cinema
Confirmação da presença do cineasta franco-grego rouba a cena no anúncio da programação oficial do 13º Cine PE - Festival do Audiovisual
Texto: Dandara Palankof
Foto: Rose Lima
Ligue a TV, abra o jornal e eu lhe dou meu braço direito se não se falar, por um momento que seja, na tal CRISE. E a área de cultura, tão carente do dinheiro alheio, é quem mais a sente. A Petrobras, grande mãe de todos nós, por exemplo, reduziu drasticamente seus investimentos no setor este ano. E o Recife, logo neste mês que está por vir, tem dois filhos altamente dependente dos lucros do nosso (?) petróleo: o Abril Pro Rock e o Cine PE. O primeiro, no meio do mês, perdeu o patrocínio. O segundo, que acontece de 27 de abril e 3 de março, ainda tem o nome da estatal em seu material de divulgação, mas o futuro a Deus pertence:
- Olha como tem muito menos logos nos banners deste ano - comentou Alfredo Bertini, um dos diretores do festival.
Foi assim que teve início ontem à tarde, a coletiva de imprensa que apresentou a programação oficial do maior festival audiovisual do Nordeste.
- Outros festivais, como o de Tiradentes e o É Tudo Verdade, também já sofreram estes efeitos. Nós mesmos ainda estamos no processo de fechar outros dois patrocínios - continuou Alfredo, que diz que a produção audiovisual brasileira ainda aproveita as “gorduras” do fim do ano passado; no segundo semestre sim, é que haverá um verdadeiro declínio.
Após (mais) esta previsão sombria, ele e a também diretora Sandra Bertini mostraram o que realmente aguarda os cinéfilos de plantão no Cine PE 2009 - recomenda-se tirar o som do computador ao clicar aí, depois não venham dizer que a gente não avisou. Além, é claro, da menina-dos-olhos deste ano: a presença do consagrado cineasta Costa-Gavras - se você não sabe quem é, ajoelhe no milho e clique aqui.
Os longas-metragens do festival
Ao longo dos três últimos meses, os curadores escolheram, entre 566 inscritos (cerca de cem a mais do que para o festival do ano passado, segundo os Bertini), os 74 filmes que compõem as mostras competitivas de longas e curtas-metragem deste ano. Ausentes desta etapa no ano passado, os Bertini desta vez estiveram a frente da escolha dos filmes a serem exibidos, junto a outro curador, o jornalista baiano João Sampaio.
- Há, para nós, um nivelamento entre os concorrentes deste ano - garantiu Sandra.
Com os curtas-metragens já divulgados há cerca de dez dias, ficam aqui os nomes dos longas: “Mistéryos” (PR), de Pedro Merege e Beto Carminatti; “Um homem de moral” (SP), de Ricardo Dias; “Praça Saens Peña” (RJ), de Vinícius Reis; “Alô, Alô, Terezinha” (RJ), de Nelson Hoineff; e “Estranhos” (BA), de Paulo Alcântara. A programação completa do evento você confere aqui, tomando aquele cuidadinho básico.
O grande número de inscritos, segundo eles, reflete a popularização das tecnologias digitais, mas com um revés: a baixa qualidade técnica de vários deles. Para os produtores, é hora de repensar o modo como é feita a produção audiovisual, ainda mais em tempos de (lá-ela!) CRISE. Mas trabalho bem-feito é trabalho bem-feito e, além dos tradicionais produtos digitais da mostra de curtas, dois longas se valem dos novos meios: “Mistéryos” e “Estranhos”. (continua aqui)
Pode-se destacar outra peculiaridade quanto aos filmes enviados à produção: os documentários são superiores em número.
- É muito mais barato fazer um documentário do que um filme de ficção - ressalta Alfredo, - e do jeito que as coisas vão indo, a tendência é que mais documentários sejam feitos em detrimento dos ficcionais, cuja qualidade, aliás, vem decaído. Estamos em período de entressafra, isso acontece. A seleção do Cine PE do ano passado foi muito criticada, mas os reflexos desta entressafra foram sentidos em festivais posteriores, como Gramado e Brasília.
Tal fato salta aos olhos na mostra de longas-metragem: dois dos cinco filmes são documentários; e segundo Alfredo, a proporção por pouco não pende a favor dos filmes de não-ficção.
- Outros festivais terão a mesma dificuldade - ressalta.
Mas, questionados se houve a vontade de selecionar apenas documentários, ou ainda criar uma mostra paralela para eles, ambos os realizadores negaram qualquer possibilidade de que isso aconteça:
- Não podemos virar o É Tudo Verdade 2 - brincou Sandra.
Quanto aos ours concours: “Eden à l’Ouest” (foto acima), do reverenciado cineasta franco-grego, grande sensação do festival este ano, Costa-Gavras - cuja presença e toda a febre (?) que ela acarreta detalharemos logo mais na seqüência -, encerra a primeira noite do Cine PE. Já “O homem que engarrafava nuvens” será exibido no último dia, antes da solenidade de premiação. O documentário é dirigido por Lírio Ferreira, um dos nomes mais reconhecidos da cena cinematográfica pernambucana, e conta a história de Humberto Teixeira, músico que compôs, entre outras, “Asa Branca” (veja aí a importância do filme: você, leitor, juraria que havia sido só o Gonzagão, hã?).
Se você achou que falamos pouco da CRISE, Alfredo ainda afirmou que muitos filmes em fase de finalização convidados a estrear no festival simplesmente estão parados por falta de dinheiro para ir ao laboratório (A Petrobrás só tem dinheiro para acionista major). Muitos deles, 15 ou 16 segundo o produtor, não têm nem mesmo previsão de serem, enfim, terminados.
As mostras paralelas
Numa espécie de aquecimento para o evento principal, nos dias 25 e 26 acontece a Mostra Pernambuco de Curtas-Metragens. Os filmes serão exibidos na Fundação Joaquim Nabuco (onde mais, não é mesmo, recifenses?) por opção dos próprios realizadores das películas (ou DVDs; ou Blu-Rays). Tramita ainda na Assembléia Legislativa de Pernambuco a possibilidade de premiar os dois primeiros colocados desta mostra com, respectivamente R$ 5 mil e R$ 2 mil. Mas há a tal CRISE, não é? Irão querer os pobres vereadores repassar nosso dinheiro à arte em vez de para suas contas em paraísos fiscais? Aguardem o próximo capítulo.
O mesmo acontece com a Mostra Pernambuco de Longas-Metragens, cujos filmes encerram as exibições nas terceira, quarta e quinta noites do festival: o prêmio de R$ 10 mil que poderia aliviar as dívidas nas quais com certeza se meteram os realizadores de “Pela vida, pelo tempo”, de Wilson Freire; “Geração 65: Aquela coisa toda”, de Luci Alcântara; e “KFZ 1348”, de Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso, pode acabar também não sendo liberado.
Sendo a formação de platéia um dos pontos mais lembrados em discussões sobre o futuro do cinema no Brasil, nos dias 28 e 29 acontece o Festivalzinho, voltado para alunos da rede pública de ensino. Os filmes exibidos serão “O cavalinho azul”, de Eduardo Escorel, e “Quando o céu era azul”, de Alexandre Estevanato, respectivamente.
De 1º a 3 de maio teremos a mostra especial em homenagem ao grande convidado Costa-Gavras. Mas a gente fala disso logo ali, calma.
Por fim, dá-se em 2 de maio a primeira etapa do Cel.U.Cine – Festival de Micrometragens. A mostra abre a última noite do festival, exibindo cinco filmes de até três minutos feitos em celular, câmeras fotográficas digitais e afins. Promovida pela operadora de telefonia Oi (aquela das crianças bonitinhas e serviço ruim), o Cel.U.Cine acontecerá ainda em vários outros festivais do país e os vencedores em cada uma delas serão exibidos em mostra competitiva final no Festival do Rio, em setembro. Se você acha que tem idéias bonitas na sua cabecinha + um celular bacana, as inscrições terminam no dia 17 de abril.
Seminários e oficinas
Sediadas pela manhã, no Recife Palace Hotel, ocorrerão quatro seminários, entre o dia 28 de abril e o dia 1º de maio: Desenvolvimento Audiovisual – Os Caminhos da Co-produção Internacional, com moderação de Sílvio Da-Rin, secretário do Audiovisual do MinC); Economia da Cultura – A Importância dos Fundamentos Socioeconômicos na Elaboração das Políticas Públicas de Cultura (exigida pelo patrocinador BNDES em tempos de QUÊ?), moderada por João Sayad, economista e secretário da Cultura do estado de São Paulo; Plataformas Digitais – Pesquisas e Conteúdos Tecnológicos para o Empreendedorismo Audiovisual, com o cineasta carioca Marco Altberg; e Cinema e Literatura – As Experiências e Perspectivas de Roteiros Adaptados em Produções Audiovisuais Vencedoras), mediada pelo jornalista carioca (ah, esses cariocas…) Artur Xexéo. Alfredo diz ter percorrido várias instituições de ensino superior ressaltando esta programação, pois o público-alvo destes seminários são justamente os estudantes universitários, e não apenas os de comunicação.
- O seminário sobre cinema e literatura, por exemplo, pode ser muito proveitoso para estudantes de Letras - ilustra.
As oficinas profissionalizantes também são abertas ao público em geral. Contanto que ele possa pagar R$ 100. São elas: Preparação de Elenco, com Sergio Penna (de “Chega de saudade” e “Carandiru”, é o preparador de atores paulista preferido de, entre outros, Rodrigo Santoro); Cenografia e Direção de Arte, com Carlos Arthur Liuzzi (fotógrafo, cenógrafo e diretor de cena carioca, participou de “Matou a família e foi ao cinema”); e Assistência de Câmera, com Pablo Baião (assistente de câmera carioca em filmes como “Diários de motocicleta” e “Abril despedaçado”). As aulas serão ministradas de 27 de abril a 1º de maio, também na Fundação Joaquim Nabuco, das 14h às 18h. Mora em Recife e tem a grana? Inscreva-se aqui, mas antes abaixe o volume do computador.
E, finalmente, Costa-Gavras!
As negociações para trazer o maior convidado do Cine PE deste ano começaram em janeiro, mas a confirmação acabou chegando a Alfredo Bertini por um jornalista d’“O Globo” (ah, esses cariocas…) que telefonou-lhe para saber da vinda do cineasta: sua fonte (sei…) tinha certeza de que o convite havia sido aceito. Segundo o produtor, o desencontro foi causado por uma traquinagem de certos servidores de e-mail. Mas Costa-Gavras não apenas aceitou o convite de bom grado como, segundo Sandra, partiu do próprio a idéia de lançar seu filme mais recente, “Eden à l’Ouest”, no festival.
Além da presença na noite de Abertura do Cine PE, também é esperado que o diretor compareça ao primeiro dia da Mostra Especial Costa-Gavras, que acontecerá também na Fundação Joaquim Nabuco, entre os dias 1º e 3 de maio (viu?! Tá dado o serviço!). A mostra tem início com o clássico “Z”, que completa 40 anos de sua realização e cuja exibição contou mais uma vez com a boa vontade dos Gavras.
- A única cópia no Brasil não tem condições de exibição, e não há cópia em Portugal - contou Sandra. - Michelle (Costa-Gavras, esposa do diretor) se ofereceu para trazer consigo, literalmente embaixo do braço, uma cópia do acervo pessoal deles.
Sem precisar de tanto esforço, os outros filmes da mostra são “O corte”, cujo lançamento motivou a última visita de Costa ao Brasil, em 2005, para o Festival do Rio (de novo, hein! Eu sempre digo que esses cariocas…); e “Amém”. Perguntados sobre a disposição de Costa em realizar um debate após a exibição de “Z”, Alfredo afirmou que dependerá da disposição do cineasta.
- Há de se convir que ele é quase um octogenário, e que um de seus objetivos ao vir para o Brasil é também descansar. Vai depender do clima da sala, no dia -, ao que um dos jornalistas presentes replicou:
- Vai estar um inferno!
A vinda de Costa-Gavras tem alvoroçado a mídia: veículos de alcance nacional têm-se credenciado, em sua maioria, apenas para os dois primeiros dias do festival principal, quando é certeza sua presença. Sua única coletiva de imprensa está marcada para o dia 28 e, apesar do assédio que Alfredo vem sofrendo, para cumprir a exigência de férias de Costa, esta é a única oportunidade para os jornalistas fazerem contato com ele.
Quer dizer, isso se você não for um assinante pernambucano da “Folha de S. Paulo” ou conseguir que eles lhe dêem uma credencial: pela primeira vez o jornal fará uma de suas famosas (?) sabatinas fora da capital paulista. A data ainda não está definida, mas o evento acontecerá no dia 29 ou 30. Ainda não foram anunciados os convidados que irão sabatinar Costa.
Todo o resto foi negado. “Veja”, “IstoÉ” e “Época” tentaram, em vão, entrevistas exclusivas (a “Veja”, inclusive, para suas ilustres (?) páginas amarelas; aliás, sendo assim, poderíamos esperar Isabela Boscov na sabatina da “Folha”?). O interesse da imprensa de extrema-direita talvez se explique pelo fato de Costa, O cineasta político e de esquerda, tenha dado o Urso de Ouro do Festival de Berlim do ano passado a “Tropa de elite”, filme considerado fascista por alguns. E pasmem: a REDE GLOBO queria levar Costa para o Rio. Para passear pelo Projac! PARA PALESTRAR AOS SEUS AUTORES! Para comer no bandejão com a turma! Pode parecer piada, mas não ria: Angélica deve estar arrasada por não contar com este especialíssimo convidado para o “Estrelas”.
A vinda do trio (cineasta + esposa + cópia de “Z”) mobilizou consulados e embaixadas, além de obrigar a organização a montar um inédito aparato de segurança. E se você acha que o cara não é a Madonna:
- Eu recebi um e-mail de uma menina, não sei como ela conseguiu o endereço - contou Alfredo. - Ela me implorou pra que eu desse a oportunidade dela só TOCAR no Costa. Não dá pra brincar com fã.
Homenageados e convidados
Para não abrilhantar só a Costa e ser acusada de estrangeirismo (nunca brinque com os culturetes de Recife), o festival homenageia ainda: o diretor Roberto Farias, em comemoração atrasada aos seus 75 anos, completados ano passado; a atriz Dira Paes, recordista de participação em filmes produzidos desde a Retomada (mais de 30!); e uma homenagem institucional ao Canal Brasil, também atrasada: o canal completou sua primeira década de existência no ano passado.
E você, que freqüenta festivais só pra fazer barulho durante os filmes e ver famosos no foyer, espere ver nomes como Chico Diaz, Maria Padilha, Carlos Vereza, Stephany Brito, todos atuando em filmes da mostra competitiva de longas-metragens. Agora, se você der sorte, quem sabe o Rodrigo Santoro não venha? Ele está em um curta. E digital. Mas é do Xerxes que elas gostam mais, não é mesmo?
2 comentários para “Que filme brasileiro, eu quero é ver o Costa-Gavras!”
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3 de abril de 2009 às 14:23
Achei ótimo. Muito bom. Tropa de Elite não é fascista. É realista. Não faz apologia direitista, mau-caráter. É um dos melhores filmes que vi na vida e Costa-Gravas percebeu isso e o ajudou premi-a-lo. Elogio a percepção da autora do texto quanto a esta questão. E as revistas e os jornais grandes economicamente são de extrema-direita mesmo. Dandara sabe disso, porque lhe foi informado e ensinado.
Parabéns à Dandara, que escreve com inteligência, competência e humor. Que ela continue sempre assim.
Davis Sena Filho
25 de abril de 2009 às 19:40
Olá, Palankof! Pois é! Eu sou assinante pernambucano da Folha de São Paulo e já recebi credencial para ver o Gavras (Ihuuuuuuu). Gostei do texto. Apesar de novo nessa onda de arte e visual, penso que o evento será de grande importância para nosso estado. Você virá? A gente se vê no Recife Palace. Até lá! Walter.