21 de maio de 2009
Quarta-feira
Por Mariana Amaral
A água estava fria. Enquanto caminhava em direção ao fundo, uma onda molhou sua barriga e ela sentiu um arrepio, será que nunca se acostumaria com essa sensação? Furou a onda seguinte, passou a arrebentação e seus pés não mais tocavam a areia. Por um instante o mundo ficou em silêncio. Ela abaixou os óculos de natação que estavam sobre a touca, ergueu o braço para em seguida deslizá-lo sobre a água, paft. Depois de nadar por um tempo, ao girar o rosto para respirar mais uma vez, percebeu que estava bem afastada da praia. Parou. Agitou os pés para se manter na vertical e limpou o rosto com as mãos. Boiando, olhou a cidade ao longe: está escurecendo e algumas luzes já estão acesas, pensou. Ela não sabia ao certo que horas eram, mas o sopro quente fez com que ela se lembrasse que morava no Rio, que era verão e se ela achava que eram seis, provavelmente já passava das sete. A mulher continuou olhando a cidade e nem percebeu o sol se pôr nas suas costas, cheio de lilases e laranjas. Mas ela não se importa com os lilases e laranjas do sol.
Tirou a touca e os óculos de natação, abriu as mãos e deixou que escorregassem em direção ao fundo, lentamente, até sumirem de vista.
Ela então levantou os braços e afundou. Ficou por um tempo debaixo d’água até subir à tona novamente para voltar a submergir em seguida. O movimento era feito de maneira graciosa, sem afobação, como uma coreografia ensaiada. Ela podia muito bem voltar à praia ou continuar nadando por mais algum tempo. Afundar foi uma opção consciente e não era a primeira vez que ela fazia isso.
- Caralho, meu irmão, a mulher tá se afogando lá no fundo.
Dessa vez, quem avista o afogamento é um homem que joga futevôlei às quartas. Ele corre em direção ao mar. Seus três parceiros vão até a beira, prontos para ajudar se for preciso. Ela continua afundando lentamente com os olhos bem abertos, os sons da cidade se alternando com o silêncio do mar. Vê alguém nadando em sua direção, mas não para. Ela não acredita em quase nada, mas tem uma certeza: se emitir um som e um mergulhador japonês esperar atento, será capaz de ouvi-la. Ela volta a submergir decidida a ficar o maior tempo possível sem respirar. Em silêncio, é capaz de escutar barulhos: icebergs caindo, baleias amamentando filhotes, conversas de piratas, sua avó nadando criança ao lado do pai pescador, os gemidos dos mortos. Os sons do mar nunca desaparecem, eles batem na praia e retornam com as marés, e…
- Peguei, peguei. Fica calma, tá tudo bem. Segura nas minhas costas que eu vou te levar de volta para a praia.
Ela já foi salva por muitos homens, de diversas maneiras diferentes: alguns enlaçam seu corpo, outros pedem que ela se segure neles, alguns não têm a força que acreditavam ter e ela acaba precisando nadar junto. Ela já foi socorrida de prancha, de barco, de helicóptero. E agora está sendo salva por mais um.
- Faz respiração boca a boca nela, porra.
Quando chega à areia, ela abre os olhos como se recobrasse a consciência naquele instante. Tosse. Cospe um pouco de água.
- Tudo bem, tudo bem.
Cada palavra é separada da outra por um convincente ataque de tosse.
- Tudo bem.
Demora mais do que de costume para convencer os quatro machões de Copacabana que ela é capaz de voltar sozinha para casa. Já são oito horas, pensa. Esqueceu a chave no trabalho, pendurada na gaveta trancada, ao lado do computador.
Toca a campainha e escuta os passinhos do filho correndo para abrir a porta.
- Mamãe, mamãe.
- Eu já disse que você tem que perguntar antes quem é, não pode ir abrindo a porta assim, é perigoso – ela diz com voz terna, levantando ele no colo. - Seu pai chegou?
- Ainda não, só tô eu e a Irene.
No banho, o contraste da água doce com sua boca ainda salgada a faz lembrar do dia em que bebeu cerveja achando ser guaraná, quando era criança na festa do avô. A mesma sensação de estranhamento. Ela chegou a esquecer por um instante que nem toda água é salgada. Depois se esqueceu que nem toda água doce deve ser bebida e abriu a boca sob o chuveiro, engolindo uma boa quantidade.
O marido chegou. Eles jantaram, conversaram, riram. Eram felizes.
Os dias seguiram normais.
Não tinha sido a última vez, disso ela sabia.
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