2 de novembro de 2009
Qual é a moral dos moralistas?
Por Arnaldo Branco
Dizem que tem a ver com as teorias sobre o apocalipse que surgem todo final de milênio (de que calendário, afinal?), mas essa onda conservadora chegou mesmo para ficar. Vejamos o caso da menina que foi ameaçada de estupro por frequentar a universidade com um vestido que a garota de Ipanema usaria para ir à missa.
Com isso não tento regionalizar a imbecilidade, já que alguns carolas de outros estados ou prestaram solidariedade aos linchadores ou, argumentando contra, relativizaram o evento, escrevendo que a garota deveria usar trajes mais adequados ao ambiente - como se essas universidades caça-níqueis tivessem algum dress code ou a moral da Sorbonne.
Acho que o óbvio se defende sozinho e outros já escreveram com mais propriedade sobre esse povo ginecofóbico (copyright Arthur Muhlemberg) provavelmente desprovido de superego, bando de quinta coluna da revolução sexual. Mas esse episódio soma a um estranho fenômeno que tenho observado agora que temos, infelizmente, acesso facilitado a opiniões de outrem.
Que é o seguinte: qual é o barato de tomar o partido da moral e dos bons costumes? Tirando os fundamentalistas de todas as religiões, que precisam fingir que são maiores que as tentações do sexo para ficar bem com sua comunidade de hipócritas, não percebo a vantagem imediata de ficar advogando um mundo mais pueril para os meus futuros e hipóteticos filhos.
Por que esse é o caso, não é? Todo mundo acha que pertence a um seleto grupo de pessoas não-sugestionáveis e com discernimento para acessar pornografia ou ver certos filmes sem fundir a cabeça e/ou se transformarem em estupradores seriais. É sempre o outro que é o problema, mormente nossos filhos inocentes. No caso do Polanski, a indignação contra o velho fauno era justa, embora tardia, mas chamou a atenção o argumento mais usado contra seus defensores: e se fosse com a sua filha?
Se fosse com a minha filha? Bem, no dia em que precisar de empatia para me solidarizar com o sofrimento alheio, melhor me rebaixar a ameba.
21 comentários para “Qual é a moral dos moralistas?”
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2 de novembro de 2009 às 18:27
[...] Qual é o barato de tomar o partido da moral e dos bons costumes? O falso moralismo de plantão é o tema da coluna de Arnaldo Branco desta semana. Leia aqui. [...]
2 de novembro de 2009 às 18:34
Arnaldo, eu te tinha como um cartunista, engraçado, mas apenas um cartunista. Mas cada vez mais, lendo sua coluna, vejo que você se tornou a voz da sensatez na cultura brasileira, com uma clareza de pensamento tão nítida que não consigo imaginar algum outro a altura. Sorte minha poder te ler. Abraço.
2 de novembro de 2009 às 18:44
[...] Revista Zé Pereira» Arquivo do Blog » Qual é a moral dos moralistas? http://www.revistazepereira.com.br/qual-e-a-moral-dos-moralistas – view page – cached Dizem que tem a ver com as teorias sobre o apocalipse que surgem todo final de milênio (de que calendário, afinal?), mas essa onda conservadora chegou mesmo para ficar. Vejamos o caso da menina que… (Read more)Dizem que tem a ver com as teorias sobre o apocalipse que surgem todo final de milênio (de que calendário, afinal?), mas essa onda conservadora chegou mesmo para ficar. Vejamos o caso da menina que foi ameaçada de estupro por frequentar a universidade com um vestido que a garota de Ipanema usaria para ir à missa. (Read less) — From the page [...]
2 de novembro de 2009 às 18:49
Mas a capacidade de se solidarizar com o sofrimento alheio não seria uma empatia ahn… pré-racional, digamos?
Mas de volta ao assunto, me assustou a relativização feita em todas as reportagens a respeito. Me parece que o óbvio está precisando de uma ajudinha.
2 de novembro de 2009 às 18:54
“empatia para me solidarizar com o sofrimento alheio”
pensei que empatia fosse exatamente isso. me explica direito, tio?
2 de novembro de 2009 às 19:51
Empatia não é entender o sofrimento alheio com conhecimento de causa? Entonces mal aí. Zé, mete um termo mais correto aí, tipo empirismo, sei lá.
2 de novembro de 2009 às 21:02
“empatia ahn… pré-racional” ou rousseau pra quem mesmo?
é, explica direito, tio. ,)
2 de novembro de 2009 às 21:12
”…já escreveram com mais propriedade sobre esse povo ginecofóbico (copyright Arthur Muhlemberg) provavelmente desprovido de superego…”
O superego não é parte da censura e da repressão?
então eu acho que esse ”povo ginecofóbico” está muito bem provido de superego!
2 de novembro de 2009 às 22:28
O que eu vejo é muito aquela necessidade de levantar uma bandeira, não importa qual. Como se o conceito de acreditar em algo dependesse realmente de ir à passeata e gritar frases prontas. Ou no final das contas não deve passar de um bando de pequenas crianças mimadas que dão qualquer espetáculo para ter atenção, coisa que virou moda chamar de mobilização e que é tão funcional quanto o #forasarney nos trending topics do twitter.
3 de novembro de 2009 às 4:35
Superego eu sei o que é
O que me surpreendeu nesses caras foi a falta de pudor com que manifestaram seu falso moralismo, daí o que escrevi.
3 de novembro de 2009 às 8:47
Seminal sua explicação. Li, reli e recomendei.
3 de novembro de 2009 às 22:09
Continuo achando que aquela turma não passa de um bando de otário cuzão que merecia uns tapas na cara! Só isso!
4 de novembro de 2009 às 8:53
[...] Minha coluna Mal Necessário da semana: Qual é a moral dos moralistas? [...]
4 de novembro de 2009 às 9:33
Sei lá… acho a moral e bons costumes uma desculpa bem esfarrapada mesmo. Naturalmente que os sentimentos verdadeiros são bem outros: recalque, inveja, etc.´
É como o Milton Neves dizer que cassaria metade dos títulos do Flamengo pois eles teriam sido ganhos “no apito”- Nada mais é que recalque travestido de desejo de fairplay.
4 de novembro de 2009 às 11:11
Não precisa concordar com o moralismo pra participar da turba moralista. Não faltam exemplos de gente sem moral e moralista, não é? A “onda” é sempre se colocar como parte dos que podem legislar a vida alheia. A vontade de ser a lei é uma das coisas mais comuns entre idiotas.
Quantas pessoas acham que se pode matar quem “é” errado?
E tem mais, quanto mais vc localizar as mazelas do mundo nos outros, mais longe dela você ficou. É uma situação win-win-win… pelo menos na cabeça deste povo.
5 de novembro de 2009 às 10:00
Não é nem ginecofobia, é obscurantismo mesmo. Vide o governador do Mato Grosso que disse, do Minc: “esse viado… vou estuprá-lo em praça pública!” (????) Mesmo se você abstrair toda a grosseria, ainda sobra uma imensa falta de sentido. Você acha errado homem transar com homem, e, pra castigá-lo, você transa com ele?
Quer dizer, você acha errado uma aluna usar roupa curta e ter comportamento sexual avançado. Deve ser porque sexo é errado; como castigo você a ameaça de estupro?
Parece um lance do “A feia noite” - o castigo mais severo do inferno é te dar o que você desejou em excesso. Lembra, Arnaldo?
5 de novembro de 2009 às 12:59
boa, simone.
5 de novembro de 2009 às 14:10
Simone, não repita o que escreveu aos juristas defensores da pena de morte, eles travam.
5 de novembro de 2009 às 14:37
Simone, excelente comentário, não dá pra entender esses caras mesmo, mas acho que o negócio é bem aquilo que o Raul falou. O que importa é estar do lado da turba, não importa se aquilo que ela defende faz sentido ou não.
6 de novembro de 2009 às 16:15
[...] emprestado do sempre brilhante, Arnaldo Branco Deixe um [...]
7 de novembro de 2009 às 1:12
Evidente que a chamaram de puta porque quando os caras ainda estavam “comportados”, ela aparentemente estava apreciando os comentários.
Ou seja: mulher de vestido curto que gosta do que houve, na cabeça dos caras, só pode ser puta, mesmo. Se ela não tivesse ligado, provavelmente teriam deixado a moça quieta.
Depois eles foram dar a olhadinha diária em pr0n na inteinét, claro.