11 de maio de 2009
Contato imediato com Deus
BLOG, Recanto nerd, Star Trek, TV
Por Luiz Henriques
Alguém já disse que Gene Roddenberry só tinha uma ideia pra roteiro: a tripulação da Enterprise encontrava Deus. E, levando-se em conta que “Onde homem nenhum jamais esteve”, sobre um tripulante da Enterprise com poderes quase onipotentes que o corrompem por não estar preparado, foi o terceiro episódio, logo em seguida a “Charlie X”, sobre um garoto na Enterprise com poderes quase onipotentes que o corrompem por não estar preparado, até que a frase não está muito longe da verdade.
Na verdade, “Onde homem nenhum jamais esteve” foi o segundo piloto de “Jornada nas Estrelas”. O primeiro, “The Cage”, com Jeffrey Hunter, foi considerado bom, mas cerebral demais e, fundamental, difícil de preparar semanalmente. Roddenberry então ganhou uma segunda chance pra adicionar mais ação e diminuir na produção até satisfazer os executivos da tevê. Que preferiram estrear a série com o monstro que sugava sal, mas depois puseram em seguida dois episódios sobre semideuses fazendo a tripulação da Entrerprise de gato e sapato, com ambas as situações sendo resolvidas por outros semideuses que apareciam convenientemente, num verdadeiro semideus ex machina. Logo no princípio do seriado mostrar nossos heróis tão passivos e ineficazes não era uma boa isca pra audiência.
Sendo o piloto, “Onde homem nenhum jamais esteve” foi filmado um ano antes de começar mesmo o seriado. Os uniformes são diferentes, o médico de bordo é outro, Sulu usa camiza azul e parece também ser médico, e Spock não tem o jeitão condescendente a que estamos acostumados. É muito mais sério e frio, o que por osmose empresta um ar mais adulto ao capitão Kirk. E o clima geral na Enterprise, apesar da diversidade cultural e sexual também é bem mais preconceituoso. (continua aqui)
Gary Lockwood interpreta um tripulante da Enterprise que recebe estranhos poderes quando a nave atravessa um daqueles convenientes e misteriosos campos de energia que a Frota Estelar parece estar sempre encontrando. Quatro anos depois ele seria assassinado por Hal em “2001 – Uma odisséia no espaço, mostrando que espaçonaves encontrando personificações divinas não eram a área dele. Mas, curiosamente, além de ganhar córneas prateadas (tomadas emprestadas das crianças paranormais de “Village of the damned”), a primeira manifestação de sua meta-humanidade é começar a ler muito e rápido, o que deixa Spock seriamente preocupado. Parece que só vulcanos podem lidar com o racionalismo extremo.
E com tanto conhecimento adquirido, o sujeito acaba começando a ler pensamento e exibir dons telecinéticos, invulnerabilidade… enfim, o pacote semidivino completo. “Jornada nas estrelas” ainda não decolara rumo anos anos 60 e mostrava o mesmo medo da ciência que toda ficção científica dos anos 50 até então, o preconceito contra a racionalidade que criara a bomba atômica e deixara o mundo à beira de um ataque de nervos. Se tivesse prosseguido com essa extremamente explícita postura anti-intelectual, certamente a série não teria se tornado o sucesso pantagruélico que se tornou entre os nerds.
Não se pode negar, entretanto, o poder de certas cenas, como o Gary Lockwood tentando atravessar o campo de força de sua cela, só para ser atingido, voltar a ter olhos normais e lentamente eles se tornarem novamente prateados – e a cada tentativa, ficar enfraquecido menos tempo. Ajuda muito ser o piloto e ter uma direção mais caprichada. A pintura do planeta é mais cuidada e a iluminação do cenário rochoso picareta lhe confere um aspecto bem melhor do que os mundos alienígenas das temporadas regulares, filmados em sobras de estúdio e subúrbios de Los Angeles.
Outra tripulante recebe os poderes estranhos – uma mulher gostosa e psicóloga (Sally Kellerman, a Lábios Quentes do “M*A*S*H” do cinema), ou seja duplamente perigosa. Essa intelectual provavelmente já não mais virgem ainda por cima se torna parceira do outro semideus, que junto com sua humanidade abandonara também sua namoradinha do começo do episódio. O restante vivente racional da espaçonave, o sr. Spock, sem uma gota do humor, da condescendência ou mesmo da distante compreensão dos sentimentos humanos a que estamos acostumados, passa o tempo todo sugerindo matar o amigo de adolescência do capitão Kirk antes que ele se torne poderoso demais.
Mas como a psicóloga ganhou seus poderes depois do Gary Lockwood e seu mestrado é em ciências humanas, ela ainda tem um pingo de humanidade e, vendo o que eles se tornaram, enfrenta seu parceiro até que ele perde quase todos os seus dons semidivinos e a partir daí Kirk assume. O bom e velho homem de ação americano, o bronco incapaz de entender como Espinoza é facinho, resolve tudo de uma maneira bastante significativa: com uma pedrada. Neandertal mesmo.
O episódio funciona graças à direção e à mecânica do roteiro que controla bem o suspense e a ação, mas se Gene Roddenberry não tivesse se cercado de escritores com pensamento mais provocador e levado a série para outra direção, “Jornada nas estrelas” poderia se tornar apenas mais uma preconceituosa série com milicos e malvados alienígenas comunistas, como “Viagem ao fundo do mar” e congêneres. Felizmente Kirk & cia. traçaram um curso para o desconhecido e mapearam o caminho que muitas séries de tevê acabariam seguindo.
Digno de nota:
- Contagem de corpos: três - o engenheiro de bordo, o que é ótimo, pois seria substituído pelo sr. Scott, e os dois tripulantes que receberam superpoderes ao atravessarem o “misterioso campo de energia”.
- As mulheres todas usam calças;
- Pela segunda vez seguida, Kirk vence Spock no xadrez tridimensional, mostrando a superioridade dos humanistas sobre os racionalistas puros.
- A cova que Gary Lockwood cava com a força da mente pro capitão Kirk tem a inscrição “James R. Kirk”. Todas as outras menções da série seriam “James T. Kirk” e, no desenho animado e no filme “A terra desconhecida”, seria esclarecido que o “T” é de “Tiberius”.
Um comentário para “Contato imediato com Deus”
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27 de julho de 2009 às 0:43
Olá, interessa-se por bom conteúdo? Textos criativos, resenhas de filmes, comentários sociais e muitas surpresas?
Veja isso e muito mais, como por exemplo em Pessoinhas ou nos textos A descoberta da jovem escritora (Wannabe a classic), Matadouro das virtudes, Radiohead na Portela, Acesso (você quer, você quer, você quer) ou ainda Deus Desnudo em
http://fantasticomundodorafa.blogspot.com/search?updated-min=2008-01-01T00%3A00%3A00-02%3A00&updated-max=2009-01-01T00%3A00%3A00-02%3A00&max-results=34
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O conteúdo original mais amplo de um autor da nova geração! Obrigado pela atenção, divirta-se no Fantástico mundo do Rafa! Encaminhe esse email a quem você acredita especial a ponto de se interessar por hipercriatividade!