2 de março de 2009
Por um punhado de ordens de pagamento
Sou comunista, da linha sueca. Já que é contraproducente apelar para o residual interesse do ser humano pelo bem estar comum, por que não apelar só para o interesse? Atrele o teto salarial ao piso pra você ver se todo mundo não se mobiliza para melhorar a remuneração do pessoal que rala em subemprego.
Mas aqui é o Brasil, onde a Lei do Mercado e da Selva só diferem porque na Selva você tem para onde correr. Aqui você está preso em um cubículo (em uma baia corporativa ou no seu quarto e sala de trabalhador autônomo) com o predador mais nocivo do capitalismo selvagem, o empresário brasileiro. E ele ataca você em duas frentes: como consumidor e empregado.
Para as empresas brasileiras, o consumidor é um empecilho para o consumo em si. Não é alguém que você deva conquistar pela excelência, mas que é necessário ludibriar até o momento da venda e depois manter como cliente pela tática da dificuldade do descadastramento e da falta de outra opção.
Cada empresa descobre um jeito de lesar a clientela (taxas de manutenção em contas de banco, barras de cereal no lugar de comida nos aviões, etc) e esse know how é adotado por outras empresas da mesma área. Eis o conceito de concorrência no Brasil: ganha a companhia que for mais criativa na hora de economizar em serviço e esbanjar em cobrança.
No caso dos empregados, especialmente autônomos, a grande estratégia do empresariado nacional para a otimização dos lucros é parecer bastante profissional na hora de cobrar a entrega do trabalho e mudar de postura imediatamente depois da mesma. Também ajuda a dar um tom de legalidade pra tudo exigir nota fiscal - esse truque vale a pena, porque como quem decide quando depositar é o empregador, dá para segurar o dinheiro indefinidamente, quem sabe até quando o país mudar de moeda.
Já paguei impostos sobre emissão de nota fiscal dois, três meses e até um ano antes de receber. Nesse último caso só consegui o cheque porque em vez de apelar para humanidade ou profissionalismo dos caras, tentei o Tribunal de Pequenas Causas.
Minha mãe ensinou que na vida as palavras mágicas são “por favor”. Na vida corporativa, aprendi que é “processo”.
8 comentários para “Por um punhado de ordens de pagamento”
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2 de março de 2009 às 15:21
[...] e de volta à convivência com a ética bastante peculiar do moderno patronato brasileiro. Veja aqui, na coluna do Arnaldo [...]
2 de março de 2009 às 18:24
O pior de tudo é, depois de todo esse raciocínio, chegar um embaixadorzinho do stablishment e te dizer:
– se a Suécia é tão boa, por que vc não muda pra lá?
eh eh
teje preparado
3 de março de 2009 às 10:43
[...] Minha coluna Mal Necessário da semana: Por um punhado de ordens de pagamento. [...]
3 de março de 2009 às 11:19
Perfeito! E, muito importante também, pegar pesado na publicidade que faz as tais empresas parecerem ONGs em favor da cidadania ou da preservação ambiental, por exemplo – crianças jogando bola num campinho, mulheres grávidas, sorrisos em câmera lenta ou golfinhos sempre caem bem, né?
3 de março de 2009 às 13:33
O poder (ou o ca$h) sempre corrompe.
3 de março de 2009 às 13:58
Se você quer uma imagem que traduza a causa do mal estar da humanidade, é só ver aquela foto do Roberto Justus com a expressão “trajetória profissional” do lado.
3 de março de 2009 às 16:19
Isso porque o povo do brasil é burro o suficiente pra não mover nem um fio de cabelo mesmo quando tá se sentindo o maior otário. E a justiça, ah, a justiça…
22 de março de 2009 às 22:54
Incrível como uma economia pode ser regulada, distorcida, manipulada, ter os vencedores escolhidos a dedo pelo atual ocupante do poder, e quando os resultados são péssimos, não há dúvida: o problema é o mercado.
Você está absolutamente certo quanto aos problemas Arnaldo. Eu mesmo acabei de perder uma hora da minha vida passando uma conta de celular pós pra pré no telefone com a Morto(tm). O que eu não concordo é enxergar no problema a solução.
Pro Brasil ser um _mercado_ que de fato pode se valer do auto-interesse para melhorar a condição geral e não simplesmente rechear o bolso dos tem mais amiguinhos em Brasília, o BC teria que ir embora, a ANAC, a ANATEL, a ANCINE, a Receita Federal, o Ministério da Água, da Pesca, da Agricultura, da Energia, do Emprego, do Caralho a quatro.
Capitalismo de estado e liberalismo são muito diferentes, em princípios e em resultados. A ironia aqui é que o primeiro, que nós temos, está muito mais próximo do que existe na Suécia que o segundo. Já temos até piso salarial, então, pelo seu argumento estamos no caminho certo. Só basta atrelar a um teto!