3 de setembro de 2008
Por que não querem saber da opinião dos jovens?
Por Leandra Leal
Quando me chamaram para escrever nesta revista, eu fiquei feliz que só, já imaginando falar sobre um monte de coisas que ninguém nunca me pergunta. Seria um texto longo e terminaria em aberto, porque eu não paro nunca de formular idéias e teorias, porque eu ainda me assusto muito com o mundo. Tanta coisa me incomoda e sinto que faço pouco, portanto qualquer oportunidade de fazer alguma coisa já causa ânimo. Também porque meu sonho era parar de dar entrevistas e ficar escrevendo em algum lugar sempre que julgasse necessário. Vida boa! Antes que eu escrevesse qualquer coisa, me chegou por e-mail um tema. Mais ou menos, pelo que entendi, seria para eu escrever sobre a minha geração, tentando pensar porque a gente não se posiciona tanto, ou porque não temos voz nos meios de comunicação, e porque as figuras públicas com essa voz não aproveitam esse fato.
Bom, começo então pelo que acho ser anterior a essa conclusão apressada de que nós nos alienamos e que vivemos a era das celebridades fast-foods. Em minha opinião, a maior crise do nosso tempo não é a econômica nem a social, é a moral. Sem papo careta. Falo de ética, de valorização da vida e de sentimentos profundos. Não sou de abraçar árvore, mas acho que precisamos falar um pouquinho mais de amor. Hoje em dia, somos capazes de trocar tudo por um bem-estar financeiro e um reconhecimento social e acabamos, assim, banalizando a nossa história.
Hoje, tudo se resolve no caixa. Qualquer corrupção ou violência vale a pena por dinheiro. Cada vez mais é o “cada um por si”. Cada vez mais nos ausentamos das discussões públicas e da troca de idéias. Assistimos a uma fabricação em série de celebridades, pessoas fugindo da sua realidade e buscando viver do reconhecimento público, fazendo tudo pela fama e se enquadrando, indiferentes, ao que manda o figurino, servindo à mídia sem impor sua personalidade e opinião.
A banalização do “qualquer um pode ser famoso” criou celebridades sem nenhuma preocupação com o seu discurso, que desperdiçam seu poder de formadores de opinião e se ausentam de um possível papel social. Parece que nos esquecemos, ou nem aprendemos, o nosso direito de questionar e acabamos por acreditar nessa idéia de impotência que nos foi vendida: “não temos como resolver os problemas do mundo”, “só posso cuidar de mim e da minha família”. No entanto, vivemos em sociedade, modificamos e somos modificados por ela. Até quando o sujeito consegue viver assim? Até ser assaltado? Seqüestrado? Até ter câncer de pele por causa da diminuição da camada de ozônio? Só quando formos atingidos iremos começar a questionar e debater? O mundo anda muito chato, muita coisa está errada pra gente ficar calado.
Ao contrário do que muitos dizem, isso não é um problema de nossa geração, pois não vejo uma postura tão diferente nas outras, que também estão fazendo o mundo atual. Acredito que em todas as gerações há pessoas alienadas e outras, engajadas. Essa imagem da geração dos anos 60, livre e politizada, se tornou um fardo para a nossa. Sustentamos a culpa pelo caos do mundo, temos fama de alienados e acomodados, e até somos. Mas, peraí! O mundo de hoje é também governado pelos jovens de 68. São eles a maioria que está editando os jornais, dando aulas, criando leis.
E onde foi parar a revolução? Nem eu nem meus amigos somos bobos ou acomodados. Vivemos numa sociedade com a ilusão da liberdade, que diz dar voz a todos, mas que na prática é bem diferente disso. Custa muito caro ter uma opinião. O direito de ir e vir é restrito aos que têm condições financeiras, e essa consciência destrói qualquer tentativa de ação de um sujeito. Para tudo é preciso ter dinheiro e um comportamento social “adequado”. Quero ver você ser livre sem ter dinheiro e educação, nesse país. Quero ver a liberdade de sair de qualquer periferia, sem ter tido isso.
Ninguém mais é proibido de nada, só que a liberdade não está disponível a todos, ela está à venda e custa muito caro. Eu tenho que ter casa, ter salada no almoço, computador, internet, plano de saúde, ter chope no Baixo Gávea, ter ingresso, ter mente, ter foto, ter opinião. Eu tenho que ter muita coisa para me dizer livre. Esse “ter” aprisionou nossa geração.
O modelo de comportamento “politicamente correto”, que resolvemos adotar e valorizar para as nossas celebridades, também impõe barreiras para a livre expressão de idéias na mídia. As celebridades, que poderiam gerar exemplos não só de corte de cabelo, acabam evitando opiniões que possam ser polêmicas, para não correrem o risco de serem mal-interpretados e, principalmente, de serem rotulados a partir dessas opiniões. Dificultam, assim, o debate de assuntos relevantes como o aborto, a legalização das drogas, eleição, corrupção etc.
A nossa sociedade não propõe mais um olhar real para as pessoas e seus pensamentos. Vivemos uma febre de prateleira. A mídia está só esperando para escolher o melhor rótulo para o nosso discurso e, assim, colocá-lo à venda. Nossas idéias são editadas a vontade, porque, no fim, tudo pode e deve ser vendido. Existe uma impossibilidade de sustentar um pensamento sem torná-lo uma mercadoria, que seja uma simples opinião, uma divagação. Não podemos discutir um tema, temos que ter opiniões curtas e bombásticas, prontas para serem mastigadas nas manchetes. Ter seu pensamento à venda, convertido na marca de um produto ideológico, assusta e inibe a discussão. Talvez por isso, cada vez mais figuras públicas da minha geração e de outras se ausentam dos debates, e suas opiniões sejam menos procuradas. Assim, acabamos dando entrevistas sobre assuntos inofensivos, como relacionamentos, cabelos e roupas.
Eu nasci famosa, não que isso me cause orgulho, pois ser famoso não é nenhuma qualidade, é uma conseqüência. No meu caso, minha mãe era atriz, já fazia teatro, TV, filmes e na sua, ou melhor, na minha gravidez, fez campanha pela amamentação e pelo parto natural. Infelizmente, não obedeci, e acabei nascendo de cesária, depois de 24 horas de trabalho de parto. Volta e meia alguém me entrega um recorte da época, com uma foto minha, de cara amassada, ainda na maternidade.
Com 12 anos, fiz minha primeira novela. Apesar desse tempo todo de exposição e de ter certo destaque na mídia, poucas foram as ocasiões em que pude falar o que realmente me interessa, numa entrevista. O espaço que ocupo é, na maioria das vezes, relativo ao meu visual e a minha vida particular (regimes, estilo, se eu sou ciumenta etc.). Tudo muito interessante, não fosse só esse o foco. Às vezes invejo artistas plásticos, historiadores e diretores, que são entrevistados por causa do seu trabalho e não por alguém apenas esperando meia hora de entrevista, e pela conquista de uma suposta confiança, para atacar “aquela” pergunta sobre minha vida pessoal.
Adoraria que me perguntassem algo que vá além desse básico. Realmente espero um dia conquistar o espaço de falar coisas mais pertinentes e não ter mais que comprimir minhas opiniões nas perguntas dignas de um concurso de miss, como “o que você acha do Brasil?”, ou “o que você espera dos políticos?”. É impossível responder a isso com profundidade e qualquer resposta acaba ficando demagoga numa página de jornal. Esse espaço não é suficiente para você se posicionar, é um lugar de manutenção. Ele não questiona, não espera uma sinceridade, nem muito menos a formulação de um pensamento que mire uma real tentativa de mudança. Isso não é ser politizado, isso não é questionar pessoas públicas sobre o que elas acham do seu país, não é contribuir para a discussão.
Não sei o porquê desse tratamento por parte da mídia, não sei quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha: se esse espaço de fofocas e futilidades existe porque vende ou se vende porque está lá. Eu particularmente corro atrás do espaço que não ocupo. Essa mídia fictícia, designada a artistas da minha geração, interessa pouco, e vejo apenas como ponto de partida para outras discussões, uma brecha para uma futura inundação. Temos responsabilidades e méritos individuais, cada um tem o poder de mudança. Precisamos somente nos recuperar desse nada, dessa herança de um sonho despedaçado de revolução e decidir logo: estamos ou não à venda?












31 de outubro de 2008 às 19:00
[...] A gente teve a idéia de pedir um artigo para a atriz Leandra Leal quando leu no “Globo” uma reportagem da Elizabete Antunes na qual ela reclamava que ninguém lhe perguntava nada de relevante, só queriam saber de fofoca. Lá pelas tantas, Leandra reclamava: “Quando o Caetano tinha a minha idade, queriam saber a opinião dele a respeito de assuntos importantes. Por que hoje ninguém quer saber da opinião dos jovens?”. O artigo foi publicado originalmente na Zé Pereira número 1, em julho do ano passado. Como a reclamação da atriz ainda procede, estamos o republicando aqui. [...]
2 de agosto de 2009 às 17:43
VIII Conferência Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente: Ópera carcamana da democracia!!!!
Essa democracia que inventaram é propositalmente complicada e entediante – jovens! Participem!!!!!