23 de janeiro de 2010
Poor Edward
BLOG, ilícito
Por Fernando Barreiros
Mais uma vez, botei a mão em minha nuca e subi um pouco. Pude sentir tudo, sua boca, seus lábios carnudos, seu nariz, toda a sua imperfeição caótica e bela. Aquele rosto me atormentava e me apaixonava. Ela afirmava ser minha perdição e eu nunca poderia me separar. Porque iria querer me separar de um ser tão belo quanto ela? Ou porque não iria querer me separar de um rosto na parte de trás da minha cabeça que faz de mim o novo homem elefante? Eu havia tentado de tudo para matá-la, mas não conseguia. A cada tentativa frustrada, ela apenas sorria e dizia o quanto me amava. Horas de minha vida foram desperdiçadas tentando ver seu rosto. Nunca pude vê-lo, apenas tocá-lo. Andar na rua virou um tormento, todos me olhavam como se estivesse em um show de aberrações.
Toda noite, quando deito minha cabeça no travesseiro, ela começa. Me fala coisas que imaginava só poderem ser ouvidas no próprio inferno. Cada palavra, cada som que saía de sua boca era como um pesadelo, todo aquele desespero e desesperança tomavam conta de mim graças a ela. Mas não podia simplesmente me separar dela, como faria isso? Sua voz era ligeiramente rouca, mas ao mesmo tempo feminina, era uma voz charmosa e um tanto sedutora com um ar vil. É o que eu imaginava ser a voz de uma dominatrix. Certas noites eu era seduzido por sua voz e noutras simplesmente amedrontado. O dom de tirar a vontade de viver de alguém apenas com a fala não é comum.
Todo dia era a mesma coisa, o desespero, a frustração, o medo e a vergonha viraram a minha rotina. Não poder ver o rosto, ouvir o rosto e receber olhares por causa do rosto. O meu desejo era matá-la, simplesmente arrancá-la de lá. Porém, sempre que imaginei a carne se desgarrando de minha própria cabeça, sentia um nojo misturado com medo.
Não saía mais de casa por causa do maldito rosto. Pedia comida e remédios para dormir por telefone. Toda noite era sempre a mesma coisa, deitava na cama e ela começava com os tormentos. Era como se estivesse rasgando o meu cérebro com unhas. Um tiro no saco deveria ser mais agradável. Ela não comia ou bebia, se alimentava apenas da dor que me causava.
Pela primeira vez em meses, decidi sair de casa. Andei até a loja de ferragens perto de minha casa enquanto todos me olhavam com espanto e horror. Pedi 4 metros de corda de cisal e o atendente perguntou para que eu queria, não conseguia me encarar nos olhos, me sentia como John Merrick. Comprei a corda e um cigarro, não um maço, mas UM cigarro. Voltei para casa olhando para o chão, como sempre. Sabia muito bem que não aguentaria mais um minuto daquilo. Fui até a sala e amarrei a corda no ventilador. Fiquei encarando aquela forca pendurada enquanto ela me destruía por dentro cada vez mais. A que ponto havia chegado, suicídio? Não havia outra maneira. Entre a morte e o caos causado pelo maldito rosto, a morte vira a alternativa mais humana e menos dolorosa. Terminei o cigarro e, como nos filmes, subi em um banco e coloquei a forca em meu pescoço. “Como você é fraco.” Ela dizia. “Tão fraco que prefere morrer. Olhe só para você.” Mandei ela calar a boca e o silêncio se fez presente. Pela primeira vez ela demonstrou algum sentimento humano, pude sentir uma lágrima escorrendo de um de seus olhos. Pulei do banco. Pude sentir minha vida se esvaindo. Pude sentir meu corpo afundando para o inferno, ela foi a pedra amarrada em meus pés que me puxou para o fundo do oceano.
5 comentários para “Poor Edward”
Deixe um comentário
- Desprezo amargo
- Sinfonia russa
- Delírios #427
- Portas de vidro e o depravado
- Deprimente
- Delíria
- Brinco-no-pau
- Plaft!
- Faça como Kurt Cobain
- Kafka High
- Autópsia
- Uvas #1
- Entre maçanetas e peitos
- Maldito casal de rednecks
- O maldito mistério
- Super S (Hole)
- Poor Edward
- Delírios #2
- Carnívoros prevalecem
- Delírios #1
- Desespero
- Lua negra
- Como matar um pica-pau
- Um pigarro de liberdade
- Violetas são vermelhas
- A lua não está mais entre nós
- “Eu me arrumei uma mexicana maconheira, só que no corpo de uma baixinha peituda e bunduda chamada Rebecca”
- A famosa lua de queijo
- Hipopótamos
- Minto
- Duas coelhinhas da “Playboy” e a conta, com Allan Sieber
- Cachorros gordos
- Anon
- “Problem Solving”
- Gripe do Porco Escroto x Vaca Louca
- Título











23 de janeiro de 2010 às 14:09
dói de ler.
é a melhor parte.
salve o dash!
23 de janeiro de 2010 às 16:50
Demorou, é nós na fotonovela?
23 de janeiro de 2010 às 17:34
Did you hear the news about Edward?
27 de janeiro de 2010 às 23:01
é duro viver com papagaio de pirata.
4 de fevereiro de 2010 às 16:56
Caralho, foda isso.