27 de abril de 2009
Picareta na estátua
Por Arnaldo Branco
Se há um prazer que eu não entendo é o da desconstrução do mito. Não sei se é por causa da mediocridade das nossas vidas comezinhas, mas tenho a impressão que o ser humano precisa se vingar através do fracasso do homem incomum. Vejam o caso do Ronaldo.
Ontem ele fez dois gols que a gente sabe que o camisa 9 dos nossos times não faria nem com intervenção divina. E o cara está acima do peso, com os joelhos comprometidos e só treinando no intervalo entre as noitadas - imagino que parar o sujeito só com poliomelite ou tiro na rótula.
Mas até pouco tempo, parecia que estava todo mundo dedicado a rir de piadas idiotas sobre adiposidade e do mau negócio que o Corinthians fez comprando o Fenômeno. É claro que um dia ele vai perder seus poderes, mas é um absurdo declarar a aposentadoria precoce de um cara com esse escandaloso talento para jogar bola.
E outra coisa: gosto da idéia de ser contemporâneo do melhor de todos. Sempre penso na vantagem de contar para os netos hipotéticos que vi O Cara em atividade. Lembro que quando o Mike Tyson estava invicto eu era o único entre meus amigos que não torcia pela primeira derrota.
Essa mania de meter picareta em estátua talvez seja só efeito colateral da vontade de ser o primeiro a repassar uma má notícia. Mas essas Cassandras acabam sempre pagando pela língua, como nesse texto famoso de um anônimo vocacional chamado João Wady Cury decretando o fim da carreira do Ronaldo em 2001 - antes do cara se tornar pentacampeão do mundo e o maior artilheiro da história das Copas.
Toda vez que vejo essas pessoas que profetizam o crepúsculo dos Deuses, lembro da piada do Verissimo: “Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta”.
11 comentários para “Picareta na estátua”
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27 de abril de 2009 às 11:16
[...] o fim da carreira do Fenônemo em 2001, lembra-nos o Arnaldo Branco em sua coluna de hoje - leia aqui. A inveja é a arma dos [...]
27 de abril de 2009 às 11:59
Eu também acho que era o único sujeito que torcia pelo Borg - pelo motivo acima.
27 de abril de 2009 às 12:29
E olha que ainda tem o Federer e o Nadal no tênis.

O Rossi na motovelocidade.
O Kevin Slater no surf.
E o Lula na presidência.
27 de abril de 2009 às 13:09
[...] Minha coluna Mal Necessário para a Zé Pereira: Picareta na estátua. [...]
27 de abril de 2009 às 13:11
Melhor definição de iconoclastia que já li: “mania de meter picareta em estátua”
Mania que não dá trégua, diga-se de passagem. Afinal sempre somos contemporâneos de algum “melhor do mundo”…
27 de abril de 2009 às 13:17
Putz, é verdade. Pegam no pé do Ronaldo em vez de parar para aproveitar a oportunidade de presenciar um gênio (gordo, porém gênio) em atividade.
27 de abril de 2009 às 16:21
esses são aquelas pragas que sempre querem ter o privilégio de dizer “eu avisei”, “eu disse”.
27 de abril de 2009 às 21:21
Eu acho q apesar de tudo, ele eh um gaaato
29 de abril de 2009 às 9:51
É o complexo do “Eu Já Sabia”.
30 de abril de 2009 às 16:57
Parece que um dos efeitos colaterais da religião, Arnaldo, além do analfabetismo, é tb o de confundir tornado com furacão.
18 de setembro de 2009 às 11:48
É difícil para os comuns mortais aceitar a genialidade de alguém quando ela parece tão fácil e aparentemente sem esforço. Principalmente quando comparada com todo o esforço que fazemos até mesmo para sermos mediócres.Meter picareta em estátua é o alívio psicológico pra inveja enrustida.