25 de abril de 2010
Pernambuco se mostra
BLOG, Cine PE 2010, Cinema
Cine PE 2010 abre com mostra de pratas da casa
Por Du Mota
Fotos de Alexandre Sá
“O bom filho à casa torna”, diz o ditado; e assim foi com o Cine PE – Festival do Audiovisual, que na sua 14a edição, realiza a paralela III Mostra Pernambuco de Curtas e Longas-Metragens, no Cine São Luiz — local da primeira edição da mostra principal, nos idos de 1997. Oficializando a sua abertura com a produção audiovisual do estado, o festival segue durante a semana até o dia 2 de maio, com a programação principal sendo realizada em, sua atual casa o Centro de Convenções.
O Cine São Luiz estava lotado para a primeira noite de exibição dos filmes pernambucanos. O evento teve início com uma pequena série de agradecimentos e as sinopses dos oito curtas e dois longas-metragens da noite, dando voz aos seus respectivos realizadores. Há de se ressaltar a ótima escolha do local: o recém-reformado Cine São Luiz — que certamente não suportaria o público da programação principal, hoje em dia — está impecável. Das acomodações à qualidade da imagem da tela. Tudo nos trinques. E sim, lindo como sempre. Além do saudosismo que pairava no ar, e só quem é recifense pode entender isso, era quase palpável a sensação de que boa parte do público estava lá só pra checar como o cinema ficou, depois da reforma que durou anos para ser concluída.
O primeiro curta a ser exibido é “Tchau e benção”, de Daniel Bandeira. Narra o momento derradeiro do fim de um relacionamento e seu último desencontro, todo em preto-e-branco e ao som de uma ótima trilha. Com uma bela fotografia e uma câmera quase fixa, nós vemos os últimos momentos silentes, apesar do aparelho de som do apartamento que serve de cenário da história estar sempre ligado; parece ser aleatório, mas casa com o desenrolar da história, que tem um final quase, eu disse quase, habitual no que desrespeito a relacionamentos. O filme reafirma a boa produção do premiado diretor (de “Amigos de risco”, 2008) e foi um dos grandes filmes da noite do sábado.
Um sujeito dançando somente de cueca ao som de uma música tosca, com um cigarro na boca e um copo de cerveja sempre à mão. Esquisito? Mas esse é o protagonista de “Aqui mora uma pessoa feliz”, de Jean Santos, segundo curta da noite. O filme é engraçado e mostra a que veio arrancando gargalhadas do público presente (que também riu em momentos inapropriados, diga-se de passagem). Uma aura retrô permeia todo o filme. A direção de arte cuidou para que os figurantes, que pareciam saídos de qualquer novela dos anos 1980, reafirmassem o clima do filme. Com direito a close de bunda rebolativa e assédio a uma senhorinha quase inocente. Bobo, mas diverte.
“Fôlego” é uma produção acadêmica dos estudantes de cinema da UFPE Larissa Cavalcanti e Txai Ferraz. Trata da correria do dia-a-dia em detrimento dos momentos raros de regozijo da vida cotidiana. A premissa é até interessante, mas o filme esbarra em vários problemas técnicos, incluindo aí a péssima qualidade de imagem da cópia enviada. A obra não se decide entre cinema e vídeo-arte, o que não seria um problema se ambos fossem executados com maestria. Ponto para o interessante efeito de light painting usado no fim do curta. De qualquer forma, “Fôlego” é uma iniciativa corajosa dessa nova geração, dando a cara para bater num grande festival como o Cine PE.
Esbarrei, em seguida, com uma situação que achei que não fosse mais encontrar em festivais: filmes que duvidam da capacidade de entendimento do público. “Matriuska”, de Pablo Pólo, é um desses casos. “Narra situações e sensações de 05 mulheres. Com uma linguagem poética e menos linear, essas 05 mulheres surgem na tela como em contos.” Diz a sinopse. Mas o que se viu foram cinco situações aleatórias, que envolviam mulheres que não tinham nenhum ponto em comum. O filme é baseado num livro homônimo, e esse sim seria o ponto de confluência dessas cinco histórias — mas em momento algum isso fica claro. O filme tem uma sequência em still de estética impecável, uma direção de arte e fotografia muito bem cuidadas, bons atores e soluções, mas peca por não dar crédito ao seu público.
“Lula em cortes” é um documentário dirigido por Marcos Santos que narra a trajetória do pluri-artista pernambucano Lula Côrtes. Não há nada de muito novo ou surpreendente no material apresentado na mostra a não ser a irritante obsessão por macros do diretor — dos dez minutos de documentário, cinco são seguramente de uso desta técnica. Vez ou outra algo interessante é focado, afinal, quando se atira a esmo, em alguma coisa se acerta. Mas a iluminação natural proporcionada pela proximidade da praia (o cenário é a casa-ateliê do artista, que fica à beira-mar) dá uma cor bonita à boa parte do filme.
Lia de Itamaracá é figura emblemática do folclore pernambucano. Cantadeira de ciranda, devota de Iemanjá e de uma simpatia ímpar ela é personagem principal do documentário de Hanna Godoy “O mar de Lia”. Com a direção acertada de tom informal, o filme deixa o espectador à vontade dentro da casa da cirandeira, onde ela nos recebe e cozinha enquanto conversa sobre a vida e a carreira. O documentário tem um belo trabalho de pesquisa e nos brinda com imagens raras do início da carreira de Lia.
“Profissional da noite” de Kleber Dibianchi, acaba por repetir as falhas citadas em “Lula em cortes” — não traz nada de novo e utiliza um formato cansado e extremamente didático de se fazer documentário. Mas o personagem central do filme, um dono de casas noturnas conhecidas como “zona” aqui em Recife, nos arranca boas risadas com tiradas memoráveis como “Gosto de mulheres, mas prefiro a boemia”. Chega até a comover com sua história de vida sofrida e sua reviravolta positiva no final.
“Você é feliz?” É a pergunta que abre o documentário “Retratos”, último curta da noite, de Léo Tabosa e Rafael Negrão, tratando da marginalização das travestis. A abordagem do documentário simples, quase caseiro, vai na contramão do preconceito, nos apresentando travestis que trabalham, estudam e desempenham um papel social diferente daqueles imaginados por boa parcela da sociedade. O filme flui bem e comove o público com personagens carismáticos, como a travesti Manuela Duarte, bem nascida e dona de uma rede de pousadas em Pernambuco. Tudo soa meio clichê, mas o documentário não perde muito por isso. O filme é vencedor dos prêmios de melhor vídeo e melhor direção no Focus Brazil Video Fest, realizado em Fort Lauderdale, na Flórida.
As pontes invisíveis
“Não é um filme institucional, é um filme sobre o impacto da educação na vida das pessoas”. Esta foi a declaração que o jornalista e cineasta carioca Eduardo Souza Lima deu sobre seu segundo longa-metragem e o primeiro noite, o emocionante e retratista “Travessias”. E assim foi.
A história de três jovens de cidades e realidades diferentes nos é apresentada pela câmera crua de Eduardo – produtor, cinegrafista, técnico de som e diretor do filme. Maria Severina, jovem adulta, em seu segundo casamento e com duas filhas (o terceiro vem durante a realização do filme), e os adolescentes Ewerton e Cristiano têm em comum o desejo de concluir os estudos para crescerem na vida. Com perspectivas pessoais completamente diferentes, eles formam a trama sólida do documentário que nasceu como um projeto para TV — perceptível no formato da produção. Travessia é o nome do projeto, parceria entre iniciativa pública e privada, no qual os personagens encontram a oportunidade de ouro para realizarem seus sonhos de formação. O filme acompanhou seus percalços durante dois anos da travessia de suas vidas, interligadas por pontes invisíveis de superação; indo além da questão educacional e/ou didática, ele adentra a vida de cada um de seus personagens, oferecendo histórias únicas.
Realizado em formato digital, há uma crueza e um toque de “cinema verdade”. A câmera diegética de Eduardo Souza Lima capta momentos importantes da vida daquelas pessoas — mas há uma diferença de qualidade na captação das imagens do meio pro fim do documentário. O filme também tem picos de ritmo, o que não prejudica em quase nada o seu resultado final.
Nas rodas de choro ou Que vontade de tocar um chorinho!
O clima saudosista que pairava no ar do novo-velho Cine São Luiz parecia ter tomado a tela quando os primeiros acordes dos bandolins e cavacos chorões soaram as primeiras notas do contagiante documentário musical de Milena Sá, “Nas rodas de choro”. Filme produzido e captado parte no Rio, parte em Recife, afirma a importância da roda de choro no desenvolvimento do gênero.
O filme encanta a todos por ter uma quantidade generosa de grandes números musicais, com grandes nomes do cenário chorão atual, como Nilze Carvalho e a apoteótica Banda Portátil da Escola de Música do Rio de Janeiro, além de um projeto gráfico muito bem cuidado. Mesclando fotos das antigas rodas de choro na casa de Jacob do Bandolim — importante figura para o desenvolvimento do chorinho e anfitrião de umas melhores rodas de choro do Brasil — a acordes e partituras, o visual do filme pesa a mão no saudosismo lírico, mas acerta o público em cheio. Acaba compensando algumas falhas técnicas (como um microfone tipo boom que aparece quase inteiro na tela, em determinada cena), sua fotografia convencional e a direção que vai no mesmo sentido.
Citando e revivendo grandes nomes, entre Pixinguinha e o Conjunto Épocas de Ouro, o documentário vai tecendo uma história linear, meio plana, mas rica em detalhes graças à participação dos integrantes de antigas e influentes rodas de choro dos cenários musicais carioca e recifense. A produção desemboca no lugar comum, nos oferecendo uma palhinha da nova geração do choro dos dois estados e termina numa grande e deliciosa roda de choro, que nos faz sair tocando air-bandolim do cinema.
3 comentários para “Pernambuco se mostra”
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26 de abril de 2010 às 13:52
Olá, Du. Tava esperando pela matéria do Zé Pereira da Mostra Pernambuco e foi um alívio ver que vocês estão optando por uma cobertura crítica, coisa de que sinto falta mesmo nos principais veículos (Para o DP, o Cine-PE só está começando HOJE, na segunda-feira…). De fato, a crítica para cada trabalho exibido na noite (independente do conteúdo) foi uma grata surpresa e acho que serve como um puta estímulo pra quem faz filmes independente do conteúdo da crítica.
Outra boa surpresa pra mim foi a qualidade da projeção dos vídeos. Tenho sofrido um bocado em festivais por aí, mas ontem a tela estava bacana, e (pasmei!) o pessoal da projeção estava atento ao formato da tela! Pode parecer besteira, mas ontem foi somente a terceira vez em que vi meu filme ocupar a tela inteira do cinema! Só algumas ressalvas de filmes que passaram “esticados” para os lados (como o “Aqui Mora Uma Pessoa Feliz”) ou com o letterbox que deixou a tela minúscula (como no “Fôlego”), mas acho que é só uma etapa na evolução que demorou para acontecer, mas que PARECE estar engrenando. Vamos ver…
27 de abril de 2010 às 2:33
Puts, obrigada por escrever as críticas de todos os filmes exibidos na mostra. Estava louca atrás, mas só achava descrições. Adorei as tuas observações sobre os curtas, conseguisse captar os principais pontos mesmo com aquelas intervenções cansativas do público…
Quanto ao que tu falasse de “Fôlego” eu realmente me incomodei com a qualidade da imagem, já que usamos até uma câmera legal, tendo problemas na captação para o pc. Mas, estou muito orgulhosa por meu primeiro trabalho mais sério está logo na Mostra PE, com o São Luiz lotado! Além do mais, “Fôlego” foi um dos únicos sem apoio e patrocínio de ninguém, fruto do nosso suor (e haja suor!) e da velha “brodagem”.
PS.: Como Daniel falou acima, foi triste ver o filme naquela dimensão minúscula, o que nos prejudicou um pouco. Mas, faz parte.
28 de abril de 2010 às 22:30
Os seus comentários se baseiam em que tipo de conhecimento, pois, me parece que se baseia num parcialismo conhecido como “bajulação” aqui em recife. Para de falar besteira sobre o que você não conhece, pois, diante dos termos por você utilizados, dá para perceber o seu nivél intelectual, que só serve para bajular alunos da UFPE, e os diretores mais conhecidos.