4 de agosto de 2008
Patrulha de Elite
Por Arnaldo Branco
Abraham Lincoln, que disse ser possível enganar todo mundo parte do tempo, ou alguns o tempo todo, mas impossível enganar todo mundo o tempo todo, não conheceu o Arnaldo Jabor. Ele pelo menos consegue <em>se</em> enganar o tempo todo. O parágrafo acima é avulso, nem comecei e já digressiono. A coluna de hoje é sobre as primeiras críticas negativas a Tropa de Elite, todas baseadas na comemoração tipo “zerei o counter strike” do público que assistiu a pré-estréia. Eu mesmo acho que gritar “caveira!” depois de ver o filme é uma forma de sublimar um “gostoso!” para o Wagner Moura (admita, classe média, essa postura de donzela em perigo diante do crime é muito gay) mas defendo até a morte, ou pelo menos até o desfalecimento, o direito de cada um reagir como quiser. Ruídos na captação da mensagem já custaram a vida de mais de um metaleiro retardado que achou que sua banda favorita gastou 20 horas de estúdio só para mandar recadinhos sinistros para as vozes dentro de sua cabeça, mas esse é o preço da liberdade de expressão e da evolução da espécie. A reação contra o filme é típica do politicamente correto e o politicamente correto é basicamente contra o livre arbítrio. O autor que conta com a inteligência do público só deve fazê-lo em caráter excepcional. Dizem que quando o artista precisa se explicar para seu público um dos dois é débil mental, mas conhecendo a capacidade de interpretação e abstração do espectador médio, é melhor o diretor do filme se garantir. E aposto que o José Padilha é esperto o suficiente para realmente acreditar que o Bope é mesmo incorruptível ou que aquele ator com os cornos do Felipe Dylon passa credibilidade enquanto maconheiro. Ninguém perde dinheiro por subestimar a habilidade cognitiva da platéia - aliás, pelo contrário, geralmente é um bom investimento - mas a crítica parece ter a mesma dificuldade em distinguir realidade de ficção. E também acho que sempre se superestimou a capacidade da arte em influenciar o meio; antes acontece o contrário. Vê se na Suíça existe esse subgênero de thriller de ação no gueto. O destino do artista na Terra é mesmo ser mal-interpretado, mas como o dinheiro de um espectador sem noção vale tanto quanto o de um razoavelmente esclarecido, fica como prêmio de consolação. Como dizem os instrutores da Amway: boas vendas, Tropa de Elite.
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