9 de outubro de 2009
Para o alto e avante!
BLOG, FIQ 2009, Quadrinhos
Terceiro dia do 6º FIQ tem aumento de público para a segunda homenageada do evento, discussão sobre o mercado de quadrinhos e o desenhista Ben Templesmith
Por Dandara Palankof
Fotos: Rose Lima
Vídeo: Eduardo Souza Lima
Se o temporal que caiu na noite de quarta-feira em Belo Horizonte causou transtornos à cidade inteira, não seria diferente com o FIQ. A tenda Eugênio Collonese, que abriga os estandes do evento, passava por uma total reorganização na tarde de ontem. O da Livraria Leitura, com um respeitável acervo de gibis trazido para o Festival, foi o mais prejudicado, com dezenas de volumes prejudicados pela água.
Mas o teatro João Ceschiatti continua sendo um abrigo seguro, e foi lá que Ciça Fittipaldi, a segunda homenageada deste 6o FIQ, foi conversar com os poucos presentes, que encheram um pouco mais o lugar ao longo do bate-papo, bem informal, inclusive com Ciça puxando sua cadeira para a beira do palco e dispensando a mesa.
A desenhista afirmou que não tinha conhecimento do Festival, mas que não pensou duas vezes em aceitar o convite. Contou do começo da carreira, quando estudava Arquitetura na Universidade de Brasília e passou a fazer ilustrações para um jornal local para se sustentar. “Desenhei, muito mal, aliás, durante dois anos no Jornal de Brasília, até a ditadura me expelir”, disse Ciça. E ressaltou a influência da dança em sua arte. “Desenho é a apreensão do espaço; e a minha foi construída pela dança”.
Hoje professora em uma universidade do Goiás, contou que a vida acadêmica surgiu em um momento de hiato, quando haviam se mudado para o estado após saírem de São Paulo, na época do Plano Collor. “Eu trabalhava só com ilustração, e de repente as editoras cancelaram todos os trabalhos. E Goiânia é ótimo pra um artista ser enterrado, não pra emergir”. Sem perspectivas com o trabalho exclusivamente artístico, aceitou o convite para dar aulas, e acabou criando a disciplina de ilustração. “Mas brigo todo dia com a rigidez da vida acadêmica.”
Como influências, Ciça citou nomes de Portinari a Cássio Loredano, mas disse que aprendeu mesmo com os índios Carajás. “Eles são mestres da forma, e o desenho, o ensino do desenho às crianças, é parte de sua cultura”, contou a artista que tem vários trabalhos com referências às comunidades indígenas.
Perguntada se nunca pensou em fazer quadrinhos, a artista disse que na verdade ela começou assim. “Eu conheci o Jô Oliveira em Brasília e a gente lançou uma revista chamada Risco, que durou três números. Tinha uma coisa meio cafona de ‘a hora e a vez do quadrinho do cerrado, enfim. Ele nem sabe disso, mas quando fui levar o primeiro número pra gráfica, deixei a pasta com as páginas em cima do carro e só notei quando cheguei lá. As crianças tinham recolhido tudo, distribuído, e tal, mas em dois dias consegui achar tudo. Depois ainda quase fiz umas histórias eróticas pra uma revista masculina chamada estilo, mas acabou não acontecendo.”
As mesas
Abriram os trabalhos os editores Sílvio Alexandre, a francesa Gisele de Haan (ex-Dargaud) e a americana Sierra Han (Dark Horse). Alexandre abriu a exposição com alguns números do mercado brasileiro, como o fato de 60% dos livros no Brasil estarem nas mãos de 20% da população e que as mulheres lêem mais, atestando o atual crescimento do mercado de HQs no Brasil.
Gisele (que se empolgou a ponto de esquecer de parar para que o tradutor pudesse acompanhá-la) contou que o atual mercado francês de quadrinhos movimenta cerca de 350 milhões de euros, entre 15 grandes grupos editoriais e independentes, sendo 40% de mangás, outros 40% dos franco-belgas e restante de obras diversas.
Para iniciar sua fala, a simpaticíssima (e fofa) Sierra contou que começou no departamento de publicidade da Vertigo, onde podia “espalhar o amor” pelos quadrinhos, mas que sempre quis editar; com formação em literatura inglesa, ela crê que o melhor aprendizado para seu trabalho é a convivência com os artistas. Para ela, o maior desafio do mercado americano hoje é resgatar os leitores e atrair as mulheres para a leitura de HQs, além de reduzir o preconceito de uma população que ainda pensa que quadrinhos restringem-se aos super-heróis.
Também vê as releituras (de filmes ou séries) como um bom negócio, mas ruim artisticamente, por tomar o espaço de autores originais. E comentou que o formato de comic shops está morrendo, com cada vez mais espaço nas livrarias.
Perguntados sobre como os novos meios (video-games e internet) moldam o mercado de HQs, todos concordaram que é essencial a presença on-line. Sierra comentou que o desafio, no caso, é como passar algo tangível para o monitor de forma orgânica. E Gisele acrescentou que, como o mercado francês sempre foi voltado para adultos, estes novos meios só tem a acrescentar, em vez de necessariamente constituir uma concorrência.
Perguntado sobre a existência no Brasil de projetos em que o artista é pago com antecedência para desenvolver um projeto, Sílvio comentou que a prática do adiantamento de direitos tem se tornado cada vez mais comum, ao contrário de alguns anos atrás. Gisele então respondeu a respeito do segmento de histórias auto-biográficas, afirmando que ainda é relevante; enquanto Sierra (esposa de Craig Thompson, autor de Retalhos, exatamente deste gênero) afirmou que ele sempre terá espaço, por suas histórias terem sempre alguém com quem o leitor pode se conectar.
Para encerrar, sobre o que falta para a HQ nacional acontecer, Silvío disse que já está acontecendo, e citou o crescimento das compras de material pelo governo como fator essencial. “Nos anos 1980, o governo fez a mesma coisa com os livros infanto-juvenis e estimulou o crescimento das vendas e a procura por profissionais; hoje é a maior fatia de nosso mercado literário. O mesmo deve acontecer com os quadrinhos, em proporção similar. Ainda não dá pra viver de HQ no Brasil, mas a perspectiva é boa”, concluiu.
E para um cara que vive basicamente de fazer gibis de clima denso, o desenhista Ben Templesmith cria em seu redor o clima que é a antítese de seu trabalho. Na mesa das 20h, com o teatro João Ceschiatti quase lotado pela primeira vez no festival, o que mais se ouviam eram risadas, como quando ele respondeu sobre quando ele percebeu que podia viver de quadrinhos. “Há uns 7 anos. Meus pais olharam e disseram, ‘Sério?! Tá dando dinheiro?! Então não precisamos te expulsar de casa!’ Aí eu peguei meu primeiro pagamento e me mudei.”
Sobre como adquiriu seu estilo, afirmou que estilo é feito de seus próprios erros, é algo próprio. Mas disse também que, apesar de sempre ter feito sua arte desta forma, teve como influências os ilustradores Victor Ambress e, quando mais velho, Ralph Steadman. Colocado como divisor de águas dos quadrinhos de terror modernos (“Antes de BT e Depois de BT? Soa bem!”), o desenhista disse que o lado bom é que é gratificante ser digno de cópia; por outro lado, é triste que novos artistas não se esforcem em exercitar sua própria visão.
Templesmith destacou ainda a importância das redes sociais da internet. “Sou insano, e ficaria mais ainda sem usar a rede”, brincou. E aproveitando o ensejo, também colocou uma visão dual sobre os scans. “É bom porque há lugares aonde meu trabalho não chega. É ruim porque eu não desenho Batman e Superman; se meu trabalho não vender, não sou pago.” E ainda nesta sessão geek, alguém reportou a Warren Ellis, via Tweeter, por um iPhone, o que acontecia no painel e recebeu de volta um “O que você está falando mal de mim no Brasil, seu bastardo sujo?”, ao que Templesmith respondeu “Só coisas boas. Viu, Warren, eu te amo, mas não é minha culpa se perguntam por Fell.”
Numa provocação sobre se adaptaria Crepúsculo (“Só por muito dinheiro”), o desenhista acabou revelando que recebeu um convite para trabalhar com o design dos personagens do terceiro filme da série (o diretor é o mesmo da adaptação de 30 Dias de Noite); e que sua graphic novel Welcome to Hoxford pode ser adaptada para o cinema por Chris Columbus.
E no último chiste, perguntado sobre o que faria se numa sessão de autógrafos lhe jogassem à mesa o livro How to Draw Marvel Comics, Templesmith soltou de cara um “Eu não sou o Rob Liefeld!”, arrancando gargalhadas e aplausos do público. “Mas se acontecesse, mandaria a pessoa se foder e que não preciso aprender a desenhar no estilo Marvel. E lhe daria um livro Como Desenhar do Jeito do Ben Templesmith.”
Entrevista – Ben Templesmith
O talentoso desenhista australiano Ben Templesmith, não bastasse ser engraçado e simpático, é também disponível e paciente (pare pra pensar em quantas pessoas merecem tantos adjetivos em uma mesma frase): durante esta entrevista, nem se incomodou com as mudanças de humor do laptop que teimaram em acontecer. “Relaxe, é o Windows.”
Sua primeira vez no Brasil, o que tem achado?
Na verdade, vi muito pouco, mas estou gostando. Passei por São Paulo, primeiro, que é a maior cidade daqui, não é? Belo Horizonte é um pouco menor, mas é legal, também. As pessoas são amistosas. O pessoal do Festival é muito atencioso, me ajudou bastante com a coisa da bagagem (as malas de Templesmith chegararam à BH dois dias depois dele).
Você conhece algo das histórias em quadrinhos brasileiras?
Não muito… apenas o que me mostraram aqui pelo Festival. Sei que por aqui se lê muito os super-heróis americanos. E que os desenhistas têm ido desenvolver seu trabalho na América. Um bom trabalho, aliás. Gosto muito dos gêmeos [Fábio Moon e Gabriel Bá]. Me fizeram até querer ler mais quadrinhos, eu andava meio sem tempo.
Como se dá o processo de composição das páginas? Que materiais usa, qual o processo pelo qual elas passam depois de serem desenhadas…
Faço o processo da forma mais rápida e eficiente possivel. Uso geralmente um papel cinza, nada de especial, apenas um pouco mais grosso que o normal, para o lápis e o nanquim; aplico as tintas e algumas texturas, depois passo para o computador, onde aplico mais algumas texturas e, por último, a cor. E as vezes alguns efeitos.
Seu trabalho é basicamente de histórias de horror, ficção científica, o noir, coisas mais sombrias. Tem em vista trabalhar com outro gênero?
Sim, gosto muito de história, na verdade, as histórias sangrentas das conquistas. São fatos que mudam completamente a forma como as pessoas vivem. Andei lendo muito sobre os mongóis nos últimos tempos, acho que posso fazer algo com eles, no futuro.
Como é o mercado australiano de quadrinhos?
Inexistente, praticamente. E a produção local também é muito pequena. A maioria dos artistas de lá vai mesmo para o mercado americano.
Sente vontade de trabalhar com super-heróis? Algum em específico?
Bom, não me interessa muito, mas faria, sim. Apesar de provavelmente ter que mudar um pouco meu estilo. Gostaria de fazer o Batman (Templesmith tem um desenho especialmente feito para a exposição dos 70 anos do Batman no FIQ), ou o Motoqueiro Fantasma, talvez o Justiceiro. Mas gosto mais de qualquer outro estilo.
Seus mais famosos trabalhos, 30 Dias de Noite e Fell, foram feitos com Steve Niles e o grande Warren Ellis. Existe algum roteirista com quem você queira trabalhar no momento?
Não, trabalhei com o Warren Ellis, já posso morrer em paz! Ele é o meu favorito. Existem outros bons roteiristas com quem seria interessante trabalhar, mas não tenho nenhuma ambição neste sentido. Já conquistei o que queria. Agora, não trabalharia com o Alan Moore. Daria muito trabalho lidar com aqueles roteiros excessivamente detalhistas.
Quais os seus próximos projetos?
Em fevereiro do ano que vem eu lanço “Choker”, pela Image Comics, com um roteirista inglês chamado Ben McCool. É, esse é o nome de verdade, mesmo. É uma história de detetive, ambientada num futuro bem estranho, com toques de horror e humor negro.
O que você gosta de ler atualmente?
Gosto mais de ler as coisas das editoras pequenas e da Image, gosto muito da diversidade deles. “Umbrella Academy”, do Bá, “Viking”, do Ivan Brandon… gosto muito do “Hellboy”, também. E de “Mortos-Vivos” (publicado no Brasil pela Editora HQM).
Exposições – Parte II
Pertencente à Mostra dos Convidados, a organização do FIQ trouxe vários originais de Craig Thompson para integrar a exposição. Muitos deles são páginas de Retalhos, graphic novel responsável pela sua vinda, outras de Chunky, seu primeiro trabalho autoral, e ainda de Habib, sua próxima obra a ser publicada, com foco no Islã. Mas o mais legal mesmo é uma das histórias de uma página que o artista publicava na revista da Nickelodeon, sob o pseudônimo de Craigory Thompson.
Como homenageado do festival, é claro que caberia ao mestre Renato Canini uma das maiores exposições. Localizada na área externa do Palácio das Artes, conta com grandes painéis que fazem um apanhado de toda a carreira de Canini; a Revista Recreio, o Zé Candango (na época da CETPA), Kactus Kid e, é claro, o Zé Carioca. Também estão lá, protegidos em um balcão de vidro, é claro, alguns exemplares de seus gibis antigos, além de livros como Cadê a Graça Que Tava Aqui? e Dr. Fraude.
Em tamanho e conteúdo, a mostra de Quadrinhos Chineses é, com certeza, uma das maiores do FIQ. São vários artistas com dezenas de páginas originais espalhadas pelas paredes da galeria; do realismo neón feito em computador de Benjamim (um dos artistas mais presentes, contando também com vários esboços) até as fábulas cartunescas de Zhu Le Tao. Há ainda o experimentalismo de Song Yang e o conto do oriente medieval de “A Bela do Templo Assombrado”, exposta quase que em sua totalidade, pelo traço rachurado de Nie Chongrui. E isso é só o começo. Uma dessas exposições pra se ver com bastante tempo disponível.
Já uma das mais criativas é, com certeza, a exposição Cartum e Futebol; diversos cartunistas tiveram suas obras colocadas em pranchas, dispostas sobre uma plataforma verde como peças de um jogo de totó (ou pebolim, dependendo de onde você for); sobra pra todo mundo, do juiz aos torcedores, impagavelmente retratados.
Deixe um comentário
- Ota mostra como se faz
- Granadilha cai na rede
- Hoje morreram os X-Men
- O segredo do abismo
- Um estranho numa terra estranha
- Plano 9 do espaço sideral
- Viver a vida
- Vidão
- Só com receita médica
- Canto inferior direito do último quadro
- Para os que têm fôlego
- FIQ extravaganza!
- A noite do Morcego
- Para o alto e avante!
- Entre o cult e o popstar nas HQs brasileiras
- O vasto mundo das histórias em quadrinhos
- Viajando entre sarjetas
- Allan Sieber é mainstream
- Solidão e álcool
- Princesinha do noir
- Guerreiro do azulejo
- Tainhas e saúnas
- Quis custodiet ipsos custodes?*
- O sonho de Menezes
- Livros de arte
- Bzão em Niterói
- Desenhando pelo mundo
- Onipresença
- Mutarelli dá as caras
- O eterno retorno

















