Não é de hoje que se fala sobre as mensagens subliminares e deseducativas disseminadas pelos perigosos Walt Disney, Stan Lee e Maurício de Souza. Por isso, esta semana, nosso Arnaldo Branco esbanja erudição, recorrendo a Seinfeld, Cebolinha e Flaubert para mostrar o que é que os quadrinhos não têm.
Se Zé do Caixão adaptasse “Alice no País das Maravilhas” ia ser alguma coisa mais ou menos como Henry Darger. Os dois são exemplos de brilhantes - e chocantes - de artistas primitivos cujas obsessões transcendem simples sintomas de psicose ou outros distúrbios psicológicos para se tornarem arquétipos de nossos mais profundos medos e desejos, aqueles enterrados lááááááá embaixo sob toneladas de socialização. José Mojica Marins, apresentador de talk-show, colecionador de quadrinhos, casado várias vezes, grande vendedor de si mesmo, conseguiu transformar suas manias em meio de sustento, mas Henry Darger (1892-1973), faxineiro praticamente a vida inteira, morando num quarto em Chicago, laboriosamente preparando sua saga de mais de 15 mil páginas e centenas de ilustrações ricamente coloridas apenas para seus olhos e de ninguém mais, nunca conseguiu botar sua expressão artística para trabalhar pra ele, muito pelo contrário.
Já a menção a “Alice no País das Maravilhas” é pela óbvia pedofilia sublimada em expressão artística num bizarro mundo alternativo. Darger não era um letrado clérigo fotógrafo e matemático; na verdade seu conhecimento de arte era virtualmente nulo, afora a da cultura de massa. Aos 8 anos, após a morte da mãe, foi admitido num orfanato católico, sendo transferido para um sanatório depois de diagnosticado como masturbador. Fugiu aos 16 anos, alistou-se no exército e passou o resto da vida trabalhando como faxineiro, lavador de pratos e afins. Aos 24 anos começou a escrever o que se tornaria um trabalho de seis décadas. Darger teve um único amigo um pouco mais íntimo, assistia à missa compulsivamente e era tímido e calado. Apenas às portas da morte, quando seu senhorio abriu seu quarto, é que o mundo tomou conhecimento de sua obra. A partir dela, foi diagnosticado desde psicopata assassino enrustido a esquizofrênico, mas todos os relatos de gente que o conheceu indicam que ele, como o Marins, a despeito de diversos problemas, tinha controle sobre sua vida. leia mais…
Monterey Pop Festival, junho de 1967. Ele sola com a guitarra nas costas e toca com os dentes, na apresentação que o consagraria de vez junto ao grande público americano. Mas quase ninguém repara na letra da canção:
- E aí, Zé, onde é que cê vai com essa arma?
- Eu vou dar um tiro na minha mulher. Ela tá me corneando com outro cara!
Essa conhecida música folk americana, de autoria controversa, já fora gravada por outros artistas, antes do nosso James Marshall transformá-la num ícone do rock. Seu tema é recorrente no sertanejo, nos boleros, nas cantigas medievais… Até o ministro Gil bebeu dessa fonte.
“Hey Joe” foi, ainda, a música com que o mesmo Hendrix encerrou outro festival, o de Woodstock. Mas décadas depois do maestro da guitarra ter partido, certos caras continuam achando natural meter bala e porrada nas cachorras, desde que por uma boa razão, é claro. Do mesmo modo, como dizia Simone de Beauvoir, uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher… com muita localizada, botox, wellatone e silicone. Pelo menos para as mais pops old ladies da Era de Aquário, a emancipação se conquista com a bunda mais marombada da avenida, ou com um boquete embaixo do edredon platinado. Desde já, parabéns a todas pelo dia de amanhã.
Jarbas pegou o cacho de uvas e começou seu discurso ligeiramente esquizofrênico:
- Nós comemos filhotes.
- Filhotecídio? Do que você tá falando? - Perguntou Jonas, ainda olhando fixamente para o teto.
Botou o cacho na cara de Jonas, apontando para aquele amontoado de uvas, e disse “Fruto, filhote. A uva é filhote do cacho…” Ambos encararam o cacho, porém, Jarbas o encarou como um motoqueiro bêbado querendo arrumar briga, os olhos arregalados e sem senso de direção, talvez? leia mais…
O gato amarelinho, vivo, mínimo. O cérebro neblinado, condescendente, generoso, ébrio. Não deu outra: peguei o animalzinho pelo cangote, gesto que o fez assumir a posição reveladora de sua pronunciada barriga de felino bebê. Subi as escadas batendo pelas paredes caracachentas, pintadas de verde água. Quem tava n’água era eu, após quantidade considerável de Caninha da Roça e outros alteradores pouco mais nobres do que essa deplorável água (mais uma vez a água)ardente.
Travei violenta luta corpo a corpo com as fechaduras, quase desistindo após a terceira volta na Papaiz renitente. Até que lembrei: a bolinha prazima, a bolinha tem que vicar prazima.
Abriu.
Passo pela microentrada do apartamento, ancorado no longíquo oceano de Bonsucesso, Avenida Bruxelas, 73, 301. A samambaia ressecada me agarra pelos cabelos, aperto o gato, ele mia. Faço a curva, entro na sala e desabo no sofá repleto de almofadas sobre o colchão de capa verde estampada, ano após ano seviciada noites adentro por corpos melados de álcool e algum sexo.
Dividia o apartamento com o imponderável Zé José, então protagonista, na “Tribuna da Imprensa”, de implacáveis críticas musicais que vitimaram em especial um certo gordo Ed e o lupino roqueiro, avec ou sem a menor elegance. Éramos sócios cotistas de um certo mineiro que vendia angu na saída da estação. Por sobre a gororoba amarela uma concha gigante cheia de rins, coração, fígado e pulmões de porco. Quase toda noite batíamos aquele pratão e depois levávamos outro tanto para o caso de súbita fome alvoroçar as barrigas. leia mais…
Era o filho da empregada que estudava no piano da patroa. De Alfredo José da Silva, virou Johnny, numa brincadeira da turma do cursinho de inglês. Um mulato carioca que curtia jazz. Um cabo do exército (como o pai) que trabalhou na noite e conviveu com João Donato, Dick Farney, Luiz Bonfá, Carlos Lyra… e Dolores Duran (a quem namorou). Em defesa dele, Vinicíus vaticinou que sampa era o túmulo do samba. Em seu piano nasceram os acordes que anteciparam uma das grandes viradas da MPB. Seu maior sucesso foi desclassificado no festival, mas ganhou o país. Lançou seu último disco em 2006 e se foi, hoje, aos 80. Seria, talvez, milionário, não tivesse nascido na terra que adora esnobar a própria bossa. Nessa sina tupiniquim, o inesperado quase nunca faz uma surpresa.
“Eu nunca vi um deus antes”, diz, em certa altura, o sr. Chekov em “O lamento de Adônis”. É porque ele só entrou no elenco na segunda temporada, senão já estaria de saco cheio deles. Tanto que logo na segunda aparição dele no seriado já dá de cara com um.
Mais uma vez a nossa espaçonave favorita topa com um ente semidivino com um inaudito interesse na raça humana. A diferença é que dessa vez ele realmente se apresenta como um deus, e como um deus terráqueo: o bom e velho Apolo. E para provar como ele tem realmente conhecimento de mitologia, está usando um traje que talvez fosse barrado no Grande Gala Gay por ser muito gay (Apolo era chegado). leia mais…
Dizer que o Recife é uma cidade violenta é tão lugar comum que não vale nem a pena se estender muito sobre números ou coisas do gênero. Uma busca rápida no Google e você já acha o PE Body Count, por exemplo; igualzinho ao que existe no Rio de Janeiro, que por sua vez é uma versão do que fizeram para contar os mortos na guerra do Iraque. Mais um pouco e você consegue encontrar uma série de notícias, seja sobre vítimas e ocorrências, seja sobre o que se pretende fazer quanto a isso (nada realmente efetivo, diga-se de passagem).
O que se pode comentar são as razões. Fora também do lugar comum de ser uma cidade com imensos bolsões de pobreza e cada vez mais tomada pelo crack, que está simplesmente transformando uma parte significativa da população em, bom, zumbis (e o pior que nem ao menos são os do Romero, lentos, que lhe dão mil oportunidades de esmagar a cabeça deles; são tipo aqueles de Extermínio, o filme do Danny Boyle, no qual eles são rápidos e ensandecidos; enfim). leia mais…
Talvez seja porque tenha a música como um elemento básico e fundamental na vida, talvez por puro delírio, mesmo (com esse calorão que andou fazendo…). O caso é que na semana passada, associei símbolos musicais, ritmo e melodia a vários dos lugares em que estive e cenas que presenciei – algumas delas registradas nesta edição do Fotodiário. Começando pelo sábado – com direito a “legenda” tipo poema-concreto (rap?) impressa no asfalto da Ortiz Monteiro para marcar o lugar de uma barraca, na feira. - E seguindo com o passeio de carro pela Atlântica, no meio da tarde. Parado num sinal, abri a janela e fotografei o vai-e-vem no calçadão. A imagem, mistérios eletrônicos, acabou contaminada pelo desenho ondulado do calçadão, que aos meus olhos, é uma espécie de partitura em pedrinhas da bossa nova. A bossa “O barquinho” me acompanhou, mais adiante, no Aterro, quando resolvi dar uma entradinha no Monumento a Estácio de Sá – que mostra uma das mais belas vistas da baía. leia mais…
“Geral”, novo curta-metragem de Anna Azevedo, foi selecionado para o Hot Docs 2010, o mais importante festival de documentários das Américas. É o segundo filme da diretora a ser exibido no evento, que acontece em Toronto, no Canadá, este ano, de 29 de abril a 9 de maio - há dois anos ela concorreu lá com o anterior, “Dreznica”. O curta foi rodado nos quatro últimos jogos da geral do Maracanã.
Ano de eleição, temporada de boatos, tempo de caixa de e-mails lotada de falsas denúncias e afins. Em sua coluna desta semana, o Arnaldo Jabor Branco manda avisar que vai tratar este tipo de correspondência como spam, sem dó nem piedade. Leia aqui.
A vitrine da estufa olhava fixamente dentro de meus olhos, por trás de suas retas retinas vítreas, banhados em banha, pedaços de porco seduziam. Perguntei se era barriguinha, mas Joel disse que era papada. Ô Joel, então bota aí pra gente provar e abre a meiota de Engenho do Vovô.
Assim começa meu carnaval em Mundo Novo, distrito de Dores do Rio Preto, lá na Serra do Caparaó.
Mas não ficamos na cidade, ficamos numa casinha cravada na serra, mais acima. Um terreiro de café diante a casa era nosso planetário. Não havia luz perto da casa, apenas capoeirão e uma mata cheia de Canelas, Embaúbas prateadas e Quaresmeiras. Nessa época do ano, seria comum chover a não mais poder, mas a seca e o céu limpo tornava as estrelas tão vivas e tocáveis quanto os vaga-lumes que por lá também ocupavam sua parte no firmamento. leia mais…
Vou escrever uma paródia dessa música pro Quanta Ladeira do ano que vem. Chamar-se-á “Intelectual calhorda”: “Mas quando abre a boca, ele é cabeça oca, ele é cabeça oca!”.