26 de abril de 2010
Pães e circos
BLOG, Cine PE 2010, Cinema
Segunda e última noite da Mostra PE traz da arte à política
Por Eva Jofilsan
Fotos de Alexandre Sá
O encerramento da mostra que abre o XIV Cine PE, assim como na noite anterior, lotou o clássico cinema São Luiz (a fila para entrar dobrava o quarteirão da Rua da Aurora com a Avenida Conde da Boa Vista). Realmente, um ponto positivo na mostra deste ano: em 2009, o evento foi realizado no Cinema da Fundação, o que causou uma série de problemas por conta da falta de estrutura do lugar para comportar tal evento.
Porém, assim como no ano passado, boa parte do público era de parentes e amigos dos realizadores. Alguns já conhecidos do público do festival, como Luci Alcântara (que no ano passado estreou o longa “Geração 65: Aquela coisa toda”, também na Mostra Pernambuco); ou Amaro Filho, da produtora Página 21, que esse ano trouxe o documentário “Tereza - Cor na primeira pessoa”. Outros realizadores estavam apresentando seus filmes pela primeira vez — houve também uma boa leva de filmes universitários, ou realizados como conclusão de cursos de cinema digital. Nesse mix de estreantes e afamados realizadores foi que se deu a noite de ontem.
O primeiro filme da noite era parte dessa leva de estreantes. “Balé”, dirigido por Caio Sales, começa com um momento de café da manhã entre Rita e um rapaz (seu neto, talvez). Sem que nenhuma palavra seja dita, acompanhamos momentos dessa mulher, seu balé rotineiro e pouco admirado. Os sons do filme parecem criar uma cacofonia, ascendendo à música do final. Temos aqui uma série de planos (principalmente o contraluz) que transmitem com perfeição essa atmosfera, esse balé. Porém, a repetição exagerada de idéias, de planos e de iluminação transforma-se em redundância imagética, num determinado momento, e o balé fica previsível.
Um bom entrevistado é fundamental na construção de filme documentário. Claro, ter apenas uma figura cheia de anedotas não garante o sucesso total, mas já ganha pontos por atrair a simpatia do público. No documentário “Tereza - Cor na primeira pessoa”, de Amaro Filho e Marcílio Brandão, percebemos logo a facilidade com a qual a artista plástica pernambucana Tereza da Costa Rêgo cria essa ligação facilmente — bom exemplo é que, durante o passeio pelo seu ateliê, Tereza passa toda a entrevista de óculos escuros; em tese, isso criaria um afastamento entre ela e o espectador; mas já estamos tão arrebatados que não sentimos incômodo. O filme passeia pela vida da artista a partir de sua pintura, mas sem se limitar a ela — os diretores abordam outros temas, como a dedicação ao PCdoB durante a ditadura militar. Tudo no filme flui com leveza: até mesmo contando as histórias mais duras, Tereza consegue transmitir calmaria. A trilha sonora composta apenas de música instrumental foi um importante aliado dos diretores, pois transmite a mesma fluidez que a personagem e os seus quadros.
O curta seguinte começa através do delicado tema da loucura. Porém, depois de alguns minutos, percebemos que a abordagem muda: torna-se a liberdade. “À felicidade”, de Carlos Nigro, usa uma poeticidade muito peculiar para mostrar duas mulheres internadas em um hospício, tentando libertar não seus corpos, mas suas mentes, e alcançar a tão sonhada felicidade. Sem falas, as atuações são teatrais, mas nunca caricatas. No final, o diretor resolve ousar e a estética da montagem muda — o curta termina como uma animação. A beleza e boas saídas imagéticas (como a utilização de borboletas de mentira simbolizando a libertação e a felicidade das personagens) mostram que o jovem diretor já desenvolve sua própria linguagem.
Quando subiu ao palco para apresentar “Amor selvagem”, Evandro José Mesquita primeiro informou que seu filme não era pornô; e segundo, o que era a técnica de stop motion (quem não sabe o que é, vide Google). Diante disso, já fica claro o que é o filme, não é? Usando bonecos Gulliver e Legos, o filme se passa no velho oeste, aonde dois cowboys se apaixonam por uma “bela donzela” e resolvem duelar por esse amor. O cenário e a direção de arte merecem uma citação a parte: a sempre funcional maquete de isopor com colagens no fundo; o sangue, o bom e velho catchup diluído em água. As saídas para a fotografia garantiram a comicidade e a rapidez do filme. Assim, não temos tempo para ver os erros nem os detalhes, pois a história toma toda a nossa atenção. Acho que Evandro realmente apreendeu muito bem o conceito de um bom stop motion.
“Não sei se devo”, de Luís Vitor, é um filme universitário típico (independente e sem dinheiro; logo, filmado dentro do campus) e também um filme de roteiro típico (vozes em off). Em um primeiro momento, tais comentários podem parecer preconceituosos. Mas a verdade é que “Não sei se devo” enquadra-se nesses parâmetros. Mas o faz muito bem. O roteiro é objetivo, como se tudo tivesse sido planejado daquela forma desde o início, e tudo funciona para o desfecho. A voz em off, inclusive, acaba sendo imprescindível para o clímax. A fotografia é bem cuidada, libertando o filme de possíveis pieguices. Uma prova de que filmar na faculdade não é tão ruim assim. Basta ter motivos consistentes para tal.
Raimuno Carrero é um dos autores mais influentes e premiados da literatura pernambucana contemporânea. Suas obras possibilitam inúmeros tipos de criações fílmicas e, ao que parece, uma série de diretores já notou isso. “Ossos do ofício”, direção coletiva dos alunos da Aurora Filmes, é baseado em seu conto “O artesão I”. A trama parece quase uma pergunta: até que ponto pode chegar alguém quando se vê sozinho? Ismael, desempregado, morador de palafita e abandonado pela mulher e pelos filhos, parece caminhar para essa resposta. As memórias nos são apresentadas através de projeções (influência direta do premiado “Superbarroco”, de Renata Pinheiro), mas o uso das mesmas não é abusivo. Os diretores estreantes parecem saber muito bem o que estão fazendo; tanto que criam o tempo todo saídas estéticas para evitar que as palavras se sobreponham às imagens — estas, extremamente bem produzidas, tanto no campo da fotografia quanto da direção de arte. A atuação densa de Washington Machado dá o tom certo ao filme. Quase podemos ler seus sentimentos através da expressão do seu olhar. Um “não” total à superficialidade.
O último curta da Mostra PE é outra adaptação da obra de Raimundo Carrero. “Minha alma é irmã de Deus”, de Luci Alcântara, teve ajuda do próprio autor na construção do roteiro. Diferente do filme anterior, “Minha alma (…)” não transcende o mediano. A história é sobre Camila, uma mulher que é, na verdade, muitas; uma completamente diferente da outra. O filme é ambientado no Recife suburbano, com seus crentes, suas putas, sua realidade peculiar. É pena que a adaptação não faça jus a essas características. O primeiro problema está em colocar não-atores bem conhecidos da cena local, como os músicos da Bande Ciné, Isaar e Roger de Renor, para fazerem papéis de uma realidade que nitidamente não é a deles. Há a tentativa de compor uma atmosfera, mas todos os elementos fluem em direção a outra. Torna-se impossível para quem é de Recife não fazer a ligação com a cena alternativa da cidade. A trilha sonora também demonstra esse distanciamento: as músicas remetem a um universo totalmente distante daquele que o filme pretende abordar. A adaptação, muito literária, atrapalha consideravelmente o elenco na interpretação, resultando numa falta de empatia entre os personagens e o público — a atriz Fabiana Pyrro ainda consegue se destacar dos demais, mas mesmo assim não causa grande impacto. A fotografia também é uma ode ao afastamento; os planos abertos, sempre distantes das personagens, nos causam a sensação que o distanciamento está na própria direção.
Políticas e politicagem
O brasileiro tem uma veia festiva pulsando incessantemente — não importa por quais razões, apenas comemoramos. Até questões que deveriam ter uma outra abordagem terminam virando festa. Eleições são o exemplo maior de como a política é encarada no país. Verdadeiros circos são armados para atrair a população; é só um político lançar candidatura que começam as inaugurações de obras (nem sempre acabadas), os comícios, as promessas, os shows de Zezé de Camargo e Luciano. Se as metrópoles não conseguem se livrar dessa movimentação, nos interior ela parece ser ainda mais intensa.
Ao menos sob o olhar de Marcelo Brennand, que buscando entender o funcionamento desse momento político, resolveu acompanhar as candidaturas a vereadores e prefeito da cidade de Gravatá, interior do estado de Pernambuco. O filme “Porta a porta: Uma política em dois tempos” mostra como a relação entre pessoas e candidatos é mais próxima no interior; eles visitam seus eleitores em casa e o convencimento é feito diretamente, sem intermédios. A política para essas pessoas é um método concreto de auxílio para sua comunidade — e para si mesmos, claro. Predominando o assistencialismo, a população elege seus preferidos de acordo com as garantias que irá receber pós-eleição, como empregos ou mesmo uma ajuda para terminar a casa. A cidade inteira tem um lado, uma predileção, absolutamente ninguém fica de fora. Como em uma grande festa.
O mérito do longa é ter conseguido tratar do tema sem vilanizar os canditados, nem mostrar o povo como coitadinho. É um jogo de interesses, somente, e o diretor é simples observador. Mas Marcelo se utiliza de comentários em off em alguns momentos. Isso acaba causando certo estranhamento por parecer uma mudança de postura do diretor, que até então se mantinha como terceira pessoa. Um detalhe que até facilita na compreensão, mas subestima a capacidade de entendimento do espectador através das imagens.
Somos constantemente apresentados a novas personagens no decorrer do filme. E como a ordem dos fatos não é cronológica, vamos montando sem previsibilidade o quebra-cabeças do “antes e depois” de grande parte dessas personagens. E ao final, não fica claro se é um sentimento do diretor, das personagens, ou de ambos, mas o filme caminha para uma frustração geral. Cada militante, cada cabo eleitoral, cada vereador e prefeito não eleito volta ao mundo real, onde a única ideologia é sobreviver como pode. Até as próximas eleições.
Hoje começa a mostra principal do Cine PE. E nós estaremos lá, claro! Como manda a tradição, todos os dias a Zé Pereira traz críticas dos filmes exibidos, palavras dos realizadores, e o dia-a-dia de um dos maiores festivais do país.
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- A festa do menino Matheus Nachtergaele
- Vale-tudo na tela
- Cinema de breque não é pra qualquer otário
- Bom dia, Rio Babilônia
- Merecida aposentadoria
- A filósofa dos curtas ou Uma mulher com cabeça
- Aqui me tens de regresso
- Chanchada cabeça
- Onde está Waly?: Retrato do poeta enquanto vídeo
- O silêncio das imagens
- Drežnica é um lugar perto daqui
- Cineclubismo em debate
- Por água abaixo
- Mentes vazias
- Mais brasileiros no Odeon
- Sentido aguçado
- Homem-Elástico
- Será que não vi isso antes?
- Azul da cor do mar
- A Zé Pereira no Festival do Rio 2008











