2 de outubro de 2008
Outra verdade muito inconveniente
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
HIPOTECANDO OS EUA
(”I.O.U.S.A.”, Patrick Creadon, EUA, 2008)
Por Luiz Bello
Se os americanos já estavam assustados com os gráficos do Al Gore – antecipando catástrofes climáticas que assolarão, em breve, o planeta Terra – não irão ficar mais otimistas depois de assistirem a “Hipotecando os EUA”. No documentário de Patrick Creadon, que ainda será exibido amanhã (às 20:30h) e sábado (às 22h), no Estação Gávea, também há gráficos em profusão, demonstrando como o crescimento do déficit público levará o império deles à ruína, nas próximas décadas. Ou antes.
Não, o filme não é sobre a atual crise das hipotecas, embora a mencione, de passagem, lá pelos quarenta do segundo tempo. Parece ter sido concluído antes, mas isso não faz diferença, pois o universo ia desmoronar de qualquer jeito, mesmo.
Se o Gore é candidato a presidente do mundo, já tem um bom nome para a Fazenda. Morra de inveja, FHC! Trata-se de David Walker, ex-controlador geral do EUA, que renunciou ao cargo recentemente. Acompanhado por outros economistas e entidades supostamente apartidárias, ele circula por Rotary clubes e talkshows da América pregando seu “evangelho”, e é o entrevistado mais presente no documentário, que intercala depoimentos de autoridades e economistas yankees com cenas de telejornais. Nada vanguardista. A idéia é popularizar o debate sobre o escandaloso défict público deles, que hoje beira os dez trilhões de dólares.
A cifra parece impressionante? Pois é, mesmo. Representa uns 75% do PIB dos EUA (US$13,2 trilhões em 2006), ou seja, para ser paga, sugaria três em cada quatro dólares gerados pela economia americana em um ano. Foi esse o resultado da redução de impostos transformada em cânone por Reagan, dona Tatcher e otros macaquitos… Associada a um aumento crescente dos gastos governamentais – em quantas guerras os EUA se envolveram, de lá para cá? – a coisa toda foi agravada por Bush filho.
Enquanto o cidadão comum ignora as conseqüências dessa demagogia tributária feita para eleger republicanos, o défict cresce (cerca de US$ 60 milhões por hora) e ameaça transformar a filha de Rory Gilmore (ou de Bart Simpson?) em escrava branca, na China, país que detém a maior quantidade de títulos do tesouro americano.
O filme mostra o momento em que Nixon, nos anos 1970, se recusou a converter para o padrão ouro os dólares em poder do governo francês. O fim desta conversibilidade, além do histórico calote internacional - que ficou por isso mesmo -, gerou uma estagflação nos EUA. Fala-se nos períodos em que o déficit esteve sob controle, e quando ele disparou: Secessão, guerras mundiais, Vietnã…
Também são mencionados o permanente prejú da balança comercial americana (um dos maiores do mundo, por anos seguidos) e o envelhecimento da população, que faz com que haja cada vez mais americanos recebendo benefícios sociais, enquanto o número de contribuintes não cresce tão depressa. Alguma semelhança com o Brasil?
Com tudo isso e mais os gastos da saúde pública, num futuro próximo this very big hole chegaria a ciquenta trilhões de verdinhas, ou umas 47 vezes o PIB verde e amarelo. Wake up, América! A riqueza de seus netos jaz em bancos de Beijin!
Focado no público doméstico, “Hipotecando os EUA” não se aprofunda em possíveis conseqüências da crise para o resto do mundo e está surpreendentemente desatualizado para um filme de 2008. Vale pelo interessante retrospecto da política monetária de Uncle San e por ser mais um argumento - made in USA! - em favor da tese de que, se o socialismo acabou, o capitalismo também não anda nada bem… Quem diria, hein?
3 comentários para “Outra verdade muito inconveniente”
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2 de outubro de 2008 às 14:13
Olha, vi esse filme ontem e acho altamente recomendável para entender o que está ocorrendo com os EUA. Acho que vamos viver para ver a China ser a 1ª potência mundial (achei que isso não aconteceria nos próximos 50 anos…)
11 de janeiro de 2009 às 6:45
[...] que o déficit esteve sob controle, e quando ele disparou: Secessão, … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: [...]
15 de janeiro de 2009 às 16:24
[...] que o déficit esteve sob controle, e quando ele disparou: Secessão, … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: [...]