18 de junho de 2009
Os çábios
BLOG, Chamando na chincha
Por Luiz Bello
Achei ótimo o texto do Fernando Molica sobre o diploma para jornalistas. Sereno, lembrou a função da Universidade, os erros do sindicato nessa luta e a inversão de valores envolvida na bandeira da “não obrigatoriedade”, usada como sinônimo de liberdade e no sentido de ser contra a cartelização… Realmente, ficou parecendo que quem era “a favor do diploma” defendia um lado retrógrado e corporativista. “Moderno”, mesmo, é não cercear o direito de “todo o cidadão” que queira escrever em jornais com essa “conservadora” exigência de um diploma em Comunicação Social. Aguardarei sentado para ver tal modernidade chegar às outras categorias profissionais, como os administradores, arquitetos, nutricionistas, professores de educação física… Exigir diploma para quem quer ser juiz do STF é constitucional?
Mas fica difícil discutir a sério essa estória de diploma, diante da péssima qualidade do ensino que tivemos e do ensino superior em geral. Sim, nossa profissão ficou um pouco mais aviltada , mas a degradação vinha de longe. Não há dinheiro, não há anunciantes, não há leitores e os custos continuam sendo em dólares (papel, tinta e máquinas importadas). Aliás, é engraçado que, no Brasil, a importação de papel para jornais ainda siga uma política de cotas. Não dá para descartelizar isso, também?
E quando é que vão rever aquelas concessões de rádios e TVs, feitas ainda no governo Sarney, que ajudaram a eleger tantos anões e castelões? Quando é que a “Folha de S. Paulo” os demais paladinos do liberalismo irão atacar esse cartel?
E a lei que obriga a publicação de balanços em jornais? Vamos submeter isso ao STF, também? Por que não divulgar via internet e economisar custos para toda a sociedade? Por que pagar essa autêntica “bolsa-balancete” a meia dúzia de jornais, quando as homepages das empresas já podem ser acessadas, de graça e a qualquer hora, por milhões de pessoas em todo o mundo? O que a ANJ acha disso? (continua aqui)
Anos depois de os contadores (com diploma?) terem assumido o controle das redações, os empresários do ramo continuam desesperados para cortar custos, mas não sabem onde fazê-lo. Tanto é assim que os últimos passaralhos a farfalhar pelas redações cariocas foram menos cruéis que seus antecessores, pois quase não há mais gente para demitir.
Mas tudo bem. Se houver um bom curso de comunicação social, ele será respeitado, independente de ser obrigatório. Só não sei onde os futuros jornalistas sem diploma irão adquirir noções de ética e do sentido social de nossa profissão. Aprendi isso nos tempos de militante político (que coisa mais fora de moda…) e reforcei as lições na Escola de Comunicação da UFRJ. As chefias das redações irão assumir essa “cadeira”?
Agora, vale tudo. Dá para manter redações inteiras funcionando apenas com estagiários, sem se preocupar mais com denúncias do sindicato ao Ministério do Trabalho. Também vale colocar a amante como chefe de redação, sem precisar lhe comprar um diploma na faculdade da esquina. Dá até para convidar aquele amigo detetive para editar o noticiário policial. Depois, a gente coloca um professor de português desempregado para arredondar o texto final e manda pra gráfica. A coisa toda fica em pé, é claro, enquanto nosso padrinho político garantir uns anúncios do governo. E olha que eu nem falei em assessoria de imprensa, atividade que já deve abrigar, no mínimo, mais de 60% dos jornalistas profissionais…
O fato é que a regulamentação de nossa profissão foi para o ralo, e a grande opção do momento, os concursos públicos para jornalistas, está ameaçada ou, no mínimo, sofrerá muitas transformações. Vi alguns colegas de profissão defendendo o fim do diploma. Bem, todos têm direito ao diletantismo. Para mim, hoje foi um dia triste, mas me sinto aliviado por estar empregado. Se você, coleguinha, não está, eu lhe desejo boa sorte.
6 comentários para “Os çábios”
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19 de junho de 2009 às 0:20
Sr. Luiz, embora reconheça a lógica de alguns dos seus argumentos, é muita má-fé de sua parte imaginar que o fim da exigência do diploma em Jornalismo irá necessariamente principiar a dispensa de graduação específica para outras profissões. Essa história de que é especialmente em faculdades de Jornalismo que se aprende ética é uma falácia. Seria muito mais benéfico para o jornalismo que as atuais faculdades virassem cursos de especialização, para o ensino das técnicas jornalísticas. Dessa forma, profissionais de várias áreas poderiam escrever sobre o que sabem com muito mais propriedade do que jornalistazinhos que reportam “a decretação da prisão pelo delegado”, “Superior Tribunal Federal”, “o juiz pediu a busca e apreensão do veículo”, dentre outros chamados de meu louro para urubu.
E isso só para os jornalistas que parecem abominar o Direito.
Ademais, o risco causado pelas atitudes de um jornalista sem a graduação em Comunicação Social são muito menos danosas, em tese, do que um advogado que não conhece das leis (imagine um rábula defendendo-o em uma audiência por um crime que você não teria cometido…), ou um engenheiro que não saiba calcular direito, e por aí vai.
Por fim, temos os blogs jornalísticos.
O sr. acharia melhor que os blogueiros tivessem que se formar em Jornalismo? Há profissionais nesse meio que são muito mais competentes e éticos do que muito babaca a ocupar as redações.
Eis.
19 de junho de 2009 às 1:36
Antes de tentar ensinar jornalistas a escrever, o amigo deveria aprender a ler com mais atenção os textos alheios. Eu não disse que o fim da exigência do diploma para jornalistas iria “necessariamente principiar a dispensa de graduação específica para outras profissões”. Pelo contrário, disse que “aguardaria sentado” tal desenlance, pois acho que irá demorar muuuito para isso acontecer. O amigo não entendeu a ironia.
Também não disse que é especialmente em faculdades de jornalismo que se aprende ética. Eu mesmo captei noções do tema pelo mundo afora, como menciono no texto. Só acho que as redações de jornais são o último lugar onde os aspirantes a jornalistas deveriam aprender isso. Lá se aprende a lógica da empresa, não a lógica da sociedade. Novamente, o amigo não captou a ironia. Data venia, lamento que meu texto tenha sido tão mal escrito, a ponto de não permitir que o nobre advogado vislumbrasse aquilo que eu pretendia dizer. Peço perdão, sou apenas um blogueiro.
19 de junho de 2009 às 16:04
Sinto muito, Luiz, mas pelo jornalismo que vem sendo praticado na nossa grande imprensa, as ‘noções de ética e do sentido social’ da profissão não tem servido pra muita coisa, não.
19 de junho de 2009 às 17:34
Sr. Luiz, primeiramente dispenso esse tratamento de “amigo”, pois não lhe concedi tal intimidade. Em segundo lugar, dizer que muitos jornalistas nem se dão ao trabalho de fazer uma mísera pesquisa no Google antes de deitar baboseiras sobre o que não conhecem (e em se tratando de leis, esse desconhecimento é ainda mais indesculpável) não é querer ensinar ninguém a escrever. Trata-se de exigir um mínimo conhecimento sobre assuntos elementares.
Sua pretensa ironia ao falar sobre as exigências para outras profissões não esconde um ranço típico de quem usa a mesma medida para ofícios distintos.
O mais importante na decisão do STF sobre a dispensa da graduação em Jornalismo foi o respeito à liberdade de profissão. Agora não será mais preciso que um grupo de pessoas interessadas em editar um jornal ou uma revista sobre determinada área do conhecimento recorra necessariamente a um jornalista formado em Comunicação Social para ser o responsável pela publicação, o que poderá diminuir um pouco a mediocridade que grassa em muitos veículos de imprensa no país.
Agora, se o sr. não gosta de liberdade, ou não sabe o que fazer com ela, é problema seu.
Para alguém que integra um sítio na Internet tão interessante quanto este, esse discurso choramingas de reclamação contra os grandes veículos de comunicação soa, antes de mais nada, incoerente.
19 de junho de 2009 às 19:48
Prezado Dias, menos. Não seja um Enéas. Pedantismo já não impressiona mais ninguém.
Profissionais mal preparados, mal pagos e sobrecarregados são comuns nas redações, egressos ou não de escolas de comunicação. Nós, aqui, da Zé Pereira, já criticamos muito isso.
Quanto à decisão do STF, ela não visava à liberdade de “profissão”, mas a de expressão, do conjunto da sociedade, ao revogar a cartorial exigência de que houvesse um jornalista responsável por trás de cada publicação. E isso foi positivo.
A grande incoerência é que as próprias empresas jornalísticas estão envolvidas com outros aspectos cartoriais muito mais danosos à sociedade, que sequer foram apreciados pelo STF como, por exemplo, as suspeitíssimas concessões de canas de tv e a arcaica obrigatoriedade de se publicar os balanços das empresas em jornais impressos. Essa última é uma milionária reserva de mercado que só onera a atividade empresarial. Quanto custa publicar páginas e páginas de balaço em O Globo, por exemplo?
Também achei um tanto incoerente você falar da “mediocridade que grassa em muitos veículos” e, ao mesmo tempo, criticar o “discurso choramingas contra os grandes veículos”. Decida-se.
O jornalismo é uma atividade muito especializada e acho difícil que o panorama nas redações mude muito, pelo menos no momento. Estão demitindo jornalistas, e não contratando novos profissionais. Se o nobre advogado está desempregado e pretendia lecionar direito para focas, sugiro que mude seus planos. Emprego em redação é artigo em extinção e o fim do diploma obrigatório em nada contribuiu para mudar isso.
20 de junho de 2009 às 21:44
Sr. Luiz, agora que certos aspectos do seu texto ficaram mais claros, venho aqui apenas para dizer que, além de não ser advogado (só fui aprovado no exame da OAB, não pretendo seguir essa profissão) e de não estar desempregado, não tenho, ao menos não a curto prazo, a intenção de ser professor. A bem da verdade, conhecimentos jurídicos são salutares para todos. Enquanto não forem ministrados desde o ensino fundamental, teremos mais e mais ignorantes das leis e muitos recalcados com os profissionais do Direito.
Quanto aos demais problemas que o sr. apontou em seu último comentário, concordo com seu ponto de vista. Só penso que são assuntos a serem tratados um de cada vez. Até porque, do modo como são concedidas emissoras de rádio e televisão no Brasil, temos muitos galinheiros vigiados por raposas.
Sobre minha incoerência, eu deveria explicar melhor que a mediocridade de que falei está na qualidade rasteira do que muitos jornalistas escrevem, tanto na grande imprensa quanto fora dela. Aliás, há muitos bons textos neste sítio, os quais recomendo a outras pessoas com satisfação. Quanto ao discurso choramingas, apenas quis demonstrar a importância de sítios feito este, onde se leem opiniões interessantes e é possível conhecer novidades sobre música e cinema que fogem do baixo nível dos cadernos culturais que existem no mercado. Quem sabe um dia vocês não passem de pedra a vidraça? Não custa planejar o futuro.
Para encerrar: Enéas? Só por que eu tento escrever de forma menos feia do que costumo ler?