27 de janeiro de 2010
Orbital ou Como ser (sempre) uma estrangeira na própria terra
BLOG, bolo de rolo
Por Dandara Palankof
Brasília é várias cidades. Mas não em uma só. Aquela máxima construída para retratar algumas capitais cosmopolitas, de que vários povos se unem decididamente não serve pra capital federal. Durante um certo tempo relutei em aceitar, por acreditar que era algo que estava prestes a mudar. Mas a verdade é que o Distrito Federal ainda é um lugar de segregação institucionalizada.
Me dei conta disso neste último domingo, quando me vi às 18h no centro de Taguatinga, cidade satélite a 19km do Plano Piloto. Precisava voltar pra casa, na Asa Norte, e lá fui eu para o ponto de ônibus. Foi simplesmente novo. Várias lojas abertas, um sem-número de pessoas nas ruas, entupindo as três paradas de ônibus paralelas. Falando em ônibus, nunca havia visto tantos de uma vez só por aqui. O curioso é que a maioria das linhas transitava entre os vários setores nos quais a enorme e independente Taguatinga se divide: para as Asas, as linhas rareavam (menos para a Rodoviária).
Já morei em duas satélites, por curtíssimos períodos de tempo: o Núcleo Bandeirante e o Cruzeiro. Mas ambas são um tanto quanto bucólicas, remetem mais a cidades de interior que desenvolvem certa simbiose com a metrópole (ou coisa que o valha) mais próxima. No NB, me perturbava o provincianismo ao qual eu não estava acostumada; já o Cruzeiro, pela proximidade com as Asas nas quais eu levava minha vida de adolescente, eu fazia de cidade dormitório. Resumindo, eu sou cria da classe média do Plano Piloto.
E simplesmente não me misturava. Mais por comodismo que qualquer outra coisa. Tudo o que supria meus interesses estava no Plano Piloto. Nunca tive carro, e já falamos sobre como é complicado depender do sistema de transportes públicos desta cidade. A maioria dos meus amigos também estava por aqui. E fui me acostumando ao isolamento desta ilha de Lost que é Brasília.
Cabe aqui, creio eu, um pequeno esclarecimento acerca da definição de Brasília: Asas Norte e Sul, que com o Eixo Monumental formam o Plano Piloto; Lagos Norte e Sul, lares da classe média alta e da classe alta, respectivamente; Cruzeiro e Sudoeste/Octogonal. Isso é Brasília. Todo o resto, apesar de serem muito mais perto do que bairros de periferia em cidades como São Paulo, são consideradas outras cidades. Brasília, mais estas outras cidades, é que formam o estado do Distrito Federal. Sempre achei complicado isso por conta do preenchimento dos campos de endereço de qualquer formulário. Propagandeava a idéia de que tinha que ser tudo Brasília, as satélites seriam consideradas como o que realmente são: bairros, e seríamos parte do estado do Goiás. Parecia mais prático. Mas enfim.
E no fim das contas, com o isolamento proporcionado por uma série de fatores, como o alto poder aquisitivo necessário para se viver e se divertir em Brasília e o péssimo sistema de transportes (já mencionei este fato? E o tal “metrô” só funciona até as 19h no domingo!), acabam virando realmente outras cidades.
Como Taguatinga. Que sozinha já responde por mais de 15% da população de 2,6 milhões que hoje tem o DF. E esses 15%, quando você olha ao redor, é realmente diferente; parece mais… amalgamado? Taguatinga da qual você não precisa sair pra estudar (em qualquer nível; a Universidade Católica daqui, inclusive, fica por lá), trabalhar, ir ao médico, dançar, beber, ir ao estádio (o Brasiliense aquele time do Luis Estevão, na verdade é de Taguatinga!) ou ir ao cinema. É o único lugar de Brasília, quer dizer do DF, que eu conheço em que há uma praça de alimentação 24h. E no domingo as pessoas saem de casa!
Foi um choque. Não era a primeira vez que eu ia à Taguatinga. E conheço várias outras satélites; nos últimos anos fui me afastando cada vez mais da ilha da fantasia. Mas o que finalmente percebi é que quem mora lá simplesmente não precisa desse aviãozinho em vôo cego. Os empurraram pra lá, criaram artifícios para que eles lá continuassem, e aconteceu o que sempre acontece: eles cresceram e aprenderam a levar a vida. E parecem muito bem, obrigado.
Não são eles os excluídos. Nós é que estamos presos aqui dentro.
Dandara Palankof nasceu em Recife, mas foi criada em Brasília, Brasília mesmo, e talvez por isso o primeiro estranhamento quando voltou a morar na cidade natal; de férias no Planalto, percebeu o quanto conhece pouco a terra onde cresceu.
3 comentários para “Orbital ou Como ser (sempre) uma estrangeira na própria terra”
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31 de janeiro de 2010 às 13:10
as vezes tenho medo de conhecer brasília
17 de fevereiro de 2010 às 18:52
quanto mais tu fala de brasília, mais eu gosto de recife ^^
faço minhas as palavras de thainah.
15 de abril de 2010 às 21:41
praça de alimentação 24h de Tagua, duas da manhã, algum dia de janeiro de 2009. alguém da mesa do lado pede uma macarronada ao garçon e ele traz sopa. sopa de macarrão.
eu achei melhor pedir um misto.
(aquela maldita macarronada nunca saiu da minha cabeça)