3 de julho de 2009
Ofídio
BLOG, grossericatessen
Por João Moraes
Ela era roliça, meio esbranquiçada e estava encaracolada dentro de um vidro de balas que já havia perdido a tampa. Fechando o pote, um pires tão encardido quanto. Parecia um bichinho de laboratório conservado em formol, mas o líquido em questão tinha uma química mais simples, era cachaça dentro do vidro e dentro dela uma jararaca de mais de metro. A cabeça da bicha ainda apresentava as marcas de pauladas desferidas há muito. Os olhos saltados denunciavam a opressão do porrete, bem como algumas escamas arrepiadas.
A cachaça estava turva e alguns ciscos e outros organismos boiavam no caldo grosso. Aquele tesouro em cima do balcão nos atraiu os olhos e as gargantas estalaram. Jogávamos sinuca na mesa de pano rasgado; lá atrás, o banheiro era uma velha manilha cortada ao meio, absolutamente fedorento, decadente e a céu aberto, bem ao lado da porta de entrada da casa do Boto, dono do bar e morador da espelunca; impedida pela saúde pública, condenada ao desabamento. (continua aqui)
A velha casa dos anos 30 acabou virando uma lenda nos anos 80. O fabuloso Bar da Cobra. Paramos as tacadas vãs e nos encaminhamos para o balcão, compramos fichas para a jukebox encostada no canto da porta de entrada, cuja carteira de música formava um repertório muito adequado à sofisticação do ambiente; colocamos a ficha e a música começou - “no hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça eu via, você sorrindo a sofrer”… No embalo de Amado Batista perguntamos ao Boto:
-É Pinga?
-É
-Você serve?
- Olha, a última que servi foi pra dois caras no carnaval e nunca mais vi ou soube deles, não posso garantir nada.
- Então bota uma pra cada um.
Boto desceu a cobra e a pôs no balcão, retirou o pires imundo de cima e um buquê inconfudível de gaveta velha se insinuou no ar. Com um xícara, ele colheu três generosas doses que serviu em apropriados copos Nadir Figueiredo. A primeira dose que tomei até hoje é lembrada, não com repugnância, mas compaixão pelo menino que eu era e saudades do estômago que tinha.
Tornou-se habitual ir ao Bar da Cobra por três motivos: diversão, teste e calourada dos alunos de comunicação da ECO. Por diversão, para sorver aquela gloriosa beberagem; para testar os eventuais novos amigos que declaravam amor pela boemia, mas não sabiam o quanto levávamos aquilo a sério - muitos foram reprovados -; e nas calouradas, para dar um banho cultural naqueles e principalmente naquelas que adentravam as lides acadêmicas acreditando que o mundo é limpo e cheiroso. Quando, na verdade, é preciso muito estômago para encarar esse velho mundão cabeludo e cheio de veias.
Muitas foram aprovadas. Mesmo por apenas terem conseguido tomar uma pequena golada do caldo de cobra velha, naquela birosca fétida, testemunha, mais que decadente, decaída da antiga Praça 11.
Mais tarde, ainda nos anos 80, Boto morreu de ferida na perna. Morte honrada, digna e apropriada para aquele legítimo homem da noite, promoter de vastas patifarias acometidas, cometidas e metidas no velho e bom Bar da Cobra.
2 comentários para “Ofídio”
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3 de julho de 2009 às 16:29
João, você só se esqueceu de dizer que a pinga da cobra era demoniacamente alucinógena. Ou então eu bebi formol…
3 de julho de 2009 às 18:00
É verdade, além de costurar um fecho-ecler no estômago o caldo de cobra era um grande soro antirealidade.