7 de outubro de 2009
O vasto mundo das histórias em quadrinhos
BLOG, FIQ 2009, Quadrinhos
No primeiro dia do 6º Festival Internacional de Quadrinhos, conferimos a abertura oficial, as primeiras mesas de bate-papo e ainda entrevistamos o cartunista argentino Liniers. Confira!
Por Dandara Palankof
Fotos: Rose Lima
Vídeos: Eduardo Souza Lima
Se há uma coisa da qual não se pode reclamar do FIQ é o seu local de realização: o Palácio das Artes e o Parque Municipal, aonde ele está localizado, são opções ideais para abrigar o evento, com relação a todos os seus aspectos; dos bate-papos às exposições, da mostra de cinema até os diversos estandes. Neste quesito, aliás, pode-se dizer que os frequentadores estavam bem servidos; além de Cia. Das Letras (com seu selo Quadrinhos na Cia.) e a Panini Comics, vários realizadores independentes estavam lá para mostrar seu trabalho (falaremos deles mais detalhadamente ao longo desta cobertura).
O bom público do local, composto em sua maioria por adolescentes, assistiu à solenidade oficial começar com 50 minutos de atraso do horário marcado (16h). Entre outros representantes das instituições envolvidas com a organização do FIQ, marcaram presença o vice-prefeito de Belo Horizonte, Roberto Carvalho, Emanueli Landi da Editora Casa XXI e Taís Pimentel, presidente da Fundação de Cultura.
Taís traçou um paralelo entre a realização do evento e a comemoração de 70 anos do Batman, data que inclusive inspira uma das exposições do Palácio das Artes. “Assim como Batman é o herói do intelecto, apostamos no intelecto e no talento de nossos convidados para fazer deste FIQ um sucesso”, afirmou. E o Robin do FIQ seriam justamente os patrocinadores. Roberto Carvalho encerrou ressaltado o aumento do nível de qualidade dos quadrinhos e das animações, independente da faixa etária para o qual sejam voltados.
As conversas com realizadores
O teatro João Ceschiatti tinha cerca de 60% de sua capacidade quando, pouco depois das 18h30, iniciou-se a primeira mesa do dia, com o tema “Animação e Cinema”. Estavam presentes o animador e professor Sávio Leite (MG), o animador gaúcho Lancast e Guy Delisle, animador e quadrinhista que teve recentemente obras como Pyong-Yang lançadas no Brasil pela Zarabatana Books.
Sávio iniciou as apresentações afirmando BH como pólo de animação, lembrando que a cidade foi a primeira a abrigar um curso superior na área. Lancast, profissional veterano com 26 anos de bagagem, ressaltou a facilidade técnica disponível às novas gerações. Defendeu ainda que iniciativas governamentais como o AnimaTV (concurso para projetos de séries televisivas em animação) são essenciais na criação de um mercado que é ainda praticamente inexistente no Brasil. O animador, que em 2003 emplacou no canal a cabo Nickelodeon uma série de 13 episódios de 11 minutos (Anabel) e agora prepara uma segunda temporada, colocou ainda a falta de especialização da mão de obra da área, chamando a maioria dos cursos hoje existentes no país de “insípidos”.
Já Delisle contou um pouco de sua história como animador desde o início da carreira na cidade canadense de Toronto, há 15 anos; já na França, conheceu o amplo e receptivo mercado europeu do início dos anos 1990, atuando também como professor em países asiáticos; com o declínio atual do mercado e o fechamento de estúdios, arriscou contar sua última experiência como professor na China e foi então que passou a dedicar-se integralmente às HQs.
Abrido para as perguntas do público, Lancast foi questionado sobre a necessidade do apoio governamental, e a série “Princesas do Mar” (de Fábio Yabu) foi citada como exemplo de projeto que dá certo sem dinheiro público; respondeu então que o que os profissionais procuram é apenas o pontapé inicial para a criação de algo que venha a prescindir desta ajuda no futuro, e não uma muleta eterna. “O investidor brasileiro ainda não vê a animação como um bom negócio, mas as produtoras estão se organizando para que este cenário mude”, concluiu.
Sobre o mercado para a animação adulta, Sávio foi categórico ao afirmar que, há, sim, uma notória rejeição a este produtos em prol das infantis, consideradas mais comerciais, e foi completado por Delisle, que citou a situação dos quadrinhos na França há 10 ou 15 anos, que era minúsculo e tornou-se gigantesco. Para o artista, “há de seguir o mesmo caminho de paciência”.
Passavam poucos minutos das 20h quando sentaram-se à mesa os cartunistas Duke (MG), os franceses Cizo e Felder, e a estrela da noite, o argentino Liniers, para uma conversa sobre humor gráfico; por mais que pareça um clichê, a mesa ficou realmente mais bem-humorada, com os parceiros Cizo e Felder (com uma camisa do Atlético Mineiro) brincando um com o outro e com a platéia quase que durante todo o tempo, seguidos por Liniers, quem impersonou um cartunista francês no início do debate.
Duke, mais recatado, começou mostrando o livro recém-lançado que reúne trabalhos de seus 10 anos de carreira, e contando o caso de uma exposição da qual fez parte que levou o célebre Jaguar a desmentir sua máxima de que o cartum estava morto. “O humor gráfico se renova através dos temas tratados, que mudam com a sociedade”. Felder e Cizo, entre trabalhos com quadrinhos, são responsáveis pela ácida exposição Supermercado Ferraile, à mostra no FIQ (da qual também falaremos com mais detalhes); o primeiro afirmou ser o humor a saída para o “mundo horrível” no qual vivemos. Cizo ressaltou que era isso ou as drogas.
Todos são oriundos do fanzine, e os franceses optaram por criar sua própria editora quando uma proposta demorou a surgir; Liniers acabou sendo indicado pela cartunista também argentina Maitena e passou a ser publicado no jornal La Nación, onde está até hoje, apesar de que, segundo ele, suas tiras às vezes não serem entendidas pelos responsáveis do jornal. Começou então a publicar os livros de Macanudo, formato que prefere por se conseguir um maior envolvimento do público, e explicou a exigência em se manter o nome no original por ser este um termo tão particularmente argentino e por como isso passa pela identidade deste seu trabalho.
Nas perguntas, o questionamento sobre o uso da internet; Duke aprovou o uso da ferramenta, citando casos como o do cartunista carioca André Dahmer e seu Malvados, que ganhou notoriedade através da rede. Já Felder disse não querer criticar a internet, “já que tantos nela encontram o amor”, mas que a considera ferramenta de marketing, “e o marketing é a morte da HQ”. Liniers, cuja importância dispensada à internet se pode inferir por seu bem cuidado site, afirmou que é sorte das novas gerações poder com uma forma de divulgação tão ágil.
O cartunista argentino contou ainda, quando perguntado sobre o que não cabia na série Macanudo, sobre sua primeira série Bon Jour, que foi publicada no jornal Página 21 e era um pouco mais aberta do que o conservador La Nación, que uma vez recusou uma tira por conta de um certo duende flatulento. Mas que o estilo da série que fez seu nome no Brasil foi o que sempre quis fazer, já que “a busca pelo choque cansa”.
Sobre o conhecimento de material brasileiro, os cartunistas franceses disseram que realmente não tinham nenhum conhecimento a respeito, mas que a vinda para o festival era o primeiro passo para corrigir o fato; Liniers imediatamente puxou um livro de Fábio Zimbres.
Entrevista: Liniers
Após largar a faculdade de publicidade, o argentino Ricardo Liniers Siri se achou nas histórias em quadrinhos; aos 35 anos, com a admiração dos colegas de profissão e o talento em explicitar sua visão agri-doce da vida mundana, Liniers tornou-se um dos mais comentados cartunistas da atualidade com a série Macanudo (algo como “supimpa”, em português); em meio aos vários autógrafos, todos acompanhados de um cartum, trocamos algumas palavras com o quadrinista.
Quando você começou a desenhar, fez isso já almejando fazer histórias em quadrinhos?
Não, não; apesar de ter feito minha primeira tira lá pelos 10 anos, era uma coisa que eu fazia na escola, com os colegas; nunca me imaginei fazendo quadrinhos pra viver. Por isso que, quando maior, fui cursar Direito e, depois, Publicidade. Daí acabei voltando para aquilo pelo qual tinha me apaixonado quando criança; acho que somos mais inteligentes aos 10 anos.
O que você costumava ler quando criança?
Mafalda é praticamente obrigatório para toda criança argentina; também li muito Asterix, Lucky Luke, Tintim e Turma da Mônica. Nunca gostei muito de super-heróis; acho que sempre me identifiquei mais com os perdedores.
Quais são suas grandes influências?
Tudo acaba sendo influência, tudo o que eu vejo reflete no meu trabalho. Os programas do Monty Phyton, o Fábio Zimbres, o que vejo na rua, tudo influencia.
Como você conheceu a Maitena? Ela era uma fã ou uma amiga de longa data?
Antes de ela me recomendar ao “La Nación”, só havia visto a Maitena umas duas vezes na vida. Ela foi muito generosa comigo, uma pessoa muito boa mesmo.
Suas tiras são em cores; o custo de impressão dificultou sua penetração em algum mercado?
Não creio, até porque os custos hoje em dia não são tão elevados quanto eram antigamente; o La Nación mesmo, já publicava tirinhas em cores antes de começar a publicar o Macanudo. Tento então deixar o material o mais lindo possível: se a pessoa não entender a tira, pelo menos pode dizer que os desenhos eram lindos! (risos)
Que outros materiais você usa, além da aquarela?
Para o Macanudo, além da aquarela, uso tinta comum; para a maioria dos outros trabalhos, gosto de usar a tinta acrílica; mas varia muito pela situação, e também de onde resolvo pintar. Mas quando quero só me divertir, uso o que tem à mão. Qualquer coisa que faça uma mancha.
Alguns alunos de Publicidade no Brasil optam pelo curso por acreditarem que as disciplinas de conteúdo visual podem lhes acrescentar algo enquanto artistas. Foi o seu caso?
Não, foi só um acaso infeliz. Como disse, nunca pensei em viver de HQ e precisava encontrar algo, apesar de ter pensado um pouco no lado criativo do exercício da publicidade. Mas meus pais nunca me deixariam tentar os quadrinhos de primeira. “Pinguins?! Sério?!” Mas eles me apoiam, agora.
Além do Fábio Zimbres, que outros cartunistas brasileiros você admira?
Acho o Zimbres um gênio incontestável, mas há o (Alan) Sieber, o Laerte, o Angeli… a Argentina, aliás, não conhece o Angeli, e eu acho que ele deveria ser conhecido no mundo todo! Mas é este o lado bom da internet: eliminar essas fronteiras.
Você citou um projeto em que publica novos autores. Como ele surgiu?
Vi que podia encontrar novos autores na América Latina e usar o Macanudo como uma alavanca para lançar seus trabalhos em seus países e também fora deles. Ano passado lançamos uma obra belíssima do Juanjo Saez, chamada El Livro, e os próximos lançamentos serão trabalhos do argentino Ignacio Minaverry e da colombiana Power Paola.
2 comentários para “O vasto mundo das histórias em quadrinhos”
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7 de outubro de 2009 às 23:49
O misterioso homem de negro! Putamerda… Amo Liniers! ;D
Bom, pessoas, muito bom!
beijo
14 de outubro de 2009 às 12:08
Eu estava assistindo ao video do Guy Deslisle e pensando: eu tenho um autógrafo que nem esse, daí vejo ele assinar meu nome hahahahaha!!!!