30 de março de 2009
O mito do humor inteligente
Por Arnaldo Branco
Às voltas com acusações de hermetismo de gente que nunca viu um filme dele, Woody Allen sempre responde quando perguntam porque costuma ser confundido com um intelectual: “É que eu uso óculos”.
Aqui acontece algo parecido: nós confundimos humor raso com inteligente por causa do adereço, é por isso que os caras do CQC usam terno. Do contrário, todo mundo perceberia que aquilo é um programa ordinário de pegadinha que sacaneia político em vez de empregada doméstica.
E sacaneia é boa vontade minha. Em uma edição recente, os caras serviram de escada (de novo, me dizem) para o Maluf, que, embora seja mesmo um pulha carismático, tem um telhado de vidro maior que o da estufa particular do Willie Nelson. Um dos caras da produção do programa chegou a dizer que não tem culpa do Maluf ser GENIAL, provavelmente o termo mais aviltado do mundo depois de “honesto”.
Nem falo só do CQC - o humor político brasileiro tende ao inócuo. Nos anos 80, quando o Angeli descobriu que o Delfim Netto costumava colecionar os desenhos que os cartunistas faziam dele, resolveu parar de falar de política em protesto. Só voltou depois de anos, quando passou a usar sua expertise de humor comportamental nas charges - e hoje duvido que o Delfim guarde aqueles desenhos de deputados cobertos de sangue, merda e pústulas.
Talvez porque precise de contextualização, o humor político passa automaticamente por perspicaz. Mas olhem os nossos políticos. Bolas, olhem só o nosso presidente - não dá para dizer que é um personagem cheio de profundas nuances psicológicas.
Essa confusão deve ser porque político também usa terno.
45 comentários para “O mito do humor inteligente”
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30 de março de 2009 às 20:48
[...] pratica a liberdade de expressão. O Arnaldo Branco até mandou a coluna desta semana cedo (táqui), mas ela só está saindo agora porque os editores desta revista são uns $#@&*§¢£!!! [...]
31 de março de 2009 às 8:18
[...] Minha coluna Mal Necessário para a Zé Pereira: O mito do humor inteligente. [...]
31 de março de 2009 às 11:46
Fala Arnaldo, tu sabe indicar algum momento da história brasileira em que humor promoveu mudanças pra melhor no sistema político (e na tentativa-de-democracia que é o país)? ~ abraço
31 de março de 2009 às 12:06
Nós, os humoristas, temos bastante importância para ser presos e nenhuma importância para ser soltos - Millôr Fernandes.
31 de março de 2009 às 12:33
Até concordo. Quando o quadro “Fala na cara” estreou com o Paulo Maluf, apesar de adorar os reporteres Oscar Filho e Felipe Andreoli, achei o quadro forçado e mais do que isso, enchendo a bola do Maluf que com toda a sua lábia, colocou o entrevistado”pessoa normal” sem saber o que dizer, sim, isso deu mais moral para ele.
Mas por outro lado vejo o CQC como uma fonte de informação, apesar de não dar pontos significativos no Ibope, informa, mesmo que com piada, as pessoas.
Hoje conheço pessoas que pelo menos sabem quem são Renan Carlheiros, Sarney, Genuino e o quanto de coisas erradas acontecem por Brasília.
Pode ser que não seja o melhor humor ou que as coisas não sejam conduzidas bem pelo Programete, mas que levanta a poeira e coloca os nomes dos queridos politicos em discussão nas rodinhas de adolescentes, coloca.
Quem sabe o reflexo disso não pode vir mais pra frente?!
Não que o CQC vai mudar a história política do mundo, mas aos poucos que chega, faz pensar.
31 de março de 2009 às 12:45
concordo plenamente; é só assistir Pânico no domingo e CQC na segunda pra ver que não são tão diferentes assim. Até os mesmos eventos eles ‘cobrem’, sendo o Pânico visivel (e constrangedoramente) melhor - e mais inteligente, claro.
31 de março de 2009 às 13:42
De pleno acordo.
E demais o vídeozinho da Praça é nossa…
31 de março de 2009 às 13:51
João Plenário rocks!
31 de março de 2009 às 14:14
O Humor virou humor. E muito sem graça.
31 de março de 2009 às 16:30
Eu penso que, pelo menos, o CQC de uma certa forma critica um pouco as coisas e faz as pessoas pensarem. Ou apenas eu posso estar sendo inocente demais.
Mas e aí, o que seria humor inteligente? E por que ele seria melhor que os outros que não se chamam de inteligente?
31 de março de 2009 às 17:30
Eu acho que a idéia do CQC não é tão ruim assim. É para ser um Pânico um pouco melhor e eu acho que conseguiu. Mas entendo o ponto de vista do crítico… Para o “povão”, que não tem filtro nenhum, os dois programas podem parecer iguais e, no caso, o Sr. Paulo Salim Maluf, bem como toda a corja de sem vergonhas dos políticos paulistas e cariocas (independentemente de partido), ao invés de ser criticado, passa a ser ovacionado. E o jornalismo no Brasil, de uma maneira geral, tende a ter tanta qualidade como o bom cheiro de um aterro sanitário. Para sobreviver na televisão brasileira tem que ser lixo. Agora, a culpa é do sistema, é do povo que não muda o sistema por falta de informação ou é da mídia podre?
31 de março de 2009 às 18:34
Man, depois que “Os Normais” foi vetado da grade aberta, por ser “inteligente demais” pro povão, dá pra se ter ideia do nível de humor que se espera da televisão brasileira..
Não tem jeito, audiência é pra gado (e sem juízo de valor, pq vc pode ser gado sendo bem-alimentado e letrado).
CQC é só mais uma fórmula (comprada, por sinal) que tenta sobreviver à “estupidez do telespectador”..
we’re all Homers to them! (já diria o Sr. Boner)
31 de março de 2009 às 18:52
Eu pensava que a história das charges do Delfim tinha acontecido com o Laerte, Arnaldo. Errei de cartunista, pelo visto. (= E João Plenário rocks indeed. Abraço!
31 de março de 2009 às 19:55
Humor inteligente é Mr Bean. os seres humanos são engraçados … ex: chico anysio é um g~enio do humor, mas um monte de gente fala mal dele, q ele é marmelada; os trapalhões revolucionaram o jeito de fazer humor na tv e na época ninguém assistia; tv pirata entrou pra história pq acabou; a própria praça é nossa já foi o melhor humor da tv.
a desvalorização do produto é mais forte quando está em envid~encia … e a pergunta que fica é pq? é inveja, falta de assunto ou crítica inteligente?
31 de março de 2009 às 20:06
“Mas e aí, o que seria humor inteligente?”
Única questão relevante dessa conversa.
A propósito: como vocês levam o humor a sério…
31 de março de 2009 às 20:17
E ainda chamaram o Tas de Jon Stewart brasileiro
31 de março de 2009 às 20:24
Partindo do pressuposto que o perspicaz remete à idéia de observador e também àquela de inteligente, por exercer de uma forma mais ampla a faculdade de aprender e compreender, acabei não entendendo o porquê da reprovação da definição “humor inteligente”.
Analisando só a palavra humor, torna-se um óbvio ululante a impossibilidade de diferenciar um do outro. Mas sendo um deles definido como “humor inteligente”, ou seja, exigente de uma maior bagagem informacional para a consequente compreensão da piada, dados esses considerados propriedade de uma minoria encarada como intelectual, creio que essa vertente não soa presunçosa ao adotar o predicado “inteligente” para se definir. Ela só exige um maior intelecto ativo aristotélico (ou faculdade cognitiva pela qual as impressões recebidas pelos sentidos se tornam inteligíveis) de seu espectador. Ou seja, uma mera “contextualização” do assunto.
Sei lá, pra mim a questão passa a ser mais semântica que racional.
…
Ou não.
31 de março de 2009 às 20:39
“os trapalhões revolucionaram o jeito de fazer humor na tv e na época ninguém assistia”
Muitas drogas.
1 de abril de 2009 às 13:55
Esse papinho de humor inteligente não existe.
Se tu viu e deu risada é engraçado, pra você aquilo é humor, nem burro nem inteligente, engraçado
Se tu viu e não achou graça nenhuma, não há teoria que vá substitutir um riso.
Essa merda de assunto é igual explicar piada depois que o português não entendeu.
1 de abril de 2009 às 14:10
Humor inteligente eu sei que tem, já até vi. Comentarista de blog é que está difícil.
1 de abril de 2009 às 14:24
Acho que o problema é a institucionalização do humor, o humor corporativo, que vende havaianas entre uma piada e outra. O humor que segue um editorial rígido, definido por gente de terno e gravata mas que não faz piada.
E hoje é só o cara receber um elogio que já vai a leilão. Tipo o jogador de futebol que faz um gol e já se diz craque.
1 de abril de 2009 às 14:45
quanta amargura com o CQC!!!
Ainda bem que não fazem estudos filosóficos e antropológicos das tirinhas do Arnaldo né?
Há tempos ninguém ia lá no Congresso e mostrava um pouco da inércia destrutiva da casa…
Quando vai o CQC…..é Ruim!!!
Vai entender…
As pessoas em Pânico, merecem Viver em “zorra Total”….
1 de abril de 2009 às 15:39
“Comentarista de blog é que está difícil”
wow muito boa potuguês!!!
Você devia estar de terninho numa bancada, na tv ou no senado
Em tempo: Pára de ficar de costas pros comentaristas de blog, não é só porque lemos o que vc escreve que você nos deve favores…
1 de abril de 2009 às 15:44
r
1 de abril de 2009 às 16:13
Muitas drogas, muitas drogas.
1 de abril de 2009 às 17:30
“Humor inteligente eu sei que tem, já até vi. Comentarista de blog é que está difícil.” Tóin! HAHAHAHAHAHA
1 de abril de 2009 às 18:28
O Pânico já tinha ido no congresso. De terno e tudo.
1 de abril de 2009 às 22:53
Sou obrigado a concordar com Caborja. Discussão sobre humor inteligente é inócuo, sei que tem, mas o que me importa é fazer rir. Gosto do mengão ganhando jogando mal e jogando bem…
1 de abril de 2009 às 23:42
É? Eu não rio com CQC. Ganhei a discussão \o/
2 de abril de 2009 às 13:51
ganhou mesmo, concordou conosco.
“É? Eu não rio com CQC. Ganhei a discussão \o/”
Muitas drogas, muitas drogas
2 de abril de 2009 às 20:55
me faço a mesmo pergunta: o q é humor inteligente? o tipo de humor do woody allen que precisa de bibliografia básica pra entender uma piada sobre nabokov? os únicos humoristas no cqc são o rafinha e o danilo, que por sinal são ótimos comediantes, mas acho super boa praça o humor deles, não tem nada de subversivo, eles ficam gritando as perguntas de longe pros políticos, super-forçado.
2 de abril de 2009 às 22:08
Perdi esse filme do Woody Allen que vc está falando. Rafinha e Danilo ótimos comediantes? Também perdi todos esses shows.
Caborja: do your own thing, bitch.
4 de abril de 2009 às 0:24
Você é um carinha bem arrogante, e deve adorar sê-lo. O SEU humor que inteligente, não é bonzão?
É sempre bom falar mal de algo que deu certo, daí falam da gente não é, Machado de Assis do humor. Vai lá, vai assitir filme iraniano e ser blasé…
4 de abril de 2009 às 14:34
O que é que quer dizer “muitas drogas”? É tipo “grande merda”?
5 de abril de 2009 às 2:05
“Falam da gente”? Vc é do CQC ou é representante jurídico? Quanto vc ganha pra defender os caras em comentários de blogs por aí?
Caralho, como estamos, não gostar de CQC te confere status automático de arrogante. Já foi necessário bem mais pré-requisito pra ser considerado esnobe por aqui…
5 de abril de 2009 às 13:25
nunca achei genial. geniais do humor tupiniquim, para mim, são Millôr e Laerte, nessa ordem, estritamente. e gênios, na imensa maioria das vezes, estão fadados a ser incompreendidos.
CQC, nos primeiros programas, era divertido, enquanto sátira dos costumes brasileiros. agora, com a sensível decadência do humor fino, tá entupido de propagandas e trampolins para cretinos.
ainda assim, não é tão ruim, não: agrada a média brasileira, e abre um espaço, ainda que minúsculo, para o “homer simpson” pensar um pouquinho.
6 de abril de 2009 às 14:59
Ah, eu rio com o CQC. Pode?
(é melhor q Escolinha do Barulho…)
6 de abril de 2009 às 17:33
trocar ouro por espelhos…
6 de abril de 2009 às 18:19
pow, eu jogo bola com a galera aqui do trampo toda segunda e nunca consegui assistir esse CQC, mas dou muita risada com o fiasco que somos no futebol, isso não é inteligente? Ter noção do próprio fracasso em determinado assunto e sabedoria o suficiente para julgar que isso não influencia em minha vida profissional/pessoal podendo achar muita graça nisso não deixa de ser inteligente. Já perder tempo julgando o humor alheio e se achar mais engraçado do que fulano ou ciclano por isso é que não é inteligente, se alguém rir é humor bom, só isso… tenho saudades do tempo em que eu era (ainda mais) ignorante e ria de qualquer coisa, bons tempos de trapalhões, sérgio malandro, mr. Bean e escolinha do professor raimundo. Se Machado de Assis, Mozart ou Einsten (inteligentes) ririam disso? posso lhes garantir que sim!
7 de abril de 2009 às 15:50
Eu acho engraçado como somos obrigados a conviver com essa galera do “não gosta por que é burro ou não entendeu”. Bota aí fã do Radiohead, do CQC, Los Hermanos, sei lá, Tim Burton.
E nessa de “humor político” acho bom o Michael Moore, mas não acho que taxam o cara de humorista.
8 de abril de 2009 às 17:49
o justo veríssimo era muito engraçado
9 de abril de 2009 às 0:08
o rafinha bastos não passa de um datena (que pensa ser) refinado. o conetúdo das matérias são os mesmos e a forma que de ficarem indignados com o jeito que o povão é tratado
o rafael cortêz é o que se salva, inclusive nas entrevistas com o maluf. Pela bagagem musical na hora de entrevistar musicos tambem se destaca, já até vi um show dele com a nancy alves de interpretação de samba muito boa
9 de abril de 2009 às 12:22
Putz, já não basta a patrulha ideológica, tem a patrulha do humor também? Aí já é demais. Agora só falta falar que nunca pegou mulher feia. P.S.: Eu rio com Chaves, e sou feliz.
15 de abril de 2009 às 12:29
geralmente, se está na tv aberta é porque já passou pelo filtro … o que é bom não passa
concordo com a falta de graça no CQC e, além disso, acho uma merda essa ondinha de “stand-up comedy”, segida pelos caras do CQC … juntam as pegadinhas do sergio mallandro, misturam com piadas antigas, traduzem alguma coisa dos gringos e chamam de “stand-up comedy”
4 de agosto de 2009 às 23:33
Rapaz, acho que o humor pode ter modus operadis diferentis, como diria Mumu da mangueira.
P.ex: Há os improvisadores. Estes stand-ups e programas de gonzo-jornalismo ao vivo que estão por aí.
Fazer humor ao vivo é foda. Mais foda ainda é trabalhar pra cacete num texto, ensaiar pra caralho a piada, fazer ela passar como se fosse uma “sacada genial instantânea” e não ter graça nenhuma.
O que eu acho um paradoxo do humor brasileiro atual é que quando um cara estudado, crescido a pão de ló, se mete a fazer humor, quase sempre se sai pior do que o semi-analfabeto e desdentado.
Já repararam que de todos os CQCs o mais engraçado solo, é o Marco Luque ? Pelo menos no que vi pelo Youtube. E ele é o quê? O idiota do programa, o cara mais sub-utilizado.
Tenho uma hipótese buteco-sociológica que nem merece ser explanada aqui…