9 de fevereiro de 2010
O melhor efeito especial de todos os tempos
BLOG, Cinema
Por Luiz Henriques
Acabei de rever “Sinbad e a princesa”. Não é em qualquer locadora que você vai achar, mas é um barato. Houve uma época em que a TV Rio e depois a Bandeirantes fizeram populares por um breve momento os filmes de Mil e Uma Noites. Por um breve momento apenas porque os estúdios não estavam dispostos a bancar grandes orçamentos e os efeitos especiais eram complicados. Não havendo computadores, monstros e criaturas míticas em geral tinham que ser feitas do mesmo modo que “King Kong” em 1933: construía-se uma criatura em miniatura, que era animada quadro a quadro e depois montada cuidadosamente dentro das cenas com gente de verdade.
Com pouca grana pra investir, normalmente o visual não ficava grande coisa. A miniatura era sobreposta ao cenário com atores através da tela verde, o que implicava em mais um processo fotográfico que diminuía a qualidade da imagem. Não podia haver poeira no ambiente ou a cena iria aparecer manchada (repare como a Enterprise está sempre borrada, riscada e com sujeira aparecendo na série original). Não havia monitores de vídeo, então o diretor de efeitos especiais tinha que fazer sabe Deus lá como os cálculos pras criaturas de borracha e as pessoas parecerem estar dentro da mesma ação. E, quando se fazia a animação quadro a quadro, a iluminação do estúdio de animação tinha que bater com o que já fora filmado, muitas vezes ao ar livre, com sombras caindo da mesma forma que os heróis.
Pouca gente tinha condição de fazer isso tudo e ficar bom. Willis O’Brien, que fez “King Kong” e “Mundo perdido”, era um desses. Os dois longas, principalmente o sonoro, do macacão, fizeram um tremendo sucesso. Tanto que um moleque de 13 anos viu “King Kong” e, embasbacado com o gorilão parecendo vivo, descobriu que era aquilo que ele queria fazer na vida. O garoto era Ray Harrihausen.
Ray Harrihausen trabalhou com O’Brien em “Mighty Joe Young”, animou discos voadores em “Earth vs. flying saucers”, o monstrão do primeiro filme de dinossauro acordando no mundo moderno (antes de Godzilla), o “Beast of 20.000 fathoms”, mas no final dos anos 50 arrumou um produtor que resolveu bancar suas experiências com efeitos especiais e começou a criar projetos com narrativas mitológicas que pouco eram além de uma desculpa e uma ligação para as cenas de criaturas saídas diretamente dos pesadelos das crianças enfrentando heróis e elas mesmas.
Essas cenas de lutas de monstros e atores eram criadas, produzidas e dirigidas por Harrihausen. Ele às vezes levava meses montando suas miniaturas com as pessoas até a luz bater de maneira que lhe agradasse. Além do trabalho insano dele, os longas tinham orçamentos pouco maiores do que boas séries de tevê, com atores desconhecidos (não necessariamente ruins, vide Torin Thatcher) e poucas cenas com palácios ou interiores luxuosos, mas muitas praias e vales rochosos.
Tendo que fazer tudo isso à mão, é absolutamente inacreditável que Harrihausen tenha posto de pé, logo no primeiro filme dessa “série”, a cena abaixo. Sabe-se lá como ele consegue animar o esqueleto e montá-lo em quadro de forma que Sinbad e ele cruzem espadas (epa!) e ele golpeie diversas vezes o escudo do marinheiro. Sem falar em outra das marcas registradas do Harrihausen, as criaturas com personalidade. O esqueleto não apenas se mexe, ele realmente está vivo, tem “peso” (o que mesmo as moderníssimas animações por computador poucas vezes conseguem fazer convincentemente), se balança para manter o equilíbrio, em suma, é fantástico como se pode fazer tudo isso apenas no olho. Mesmo as composições da luta são boas - Sinbad e seu adversário ocupam o espaço em cena agradavelmente à visão enquanto trocam golpes com fúria e violência, tocando-se o tempo inteiro! Eu e Zé José já muitas vezes discutimos como o velho Ray obtinha tanta perfeição nessas cenas de lutas com esqueletos (e todas as outras, em geral: os caubóis porrando - literalmente, trocando socos com um pterodátilo, por exemplo - dinossauros, uma estátua de seis braços enfrentando Sinbad, Talos, o guardião de bronze e muitos mais). Na minha opinião era magia negra. Na do Zé, ele viajou ao futuro e roubou um McIntosh.
No entanto, não satisfeito com essa luta de pouco mais de dois minutos que deve ter gerado uns dois meses de trabalho, o psicopata do Harrihausen resolveu subir as apostas: por que não um EXÉRCITO de esqueletos contra um grupo de decididos gregos? (Hmmmm…) E em “Jasão e os argonautas”, o celerado criador de efeitos especiais provavelmente concatena sua obra-prima. E, levando-se em conta que as animações por computador de hoje em dia são na verdade apenas desenhos (feitos com pixels, é verdade, mas desenhos ainda assim), poder-se-ia considerar talvez esta luta ATÉ HOJE o MELHOR EFEITO ESPECIAL DA HISTÓRIA DO CINEMA, por toda sua perfeição técnica e beleza.
No final dos anos 70, após o estrondoso sucesso de “Guerra nas estrelas” ter convencido os estúdios de que pessoas de todas as idades lotariam cinemas só pra ver efeitos especiais (vide “Avatar”), Harrihausen finalmente ganhou um tremendo orçamento, atores de verdade (Laurence Olivier, o melhor ator do século! Maggie Smith! Burgess Meredith! E a isca de público Ursula Andress) e fez “Fúria de titãs”. O longa foi bem nas bilheterias, mas não as estourou como o épico de Lucas. Finalmente dirigindo TODO o projeto e não apenas as cenas com animações, Harrihausen mostrou-se um pouco antiquado para a época e, talvez por vício, o filme, apesar de toda a grana enfiada, tem um ar de produção barata. Mas de qualquer forma, os monstros de Harrihausen continuam um barato (sacou? Barata, barato) e o velho ilusionista chega mesmo a se dar ao luxo de criar um personagem que podia ser feito por um ator com uma roupa de borracha todo em efeito especial, o vilão da história, Calibos (helenização do Caliban d’”A tempestade”).
“Fúria de titãs” foi refilmado e vai ser lançado este ano. Por que reciclar hoje em dia a historinha de Perseu e o título do filme de Harrihausen, que pouco mais eram do que veículos para o gênio do animador ganhar as telas é a grande questão. Quando qualquer um pode em casa com um Maya desses da vida fazer um monstro animado encher alguém de porrada, o que acontece mesmo nos seriados de tevê mais pobres, qual o sentido de se maravilhar com as encantadas criaturas mitológicas que nas mãos de Harrihausen passavam de meio metro a dez, vinte metros de altura?
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16 de fevereiro de 2010 às 14:28
Cara, geniais esses efeitos! Adorei o post!